
Não sei por que o Peregrino me escolheu como receptáculo/alvo da sua correspondência. Ou até como conseguiu o meu endereço. Talvez ele queira um elo com a dita “civilização” e leu alguma coisa que eu tenha escrito em algum lugar com a qual se identificou. Não estou reclamando. É ótimo poder ler em primeira mão as viagens dele e, além de relembrar algumas minhas do passado remoto, aprender sobre outros lugares e me deliciar com alguém que possa estar fazendo o que muitas vezes eu mesmo gostaria.
Esta é também a parte ruim. Sinto uma puta vontade de viajar lendo suas cartas, e, no momento, não posso (ou como diria o Peregrino “acredito que não posso e assim crio constantemente o não-poder….”). Ele me obriga a exercitar a paciência e o distanciamento. Sou obrigado a ficar zen na marra. Uma contradição em termos…
Voltei de uma viagem de uma semana para o interior do Estado e fui logo cavando a pilha de correspondência acumulada para ver se tinha alguma pérola de além-mar escrita pelo meu amigo misterioso. Ultimamente ele tem sido profícuo, e eu estou na disposição para aproveitar a fase. Já tinha quase desanimado quando lá no fundo da pilha brilhou um pequeno envelope feito artesanalmente, como se ele não tivesse material apropriado e fosse obrigado a construir um. Não importa, pensei, é melhor um embrulho mal feito com conteúdo do que uma linda embalagem vazia de significado. Enquanto a imagem de algumas mulheres passava dentro da minha cabeça, sentei na calçada e li, carregado velozmente pela ansiedade…

“O primeiro instinto do surfista é sempre olhar ao redor a procura de ondas ou do menor sinal delas. Como o cão que fareja comida. Seja da janela do avião checando as linhas que se aproximam da praia, seja do táxi rumo a cidade, sempre de olho em algum pico interessante ao longo da costa ou de alguém circulando pelas ruas com uma prancha de surf. Uma onda mágica, uma onda perfeita, e de preferência intocada, desconhecida, virgem e enigmática. O mito virginal. Todos nós queremos ser descobridores e/ou criadores. Queremos brincar de Deus dentro da nossa limitada geografia emocional. Vaga ambição terrena. E pior que eu não sou diferente! Me pergunto, às vezes: por quê? Expandir a minha existência além da minha própria compreensão? Muitas vezes deixo o raciocínio chorar sua profunda mediocridade e apenas sinto. Nesta hora vejo Deus. Vestido de mar e coberto de ondas.
A onda, este ser volátil e temperamental, é o objeto do desejo, dos sonhos, da procura. É ela que os moleques de 14 anos rabiscam sem parar nos seus cadernos escolares e os adultos folheiam voluptuosamente nas revistas de surf, como numa acolhedora Playboy de água. É esta onda imaginada que tem prioridade até sobre as garotas, talvez por ser menos palpável e mais longínqua. É com ela que sonham a noite e é atrás dela, a onda, que correm a menor chance, ou melhor, brecha, que a sociedade com suas obrigações lhes dá. Eu e o Gregg, como já disse, não éramos exceções. Amontoados na janela, pouco antes da aterrissagem, tentávamos ver de que lado da enorme ilha quebravam as melhores ondulações. Lá embaixo um enigma em forma de esteira de espuma. Não conseguíamos avaliar a extensão nem o tamanho. Só a cor: verde-esmeralda. Era impossível saber se era raso, ou se o fundo era de coral ou de areia. Mas o vento, este sim, podíamos dizer com certeza que batia contra, off-shore, penteando e aperfeiçoando aquelas formas de água ondulantes que encostavam na costa do lado oriental. Era para lá que deveríamos ir, do outro lado do país: Arugan Bay, praia de Ulé.
Estimamos dois dias de viagem de Colombo, talvez menos. Selva, cordilheira, selva, pântano. A procura da perfeição nunca foi fácil, mas ninguém estava preocupado com as dificuldades, tudo o que conseguíamos enxergar era nós mesmos já surfando aquelas direitas desenhadas pelo divino, sem ninguém na água, fazendo nossa alma voar, deslizando como deuses sobre a superfície azul, existindo como nunca antes, existindo tão plenamente até quase explodir. E era só isso que víamos quase tão nitidamente como se estivéssemos vivenciando estas sensações naquele exato instante. E era esse o objetivo da procura sagrada: o Santo Graal líquido e cilíndrico, o Paraíso de Netuno, o presente de Deus. O próprio Deus.

