Soul surf

O Surfista Peregrino ? Índia ? Parte VII

“Paz é sua própria natureza. Paz está na sua natureza nata – não pode sair de você.”
Sri  Sri RaviShankar
 

Quanto mais eu deixo de tocar meu violão, pintar meus quadros, escrever, fotografar, surfar, olhar para os olhos das pessoas, mais eu me distancio do Peregrino. Muitas vezes a ponto de não compreender o que ele tenta dizer. Ele se torna um estranho. Exercer a criatividade está intrinsecamente ligado à manutenção da alma. Fechar-se no material, exclusivamente, é a morte em vida, um lento e doloroso distanciamento da essência. Ultimamente não tenho desejado receber suas cartas, como se elas fossem me distrair das minhas metas de trabalho, por exemplo.

 

A ausência do contato com seus sons longínquos me leva para um extremo radical da minha personalidade. Quanto mais o leio, mais percebo que ele me ajuda no equilíbrio, a entrar em contato com o divino que existe em tudo, inclusive na matéria. Ouvi os passos do carteiro lá fora. Esperei dois segundos e as primeiras notas da Courante, de Bach, da campainha, ressoaram nas paredes da cozinha. Sua carta chegou entre um pensamento e outro, quando eu ainda não tinha expirado todo o ar e os pensamentos dos pulmões, um pouco antes de inspirar a paz que eu esperava estar contida nas páginas preenchidas com a sua caligrafia serena.

 

“O Homem feliz é aquele que está satisfeito com o que tem. O Homem sábio é aquele que está satisfeito com o que é”.
           

“No pôr-do-sol de mais um dia caminhando pelas suaves terras hindus, as montanhas grudadas no horizonte, ao longe, contrapunham-se fortemente a minha alma descolada dos apelos exteriores. Não havia “posse” dentro de mim, apenas a aceitação serena de tudo o que existe. Estranhamente, veio à minha mente, palavra por palavra, a mensagem do chefe Seattle, por volta de 1852, ao governo norte-americano. O governo dos Estados Unidos havia feito um inquérito sobre a aquisição de terras tribais para os imigrantes que chegavam ao país, e o chefe Seattle escreveu em resposta uma carta maravilhosa:

“O presidente, em Washington, informa que deseja comprar nossa terra. Mas como é possível comprar ou vender o céu, ou a terra? A idéia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los?
Cada parte desta terra é sagrada para meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo. Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das Campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.

A água brilhante que se move nos rios e riachos não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhe vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias na vida do meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.
Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.

Se lhe vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda vida que ampara. O vento que deu ao nosso avô seu primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhe vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.

Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece a terra acontece a todos os filhos da terra. O que sabemos é isso: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo. Uma coisa sabemos: Nosso Deus é também o seu Deus. A terra é preciosa para ele e magoá-la é acumular contrariedades sobre o seu criador.

O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens, todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram! Onde estará a águia? Desapareceu! E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.

 

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Quando o último pele vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a sua memória for apenas sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície… Estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?
Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhe vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na, como Deus nos ama a todos.

Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: Existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos.”

 

Ao terminar o “insight”, a voz do velho índio ainda vibrava dentro de mim. Interessante observar como os indianos, de uma civilização tão distante no tempo e no espaço, compartilham muitos desses valores. Também impressionante ouvir a voz dos antigos havaianos ditando quase o mesmo pensamento, assim que os homens brancos, liderados pelo Capitão Cook, chegaram ao arquipélago no fim do séc XVIII, e eles puderem interagir. Eles expressavam seu espanto dizendo:

 

“Como podemos comprar ou vender o que não possuímos? Quando nascemos, a terra, os rios, as nuvens e o céu já existiam; quando morrermos, continuarão a existir. Então, como podemos possuir o que transcende a nossa existência?”. Havia 300 mil habitantes nas ilhas quando o primeiro navio aportou. Trinta anos depois restavam 40 mil havaianos. Tinham sido dizimados pela sífilis, tuberculose e gripe comum. Não havia anticorpos para receber e combater as bactérias européias, nem anticorpos para receber e combater a cultura predatória. Do outro lado do mundo a mesma clareza e a mesma tragédia. Onde foi que perdemos o contato com o Deus/natureza? Quando começamos a entender que poderíamos prescindir da sua convivência, de que somos entidades à parte? Por que o “primitivo” é mais consciente?

 

E por que aniquilamos o nosso sábio-primitivo? Evoluir materialmente significa obliterar as visões e sentidos mágicos? Não somos nada palpável, visível, cheirável. Esse é o nosso veículo. Nada possuímos, vivemos na ilusão do poder da posse. Queremos ser proprietários do ar, da terra, do fogo, da água, do amor. Pensamos possuir um corpo e uma alma, quando na verdade tudo é instrumento transitório com tempo de utilização pré-estabelecido, uma rápida passagem que pode ser preenchida com esse mesmo amor ou sofrimento, aí sim, à nossa escolha, sob o nosso poder. Eu não me lembrava da última vez que tinha sido sugado para fora por um desejo ardente ou uma expectativa mais doce, mas os sofrimentos destes momentos, estes sim, relembravam sua passagem por mim com pruridos e arrepios por todo o meu corpo. O meu físico retinha a memória do que ocorrera, mas não se identificava mais com a suas causas.
           

Algo lá dentro, no cerne do meu ser, me empurrava para frente, ganas de entrar no coração da Índia, com sua espiritualidade latente nas rochas e nuvens, mas também com suas artérias entupidas do denso colesterol humano. Uma paixão de natureza diversa. Raras veias não congestionadas remetem à imagem do “sossego” oriental, algumas clareiras na selva de carne. O hindu aprende, e é esse um dos seus desafios cármicos, a encontrar o equilíbrio no caos, a buscar o bem-estar chafurdado na contingência do convívio intenso dentro da massa crítica de milhões de seus semelhantes. Não há como fugir do toque, do cheiro, da visão do outro. A arte da percepção acurada da presença do próximo, e do ajuste imediato a ele, é uma questão de sobrevivência.

 

Milhares de mudanças posturais, físicas e emocionais são feitas diariamente, como num balé a procura do seu tom, de sua sintonia, a fim de encaixar-se na gigantesca dança ondulante de um bilhão de seres. A sutileza de uma célula contorcendo-se por seu dono ter avistado um belo rosto, ou o fluxo do sangue entorpecendo-se, quase envenenado, ao sentir o cheiro da morte, vão moldando invisivelmente o indivíduo, a nação. Aventurando-se neste mar de gente, eu me arrisco, como sempre, ao afogamento. Mas como saber se é possível respirar outro tipo de ar sem atirar-se ao desconhecido? Desta vez, devido a minha eventual inabilidade em lidar com as pessoas e com milhares de olhares, odores, faces, comidas, esbarrões, desentendimentos, vícios, volume de idéias e pensamentos cruzando o ar e penetrando o meu crânio, carnes, modos e futuro, tive a coragem ou a temeridade de prosseguir.

 

Sucumbir, morrer, renascer, seguir então abraçado ao destino e agora apegado a terra. Eu não posso me arrepender da vida, portanto, quando escureceu e eu deitei ao lado de uma árvore na beira da estrada, só lembrei de agradecer por tudo, antes de fechar os olhos e me entregar a mais um sono desconhecido”.

 

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