Soul surf

O Surfista Peregrino – Índia – Parte VI

Eu sempre tenho um enorme prazer em ler as cartas do Peregrino. Às vezes, o sintoma é mais grave: eu PRECISO delas. Talvez para lembrar quem eu sou, o que eu quero e para onde vou, já que partes das suas características e vivências têm um inequívoco paralelo com as minhas.

 

Que seja só para permitir que as ondas quebrem novamente dentro de mim e me lavem a alma, o que os dias excessivamente “mentais”, por vezes, me fazem esquecer.

 

Não tem regra: esse sentimento pode me acossar dois meses depois de eu ter recebido a última ou aparecer no dia seguinte. E como se lesse meu desejo no ar, sintonizado com a minha necessidade, ele enviou outra correspondência logo no dia seguinte. Em boa hora!

 

“Tinha ouvido falar no guru numa das noites que passei num bar à beira de uma estradinha secundária, um igarapé de terra à luz dos lampiões. Um enorme carvalho sombreava a luz da lua e as poucas vozes arrastadas ecoavam e podiam ser ouvidas como se estivessem dentro de mim. Estava sentado no meu canto, sobre um tronco caído, tomando minha água de côco, único alimento durante todo aquele dia, ‘o dia da purificação’, enquanto alguns nativos falavam sobre os milagres que este homem continuava produzindo há mais de quinze décadas. Passar um dia inteiro por semana limpando o organismo só com água de côco torna tudo mais límpido, minha percepção mais aguçada, minhas retinas mais claras, uma menor influência dos fluidos corporais, já que trabalham menos pela digestão dos alimentos e concentram-se na digestão espiritual.

 

Diziam que o homem tinha 325 anos e que descendia dos deuses Shiva e Maya em linha direta. No mínimo, pensei, uma insólita combinação de longevidade e hereditariedade… logo mordi a língua da mente ao me pegar esculpindo este triste e precipitado pré-julgamento. Este tipo de raciocínio só fazia bloquear toda a possibilidade do “novo”entrar na minha vida, expandindo assim a minha compreensão. Quanto ao idioma concreto, verbal, da região, eu já o compreendia razoavelmente. Algumas expressões me escapavam, rápidas e fugidias como coelhos assustados. Mas eu logo as cercava na próxima frase, desprendendo o seu significado do contexto geral.

 

Aí era como se uma luz houvesse acendido na minha mente e o prazer de preencher a lacuna obscura tomava conta de mim. Ao contrário de alguns momentos, quando as imagens presas no fundo da memória, frutos ressecados de momentos esquecidos, esperam uma lembrança, algo que as provoque, que as liberte. Deve ser péssimos para elas, as palavras esquecidas, morrer ali, sem o ar, o oxigênio mágico do reconhecimento. Candelabros de cobre, velas coloridas de cera do Azerbaijão, delgadas como pescoço de donzela, espessas como a luz da Índia, decoravam o balcão e desenhavam o irreal na noite. Os gritos dos homens faziam as chamas oscilarem, e as fortes e exaltadas respirações as surpreendiam, assustando-as. Quem começou o momento deve terminá-lo ou dar por encerrada a procura sem concluí-la? Quem reconhece a soberania da noite e a sua paz? As sombras?

“O Guru me salvou”, dizia um dos homens, o mais baixo e carrancudo, com um turbante vermelho que deixava uma faixa manchada de restos de alimento escorrer pelo
peito. “Meus problemas psicológicos e de outras encarnaçõse desenharam cicatrizes na face e nas almas das mulheres com as quais eu me relacionava, num doloroso e sofrido
patchwork feito de carne e lágrimas”, fechou um dos olhos com expressão sombria, antes de concluir. “Ele olhou dentro da minha alma, me deu um passe, me puxou lá de dentro, espremeu não sei que ervas num pote, adicionou água quente e me mandou embora. Bebi logo que cheguei em casa. Imediatamente as dores no estômago me atingiram com tal poder que não agüentei e acabei desmaiando. Sonhei com árpias negras dilacerando minha carne com suas garras envenenadas; com uma mulher de cabelos vermelhos, sem carne no rosto, sugando toda a minha energia através de um buraco azul-índigo na minha testa. Acordei gritando e fiquei ali no chão, paralisado, prostrado por três dias e três noites, sem ninguém para me acudir e sem poder me mexer. Ao final deste tempo levantei como se nada tivesse acontecido. Saí para a rua e, a primeira mulher que eu vi, foi como eu tivesse visto uma mulher pela primeira vez na vida. Enxerguei sua alma, seu amor, sua dimensão infinita. Ela sorriu, reconheceu a minha paz, o meu renascimento. Estamos juntos e felizes até hoje. O que o guru me deu foi o caminho para o meu próprio reconhecimento da verdadeira natureza da mulher…”.