Charlie, o “Salvador”, 1,50 m, olhar vago, pele manchada, dois anéis de ouro falso ornamentando as mãos sujas de lama surgiu na nossa frente balançando a cabeça, naquele típico cacoete local que parece dar ritmo à raça e encaixar a fala ao pensamento. Já estávamos de saco cheio de Colombo. Fartos de uma cidade sem as comodidades de uma e com todas as mazelas de todas. Quer U$ 70 pela corrida de táxi até Arugan Bay? Tudo bem. Pegamos o velho e heróico táxi do Charlie para Porthuvil, cidadezinha ao lado de Ulé, o pico propriamente dito, em Arugan Bay. Enfrentamos nove horas dali no Fordeco 59 do Charlie e do seu amigo quietão, de turbante marrom. Por algum motivo, nós dois, eu e o Charlie, escolhemos amigos circunspectos, pensei. A opção que a sua velha carroça de ferro enferrujado nos ofereceu era bem melhor do que os três ônibus que fazem o trajeto. Muito melhor. Atravessamos o país, subimos a cordilheira que o divide ao meio como uma coluna vertebral verde, cheia de hérnias e artroses, mas onde dizem habitar a árvore mais antiga do planeta. Buda andou por aqui, marcou com seus pés descalços as trilhas sagradas. Dizem que encontrou a Iluminação exatamente sob a sombra desta árvore. Pedimos para parar por alguns instantes para termos a oportunidade de sentir um pouco daquela Força.
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Há apenas alguns metros da árvore todo o som cessava. Não se ouvia o trinado dos pássaros nem o uivo do vento. Só o silêncio da paz. O lugar estava envolto por uma proteção invisível que transmutava nossas células e tudo a nossa volta. Iluminando e energizando cada partícula. Éramos nós, mas em outra freqüência. Muito mais sutil e consciente. Víamos nossas pernas se movendo, sentíamos nossos pulmões se enchendo de ar e percebíamos nossas mentes cessando os pensamentos revoltos. Ao lado da árvore o céu se expandia para dentro da terra e o respirar não mais exigia nem o mínimo esforço. Viver se tornava leve, sem dor ou mágoa. Sem medo. Fechei os olhos querendo reter aquele momento para utilizar sua energia no futuro, em caso de necessidade. Nada consegue reter o presente.
E por isso ele transborda e se renova em consecutivos presentes nos imprevisíveis caminhos da vida e no ardente limiar da morte. E por isso a vida é infinita, por não se repetir ou recuar. Voltamos ao carro a duras penas, mortificados até a medula, já que abrir mão do êxtase não é tarefa fácil ou comum para nós, aprendizes de mortais. De surfistas. Do outro lado da cordilheira uma planície imensa se estendia majestosa, seguida de um pântano abissal. Um vento inusitadamente frio se abateu sobre nós. Um calafrio persistente e incessante parecia percorrer todos nós ao mesmo tempo. Já estava escuro quando a luz mambembe do nosso precário veículo bateu na bunda imensa de um elefante bem no meio da estrada. Gregg e eu achamos graça. Charlie e seu amigo, não. Olharam apavorados um para o outro, desligaram o motor e as luzes e começaram a subir as janelas apressadamente. “Qual o problema, my friend?”, indaguei. “One elephant is no good!”, disse com os pequenos olhos assustadoramente esbugalhados.

“Tá certo! E de que adianta fechar as janelas ? Você acha que um elefante deste tamanho não passa por ela com um pequeno tapa da sua tromba?”, perguntei com aquele sarcasmo que por vezes é primo-irmão da ignorância. Enquanto o seu amigo sisudo fechava ainda mais a carranca diante da irritante ignorância dos estrangeiros, Charlie teve a paciência de explicar que os elefantes costumam andar de turma, e não é natural que sejam vistos sozinhos. Nestes casos raros, ou estão velhos indo voluntariamente para o cemitério da família, ou estão loucos. Em qualquer dos dois casos são perigosíssimos, detestam cheiro de gente (daí a janela fechada), e não foram raros os casos de carros serem atacados por eles, quando chutam, sentam em cima (êpa!) e matam todos lá dentro. Eles evidentemente não compartilham conosco a mesma noção de ética ou de respeito à vida humana. Não pude deixar de pensar que o exagero na condimentação com especiarias e molho curry na comida local tinha certa responsabilidade na implicância do paquiderme com o odor humano. Por outro lado não me pareceu justo perecer desta forma inglória pouco tempo depois de termos visitado e nos iluminado, embora de forma fugaz, numa das sagradas moradas de Buda. Os diferentes conceitos de “justiça” ricocheteavam por dentro da minha cabeça que latejava cada vez mais. Não era hora de proposições teóricas. O nosso instinto de sobrevivência pedia ação urgente. Desta vez quem trocou olhares assustados fomos eu e o Gregg. “Deixa, cara, se esse elefante vier pra cima nós tiramos as pranchas do carro e saímos remando um para cada lado neste pântano!”.
Felizmente não foi necessário. Depois de mais ou menos uma hora parados, nos contendo para não tomar nenhuma atitude precipitada ditada pelo nosso lado animal, acendemos os faróis e pudemos ver o enorme vulto do elefante solitário, ele também um peregrino à sua maneira, lá longe em meio à névoa, saindo da estrada e entrando à direita no pântano até a cintura. Soltamos o ar todos ao mesmo tempo, o que acrescentou nova camada de odor ao cheiro viscoso dentro do nosso limitado espaço fechado, e seguimos para Ulé. Já estava mais que na hora de ver, tocar, sentir uma ondulação! No restante da estrada até o minúsculo vilarejo convivi agradavelmente com uma consciência clara: a presença da morte iminente nos engrandece. Caem todos os véus e a realidade se impõe limpa e soberana. Quanto mais perto da morte mais lucidez. Vem daí a sua atração natural e seu charme feroz. Todas as ilusões pictóricas deste mundo se desvanecem e, como uma bênção, vemos o nosso verdadeiro rosto sem carne. No entanto, tão sereno e plácido como jamais imaginávamos ser possível. Todas as atividades e picuinhas desta vida se encaixam na sua devida proporção e importância.
Ou seja, quase nenhuma. A morte é a verdade. A proximidade da mãe-morte nos acorda e prepara suavemente para o despertar definitivo (como fazer para não ansiar demais?!), para o momento da transcendência. Embora a decisão do momento mais propício não esteja em nossas mãos, lembro-me vagamente do seu outro extremo que finalmente a toca: meu nascimento. Neste instante sou obrigado a render-me pacificamente à beleza do ciclo planejado pelo Cosmo, e choro ao perceber a grandeza que me envolve”.