
?O Universo não é uma máquina, um mecanismo. Assemelha-se, cada vez mais, a um grande pensamento?. Kapra, mestre em Física Quântica.
Quanto menos eu espero, mais me aparece o que necessito. Quanto mais eu fico comigo mesmo mais espaço energético o cosmos tem para agir em meu favor, sem a interferência estática de pensamentos caóticos. Não adiante fingir ?distração? para abrir caminho para o fenômeno.
Tem que ser parte da dura e amorosa prática da sinceridade total. Ao mesmo tempo uma dose de esforço prazeroso, não sofrido, é fundamental. Movimenta a engrenagem universal.
Qual a intensidade e a intenção? É o aprendizado de cada um que determina o ponto ?ótimo? onde habita o equilíbrio. Estava dentro desses pensamentos quando, mais uma vez, o ritual de contato com o lado de lá da matéria, como costumo chamar as cartas do Peregrino, teve início. A campainha tocou e a leve correspondência aterrissou na minha porta.
?Penetrando na floresta setentrional do vale de Prinkratruama, ainda meditava ativamente sobre a experiência recente na modesta cabana em Pranaxtu. Gotas de chuva quente escorriam docemente sobre o meu rosto. Fechei os olhos e pude ler, na tela da mente, o pergaminho ilustrado da memória. Não tive medo de tropeçar ou bater numa árvore, os meus passos eram guiados pelo fluxo mágico da vida sincronizada com a natureza. Tudo estava a meu favor, e as pegadas eram o meu carimbo humano registrando meu breve momento nessa terra. Li as palavras do guru, ditadas em linguagem de sonho real. A aura verde que envolvia o texto realçava os significados.
Dizia: ?A maioria das pessoas, nas primeiras encarnações, não tem o conhecimento ou a capacidade para se doar, o que é, embora não percebam, muitíssimo prejudicial ao seu desenvolvimento como emoção viva, e à sua própria evolução espiritual. Abrir o coração facilita enormemente o fluxo da vida passar pelo nosso ser, revitalizando, limpando, curando e, em última instância, nos permitindo ser autênticos. O medo nos impele à individualidade, faz com sejamos únicos, estanques, fechados, isolados. O amor, como todos já devem ou deveriam saber, nos liberta.
?Ame e faça o que quiseres?, diz a Bíblia dos cristãos. Sábio conselho. Se amares não haverá possibilidade de prejudicar a ninguém, então o livre arbítrio será exercido da maneira que o Criador o idealizou. Faça, então, o que quiseres, será sempre e necessariamente para o bem geral, para o equilíbrio do sistema vital. ?Que eu veja a cada um dos seus filhos como Tu mesmo os vê, e assim, só ver o bem em cada um…?. O medo nos faz viver a vida artificial da ?separação? dos outros, do cosmos, de Deus. Nos sentimos fragmentados porque somos fragmento, ou imaginamos ser. O todo é muito maior, a alma abrange tudo e não conhece fronteira. A mente cria e impõe os limites, as paredes, quando, na verdade, não há.
Enquanto caminhava para o meu destino final nessa densa etapa dentro do subcontinente indiano, em direção ao mar do Ocidente, pensei nas mágicas e muitas vezes desapercebidas ligações humanas. Pensei no aleijado orientando o cego, no cego ajudando o surdo, no surdo apoiando o aleijado, no aleijado em nós ajudando a todos. A Humanidade reconhecendo-se no seu rosto magnânimo. Uma esperança. Basta um momento ínfimo, apenas, e o sol se abre dentro do peito. É óbvio que um cego também pode ajudar outro cego, é só entender que pode. Nós todos podemos nos ajudar. Do princípio em si forma-se a totalidade em nós.
Nesse momento alguns pássaros de diversas espécies nativas, munidos de diferentes matizes de cor, deram uma rasante seguido de um repentino barulho ensurdecedor, à margem da trilha, como para me alertar, concentrar a atenção nos pensamentos que agora me acometiam. Voltei o foco para a linha de raciocínio, paradoxalmente, para o coração: pensei na facilidade que temos em nos ajudar, porque quem ajuda o outro ajuda a si mesmo, duas partes do mesmo todo. Simples.
Tenho que aprender tanto, tanto ainda: minha consciência é como um enorme recipiente espiritual que, quanto mais o preenchemos com verdades, mais se agiganta e mais cresce em espaço interno. Uma verdade que aparece multiplica-se em inúmeras outras, num aprendizado sem fim. Cada nova revelação abre as portas de mil novos enigmas. Sou um privilegiado, caminho pelas estradas do Amor, nado nos mares da Compreensão, surfo as energias do universo, presencio, deitado de costas na terra, o Infinito pintado de azul. Ouço meu coração pulsar no ritmo de Deus. Aprendo a respirar e a focar mesmo em movimento, que o fluxo da vida é para ser vivido e não somente presenciado.
Os ensinamentos se acumulavam cada vez mais superpostos. Tudo o que aprendi até hoje é o filhote de um grão de areia na imensa praia universal, mas já é o suficiente por enquanto. A Índia estava me deixando para trás. Era hora de partir. Havia estado com o guru, não onde ele habita fisicamente, mas em todo o lugar, pois é onde ele realmente está. Meus músculos andarilhos comichavam ansiando pelo movimento e pela mudança. Já podia agora respirar, entrar em contato com o meu majestoso interior durante o percurso, com aquela paisagem interna que todos temos e que, por distração ou falta de fé da maioria, só alguns acessam. Impregnado do que vivi e da presença do guru caminhei em direção a Goa, na costa ocidental do continente indiano. Eu estava novamente indo de encontro ao oceano, e ele já me contemplava de longe.?