
Por vezes a minha própria ignorância a respeito do mundo e de mim mesmo torna-se insuportável, então eu pego o casaco, visto o jeans, amarro o tênis e vou dar uma volta no quarteirão, à noite, para olhar as estrelas distantes na esperança de que uma resposta cósmica se aproxime e traga Luz.
Ultimamente as cartas do Peregrino têm se tornado inquietantemente freqüentes, como se ele também estivesse ansioso. Aí eu fico ainda mais. Se até ele não consegue se controlar, o que esperar de nós, “urbanóides”?! Apesar do ato de lê-las ser um alento balsâmico para as minhas angústias pré-existentes e existenciais, quanto mais ele escreve se descrevendo e as paisagens pelas quais passeia, mais eu imagino a vida que estou adiando, perdendo irremediavelmente nas dobras sem reposição do tempo predador.
Na volta não me surpreendi, pelo menos desta vez, ao encontrar o envelope pardo deitado na noite escura. Sabendo do meu peculiar vício de leitura, o carteiro anda brincando com o perigo e vai deixando a correspondência do Peregrino nos horários mais insólitos, só para mexer comigo. Tudo bem. Entrei e, me sentindo prisioneiro de um “déja vù” persistente e delirante, li:

“Manhã seguinte. 13 de junho. Ulé 6 pés. Tiramos a barriga da miséria, preenchendo-a com a essência divina do surf. Alimento altamente protéico. As direitas corriam paralelas à praia do lado direito da baía, tão perto que podíamos ser seguidos por quem andava na areia. Podíamos observar os detalhes das feições dos rostos espantados dos espectadores: hippies europeus perdidos na Ásia à procura de respostas além do conforto material e da polidez artificial das vozes dos pais e professores. Observávamos como as ondas quebravam, o que sentiam, vivenciando e co-protagonizando com elas este suave filme azul em câmera lenta. Latejavam a cada sessão e ao quebrar de cada “barrel”, como que perseguindo, ou melhor, acompanhando a pulsação do coração do universo. Seres perfeitos criados por Deus e pelo fundo de coral. Gregg finalmente disse uma frase, e a repetia sem parar: “Magic, mate, magic”. Apesar de suspeitar que o vocabulário do meu amigo era mais amplo, aceitei calmamente que não seria a quantidade de palavras que aperfeiçoaria a definição do que estávamos sentindo. As melhores, as “bueñas”, como diriam os meus amigos peruanos na distante villa surfística de Punta Hermosa, entravam incisivamente e sem pudores para dentro da baía, terminando gradativamente e sem pressa no profundo canal. Lavamos todos os horrores da alma com água salgada até onde a capacidade dos nossos braços permitia.

