
Poucas vezes me senti tão ?no ar?. Com a maior parte do mundo em espasmos de violência e inconsciência, fica meio difícil ter a ?convicção dos deuses? para os atos cotidianos.
O Peregrino não me enviava cartas há um bom tempo, ou talvez fosse só minha impressão…A minha necessidade gerava expectativa que gerava frustração que gerava sofrimento que me distanciava dos objetivos e de mim mesmo. Rapaz! Já estou falando como o Peregrino!
Esses pensamentos escritos devem ser contagiosos. Dei algumas respirações profundas e voltei ao prumo. Foi só começar a reclamar (ou a desencanar ? desligando-me completamente das ?necessidades?) que a campainha soou com o peculiar toque do carteiro Jeremias: dois apertos curtos e um longo, até o talo.
O temperamental gato egípcio da vizinha de trás miou o miado dos excitados. O velhinho sabia da minha alegria ao receber os envelopes exóticos. Lá vem mais uma dose em forma de carta para minha crise de abstinência existencial:
?Os primeiros raios de sol atravessavam magicamente o esqueleto das árvores purificando cada galho no seu ritual diário de luz. Como um raio-X de fogo expunham a transparência das folhas, revelando suas delicadas ossaturas. Eu já caminhava a mais ou menos uma hora dentro do silêncio. O que fazia com que meus passos rendessem mais.
Os ruídos, quando não impedem por completo, obstruem e dificultam sutilmente a passagem e o movimento livre dos corpos. Hoje eu respiro o ar com fluidez e presteza. O imã da simples presença do guru, mesmo a centenas de quilômetros, acelerava cada fibra do meu ser, contribuindo para uma aproximação ainda mais ágil, feita de um esforço sem dor.
Pelos caminhos eu ouvia as histórias dos homens santos, feitos da mesma matéria espiritual do guru, galhos abençoados da mesma árvore onipresente, da mesma raiz inspirada.
Do miraculoso Yogananda, que transportava sua alma através de milhares de quilômetros enquanto seu corpo permanecia no puro êxtase meditativo, que tinha a levitação como prática comum e corriqueira, que fora imbuído da hercúlea missão de servir de ponte humana entre a civilização oriental e a ocidental (como o fez, de maneira totalmente diferente, Alexandre da Macedônia no séc. IV A.C), em traduzir o espírito hindu para uma sociedade drasticamente impregnada de materialidade.
Do homem que, ao morrer, teve seu corpo insepulto cheirando a flores durante vinte dias. Um exemplo eloqüente da superioridade do espírito no amplo contexto humano, e do que nossa mente pode fazer pela nossa matéria/corpo quando sob controle. A deterioração é fruto podre da desconexão dos dois, matéria e espírito. O desafio nesta vida: sua integração, a resposta, a volta ao lar.
Eu sabia que o guru me chamava, podia ouvir cada dia mais claramente os sinais do seu tranqüilo apelo: as luzes inesperadas por detrás dos arbustos, os sons de músicas inéditas reverberando do nada, os odores desconhecidos e perfumados sem origem identificável encontrando seu caminho entre os nauseabundos fedores dos vilarejos, todos me transmitiam uma paz profunda, tudo isso ia compondo um quadro cada vez mais nítido, complexo, e ao mesmo tempo simples, de um universo que eu reconhecia com alegria, sem nunca ter visto.
Fechei os olhos e vi mais claramente. A ante-sala da presença do guru já me oferecia novos sentidos e a ampliação dos que eu já possuía. Ainda de olhos fechados percebi a existência de cores que eu nunca tinha visto extrapolando o espectro do arco-íris; cheiros jamais pressentidos dilatavam minhas narinas e consciência; na pele me chegavam sensações sem nome, diferentes do frio e do calor, além deles e dentro deles; minhas papilas gustativas ficaram alertas como nunca, esperando novos sabores, sabendo agora que existiam: pus a mão na boca e a minha pele tinha matizes de gostos que eu não saberia descrever, não havia parâmetro de comparação com nada que eu experimentara; comecei a ouvir trinados inéditos, as nuances dos sons do vento, o murmúrio das nuvens, o planar das folhas no seu lento caminho até o chão de terra vermelha, o ruído vago, mas incisivo, sempre presente, da morte.
Tudo isso já existia e era eu que não percebia, ou só agora, com a iluminação do homem-santo tão próxima é que me foi permitido acessar? O meu ?aparelho? corpo, essa fantástica antena, tinha ampliado a sua capacidade geometricamente ou aberto canais já existentes, inerentes a ele, só agora libertos?
O universo adquiriu dimensões vastas, amplitudes que só a ausência de palavras ousaria compreender. Novos sentidos foram adicionados aos meus tradicionais já ampliados. Visões do tempo em três dimensões. Passado, presente e futuro conviviam no mesmo canal de intuição, horizontalmente; acima e abaixo, e nas diagonais, novos sentidos de tempo se formavam e revelavam-se, em novos formatos e características, adicionando inúmeras outras dimensões ao meu mundo.
Meu cérebro absorvia tudo. Os seus 98% não utilizados até agora estavam sendo desbravados. O potencial de um espírito com capacidade sem fim sendo finalmente utilizado. Ou era a abertura da minha visão que simplesmente retirou o véu de um orbe já existente?
Todas as minhas moléculas foram afetadas, ampliadas, energizadas e desenvolvidas. A minha estrutura celular transbordou pelas bordas dos seus limites físicos. Surfei na paz de uma Consciência Infinita, e foi aí que ouvi, pela primeira vez, a presença completa da minha alma em mim, a minha própria Voz?.