
Já tinha tomado fôlego para receber uma carta do Peregrino só daqui a alguns meses, mas ele me surpreendeu novamente. Está se tornando um hábito. Ouvi a campainha e, antes que eu atendesse, vi um envelope bizarro de papel grosso, amarelado, com pequenas manchas vermelhas de substância não-identificável ser jogado por debaixo da porta.
Um tom forte de amarelo de bata de monge budista com aquelas pequenas e estranhas estrias vermelhas, como se fossem pequenas raízes cortadas junto com a fibra da celulose e que espalhavam seus tentáculos insidiosamente pelas palavras: “São Paulo. Brasil”. Ainda não tinha acordado direito, mas limpei a remela dos olhos com o indicador ainda com cheiro de pasta de dente para gengivas sensíveis, sentei-me à mesa para o café da manhã e, tomando cuidado para o mamão com granola e linhaça não sujar as folhas, comecei a ler.
“Saímos do jato da Garuda Airlines e passamos rápido pela alfândega. O símbolo do deus balinês em forma de águia me olhou pela última vez impresso na porta de saída da aeronave. O governo local não quer criar empecilhos para os turistas e seus dólares, pelo contrário: ‘deixem o fluxo de moeda estrangeira fluir para dentro’, como diriam os nossos ministros da Fazenda. Na saída do aeroporto fomos recepcionados por dezenas de crianças tristemente maltrapilhas e previsivelmente pedintes, o que se confirmou em segundos. Vendiam de tudo e queriam de tudo. Talvez porque não tivessem nada e já estivessem acomodadas com a idéia de que não conseguiriam sucesso na vida em outro tipo de negócio. Olhares rancorosos, desesperados, tristes e desconfiados. Complexa escolha daquelas almas de mão estendida. A cena não continha nada de novo para quem viaja pelo terceiro mundo com corpinho de quinto.

Entramos num táxi cujo motorista possuía o rosto mais confiável no nosso modesto julgamento. Uma cabeça de cobra pendendo do espelho retrovisor nos fez rever a decisão, mas a pressa de sair dali era maior que o gosto amargo do arrependimento. Pedimos um hotel barato e limpo. Dez minutos depois estávamos no centro de Colombo. De dentro da sua tumba, se pudesse, o navegador certamente protestaria contra esta vexatória aplicação do seu nome. Quando entramos no quarto, percebemos que o motorista só havia entendido a palavra ‘barato’. Solicitamos uns jornais para colocar nossas mochilas e pranchas em cima. Seria melhor contaminar a nossa bagagem momentaneamente com notícias sensacionalistas do que para sempre com os germes alienígenas daquele chão escuro e daqueles móveis de utilização e procedência para lá de duvidosas. Manchas indecifráveis na forma e no conteúdo espalhavam-se pelo piso de tábuas carcomidas pelo tempo e por animais rasteiros de etnia bizarra. O aroma que rondava o ambiente era tão inusitado e penetrante que não ousei tentar decifrá-lo. Uma sujeira desconhecida. Era melhor não tentar saber do que se tratava. Embora eu seja um buscador, sou obrigado a conceder que a ignorância, por vezes, é uma bênção.
Quando o sol já descia por entre os prédios baixos, colocando a poeira que levantava das ruas em evidência, fomos dar uma volta pela cidade. Ao nos aproximarmos do quarteirão indicado pelo “concièrge” do nosso hotel/muquifo como a melhor opção para jantar, já estava totalmente escuro e alguns turbantes difusos passavam pelas ruelas e becos recitando palavras incompreensíveis e, aos nossos ouvidos, ásperas. O único lugar decente para se comer era o restaurante do único hotel internacional da cidade, o Intercontinental. Estava tudo às escuras. Uma queda na energia tinha deixado a cidade, talvez o país, mais ou menos como o quinto dia da Criação. Deus ainda não havia inventado a luz. As estrelas brilhavam mais forte em sinal de agradecimento. Era estranho transitar por aquele ambiente ocidental à luz de velas. Parecia um filme policial “noir”, da década de 30, com os personagens sussurrando maliciosa e discretamente. Provavelmente assuntos criminosos e segredos que afetariam maleficamente algum incauto. O lobby estava povoado pela fauna local acrescida de uma variedade olímpica de tipos estranhos das mais diversas partes deste mundo e talvez de outros. O tom de sussurro permanecia, harmonizando com o clima de penumbra.