Uma nova parede azul com nuances de verde, às nossas costas, assim que dropávamos as seqüências de ondas, uma após a outra, dava um ritmo e um significado mudo às inúmeras peregrinações sem sentido que realizei na vida e dentro da minha mente insaciável por pensamentos. É aqui que o pensamento derrapa na emoção, sai de cena, torna-se inútil e te permite finalmente VIVER. Só resolvemos sair quando o gesto de levantar o cotovelo para mais uma remada era doloroso demais. Nossos corpos nos alertavam sobre os seus limites, solicitando educadamente uma pausa. Uma onda após outra, numa seqüência aparentemente interminável, continuava se aproximando da costa de Arugan Bay. Como se Deus estivesse sussurrando vezes sem conta o seu recado líquido até que finalmente fôssemos capazes de incorporar o seu sentido, flutuar sem esforço pelas arestas ilusórias dos caminhos do mundo e… OUVIR. Só nós dois dentro d’água. Em êxtase e definição, de quem somos, do que queremos.
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Na praia apenas uma pequena cabana de chá feita de sapé. Chá e pedras preciosas, rubis e safiras, eis o Sri Lanka. Sem esquecer as ondas e os elefantes, claro. Uma pequena manada de cinco, mais dois filhotes protegidos pelo semicírculo formado pelos adultos, trotava pela praia pouco antes do fim de tarde. Incrível. Esfreguei os olhos para confirmar se seria miragem, mas não, eles continuaram rebolando despreocupadamente suas bundas descomunais para o extremo norte da baía até sumirem na mata. Sentados em nossas pranchas, em paciente reverência, esperamos que passassem para enfim sairmos, já quase no escuro total deste agradável fim de tarde e de trilha singalês. Embora conscientes de que em grupo eles são supostamente mais calmos e amistosos, não queríamos perturbá-los, e assim arriscar “manchar” um quadro pintado tão primorosamente pela natureza. Saindo do mar, ainda incrédulo, fui certificar-me de que realmente havia pegadas na areia. Homem de pouca fé! Algo (pequeno) dentro de mim ainda duvida de que os milagres sejam presentes inesgotáveis e ininterruptos. A parte maior e mais saudável venceu: sim, eles existiam e passaram por ali, deixando crateras inconfundíveis. Ainda assim, instintivamente, esfreguei os olhos outra vez. As pegadas permaneceram na areia e as imagens na memória, reiterando a minha fé na beleza infinita da criação. Neste estágio as minhas memórias começaram a escorrer pelos dias. Molduras que já não faziam sentido, queimadas vivas pelo onipresente AGORA. Não sentia falta de nada porque tudo o que possivelmente poderia existir estava sendo.

Caminhei devagar acompanhando e pisando nas pegadas. Sentindo a vibração e a força daqueles seres ainda presente, pulsando naquelas marcas. Na verdade o Sri Lanka tem fauna para ninguém botar defeito. Incluindo aí também alguns tipos humanos esquisitos ou incomuns. O Gregg disse ter encontrado um escorpião de um palmo dentro do sleeping bag, por exemplo. Embora o bicho tivesse ficado mais assustado que ele, pude notar que até o bravo, sisudo e selvagem espírito australiano trepidou! Depois disso ficou bem mais cuidadoso, observando cada centímetro cúbico do quarto antes de entrar para dormir. Após o jantar, olhando as estrelas, eu vi um lagarto-dragão do tamanho de um pesadelo cruzando velozmente a trilha a minha frente enquanto “varria” as plantas rasteiras com seu rabo pré-histórico. Fora Colombo, o país inteiro parece ser um imenso parque nacional selvagem, com leopardos, tigres e animais ainda não catalogados pela ciência. No dia seguinte de manhã, entrelaçada nos bambus do quarto vizinho, dei de cara com uma enorme cobra verde, de pelo menos um metro e meio de comprimento, visivelmente irritada com a minha presença. Olhava nos meus olhos e mostrava sua mortífera língua bifurcada, aguardando meu próximo movimento. Contorcia-se ameaçadoramente como que me alertando que estava preparada para qualquer eventualidade. Aquela sim era uma verdadeira “local” defendendo seu território.

Coloquei cuidadosamente a prancha entre o meu corpo e o réptil para poder passar pelo estreito corredor, dolorosamente consciente dos meus dedos expostos. Desci e fui reclamar para o singalês de sarongue marrom que cuidava dos quartos. “No problem, sir”, disse com a maior e melhor calma hindu enquanto se munia de um pau que jazia ao lado da escada. Subiu rapidamente com seus passinhos curtos e nervosos. Naquele momento eu entendi o porquê daquele pedaço de pau ficar ali o tempo todo. Só deu para ouvir o barulho de quatro, cinco pancadas e o meu salvador já retornava com seu sorriso desfalcado de dois dentes, ao meu ver, estratégicos: “No more snake, master!”. “Por Buda e Maomé!”, pensei, é realmente outra realidade! Pedi ao Gregg para me lembrar de solicitar desconto na diária, afinal, durante aquela noite, inocentemente, havíamos divido o quarto por três! Bem-vindo ao Sri-Lanka!”