Negociantes de chá vindos da Inglaterra, jovens prostitutas tailandesas, fazendeiros locais negociando com o seu inglês truncado através dos lábios morenos do Ceilão; mulheres de sarongue servindo whisky, brandy, vermute e chá, transitando como folhas coloridas de um romance a ser escrito, flutuavam etéreas e atraentes, levadas pelos sopros das vozes. Dava a nítida impressão de que uma conspiração estava em curso, de que idéias estavam sendo segredadas para ouvidos experientes, das quais nada sabíamos, das quais estávamos sumariamente excluídos e das quais talvez fôssemos as próximas vítimas. Nos sentimos assistindo a um filme onde todos protagonizavam, e somente nós dois éramos os expectadores. Não gostei do enredo nem do cenário. Pensei em pedir o dinheiro do meu bilhete de volta, mas era tarde. Com um gesto ao mesmo tempo brusco e enfadado, o garçom já estendia o volumoso cardápio de couro.
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Escolhemos o prato de menor risco e menor preço na lista de opções bilíngüe. Assim que chegou, comemos rápido, tentando não sentir o gosto. Pagamos com algumas notas velhas e vermelhas e saímos tateando com a pressa dos cegos para chegar ao nosso quarto, prontos para o esperado encontro com um sono pesado. Sonhos confusos e exóticos entravam e saíam da consciência durante toda a noite. Só lembrei de um: sonhei que dropava uma onda gigante, do tamanho de uma montanha, calibre Tibet. Eu descia, descia, descia e nunca chegava na base. Senti a sombra do lip me cobrindo e jogando sua água quilômetros à minha esquerda. Uma direita do tamanho de Deus e eu de backside! Quebrou tão longe que não ouvia o barulho da espuma dilacerando a superfície do oceano. Galhos e raízes pendiam da superfície da água acima da minha cabeça. De repente aquele túnel imenso escureceu por completo.
Ouvi o som de uma música hindu e vozes cantando mântras desconhecidos e melodiosos. Percebi que surfava velozmente para a morte, mas que ela, estranhamente, era amiga. Que o objetivo era surfar a última jornada. A última experiência. A pressão dentro daquele tubo descomunal era indescritível. Tudo acontecia ao mesmo tempo: todas as vivências, acontecimentos e rostos humanos que existem, já existiram e vão existir. As imagens lambiam e raspavam as minhas retinas, ultrapassavam as córneas e invadiam o cérebro, rodopiando na velocidade de um ciclone.Tudo era sentido ao mesmo tempo pela minha mente, pelo meu corpo e pelo meu espírito. O canto do meu olho direito percebeu uma presença aguda. Um estranho falcão negro passou por cima da minha cabeça num rasante veloz soltando um trinado estridente. Ao me tocar, a sua sombra congelou meus ossos. Era meu companheiro nesta jornada tubular. Quando a cordilheira de água finalmente se fechou sobre mim, acordei suado e estranhamente feliz: algo ruim e sujo havia sido lavado lá de dentro da minha memória, e que nunca mais voltaria…

Acordei com o sol na cara. A fumaça do incenso que o Gregg havia acendido flutuava como pequenos fantasmas sorridentes pelo incômodo raio de luz. Seus rostos se contorciam e se desfaziam contra o vidro da janela sem cortinas. Olhei para a feição compenetrada do meu amigo fitando a rua e senti que, estranhamente, eu vivia a sua respiração. Entrei no seu ritmo. Penetrava nos seus pensamentos e me preocupava com suas dores e lembranças. Osmoticamente me transferi para ele num doentio sinal de solidariedade. Saí de mim. Percebi meus músculos se retesando pela tensão que representava abdicar do meu corpo e sofrer em outro. Há muito tempo que eu não experimentava esta minha tendência de total identificação com outra pessoa. Um dos motivos pelo qual vago pelo mundo sozinho é exatamente para me privar das referências externas conhecidas, familiares, que podem me dar conforto e acolhimento, mas que também me tiram do Centro.
Viajando só, não tenho alternativa senão encarar o meu próprio Eu, profunda e constantemente. Forçar a convivência comigo mesmo foi a fórmula que encontrei para descortinar a minha Essência, e com toda a esperança do mundo, finalmente encontrar a mim mesmo, o meu deus perdido no próximo. Vendo tudo isso me veio a clareza do porquê da escolha de alguém para viajar neste momento: já estava preparado para dar o próximo passo: ser totalmente eu, mesmo na presença e no convívio de terceiros. Neste instante a minha alma recolheu-se, voltou para o meu corpo, e, apesar de sentir a compaixão natural pelo eventual sofrimento do meu amigo, eu não era mais aquele sofrimento. Pude assim voltar a ser íntegro, abrindo desta maneira a possibilidade de ajudá-lo concretamente. Conversamos durante um bom tempo e, com calma, pude entendê-lo e contribuir para a cicatrização de algumas de suas antigas feridas. A conhecida instrução nos vôos de “Puxe a máscara de oxigênio para você e só depois ofereça ao outro”, me pareceu mais coerente e de bom senso e soou menos “egoísta”, termo cunhado artesanalmente pela sociedade para nos foder um pouco mais, impregnando a nossa psique com lixo tóxico. Assim como “culpa”, “sacrifício” e “vítima”. Expressões que representam ilusões sem sentido. Ninguém pode salvar ninguém se não estiver salvo antes. Ninguém pode mitigar o sofrimento alheio se não souber lidar com o próprio. Não existe vítima, culpa ou sacrifício. Existe a fantasia da suposta recompensa por ser o portador “heróico” destes sentimentos “nobres”.

Alugamos um carro para nos levar ao outro lado do país/ilha: “Você sabe onde fica Arugan Bay, aldeia de Ulé?”, perguntávamos. Na rua, os motoristas de táxi perambulavam de lá para cá e discutiam entre si com seus turbantes poídos, seus calcanhares sujos e seu dialeto entrecortado. Suas peles possuíam não o negro reluzente dos africanos, mas aquela cor acinzentada dos hindus. Suas sandálias de couro, só pela aparência, fediam fortemente antes mesmo do odor atingir as nossas narinas. Carregavam o “Chulé Sagrado”, tradição cultural e olfativa. Os cavanhaques estilo Nehru (antigo primeiro-ministro da Índia) compunham e completavam o quadro. A “aura” dos muçulmanos claramente difere da dos hindus. É interessante observar como o semblante das pessoas é a tradução do que elas são mais o que absorveram culturalmente durante a vida. A mãe Índia, contemplativa, milenar, refletia de dentro para fora, emanava dos olhos daqueles homens e me carregava para o seu interior, enquanto eu tentava imaginar o que me esperaria no seu mundo desconhecido”.