 

“Isso é um feito bem comum para este Iluminado”, disse um homem gordo e de voz forte, de pele bem mais clara que os outros, sem a perna direita, mas com uma estranha expressão de felicidade no rosto. “Ele operou suas mandingas benéficas também em mim. Depois de meses de hesitação resolvi ir até ele. Julgava-me onipotente, onipoderoso, e sem necessidade de nenhum tipo de ajuda. Minha mulher me convenceu, dizendo que eu andava muito agressivo. Só decidi concordar, finalmente, quando acordei certa manhã de inverno com dois dentes quebrados de tanto contrair a mandíbula durante o sono. Cheguei logo com o meu longo e habitual discurso preparado. Levei até por escrito. Queria assustar o homem, desmascará-lo. Ele ficou lá sentado me ouvindo em silêncio absoluto, como se o tempo não existisse. Tirei o papel do bolso e comecei: “Não quero ser pretensioso e afirmar que sou melhor que o próximo por conter uma maior violência em mim. Que este potencial de destruição explosiva me destaca naturalmente de meus semelhantes, não só pela sua óbvia capacidade de fragmentar irremediavelmente o discurso e a ordem estabelecida, como também pela quantidade de energia, mesmo em repouso, que possui. Energia essa que pode, como o devido cuidado, perícia e talento, ser transformada em qualquer outra coisa que se julgue útil ou necessária para inúmeros fins. O que você faria se tivesse uma bomba atômica e pudesse fazer com ela o que bem entendesse?”, ele continuou em silêncio, aparentando, se é que é possível, estar ainda mais calmo. “Ou a capacidade de fazer refluir o mar ou achatar montanhas? É o que eu digo:  só com a minha força de vontade, através do meu olhar, posso derreter uma pessoa, com roupa, esqueleto e tudo. Não estou brincando. É pedir muito que eu não ligue para isso e vá cuidar da minha vida como se nada de anormal estivesse acontecendo.

 

Só este pensamento me faz ficar ainda mais bravo e … poderoso. O meu poder é a minha raiva. O meu poder é a minha raiva contida em estado bruto dentro das quatro paredes do meu corpo. É a minha capacidade de mantê-la ali, quietinha, perigosa, sem que meus ossos evaporem, meu fígado exploda e sem ao menos me causar uma dor de cabeça. Consciência e controle. Visualização da energia no vértice extremo da Hecatombe, e condição igual de dominá-la com a mente e com o espírito. Quem olha no meu rosto não é capaz de notar uma sombra do perigo que ele cobre, nem os meus olhos emitem uma fagulha sequer do vulcão em ebulição. A maior força não se vê.

 

O maior poder é apenas uma sensação que apenas os mais perceptivos podem pressentir levemente, mas são incapazes de afirmar, com certeza, a sua existência. Guarde tudo isso, talvez, para a Falta de Juízo Final, quando poderei ser eu a precipitar o fim, ou apenas seguirei o fluxo que as entidades que dominam o universo e os passos e decisões dos homens determinaram. O importante é que serei sempre o protagonista e nunca o coadjuvante. Determinarei e não serei determinado. Se solto o meu coração ele pode aniquilar tudo. E se não o liberto para que então serve o mundo?”. Ele me olhou longamente. Fiquei paralisado. Escureceu, passou-se toda a noite, clareou e nós ainda estávamos ali, sentados, olhando um para os olhos do outro.

 

Ele finalmente deu uma risada estarrecedora. As paredes da caverna tremeram, ratos correram para fora e eu estremeci por dentro de uma forma que nunca havia experimentado. “Você sabe o que é a violência, a destruição?”, ele perguntou sem abrir a boca, com uma voz que vinha direto do seu cérebro para o meu. Antes que eu tentasse responder ele continuou: “É o outro lado do Amor. Todo este amor que você tem dentro da sua alma e que não consegue reconhecer. Isso sim deve invadir a Terra e alcançar as estrelas. É disso que o Homem é feito”. Só isso. Saí de lá cambaleando e nunca mais sonhei com o fim do mundo nem quebrei mais nenhum dente. Confrontei-me com o meu divino e o reconheci. Daí para a frente foi como se eu tivesse voltado para casa.

Foi ele que fez isso ou fui eu que me permiti ouvir e alcançar quem eu sou?”, riu muito alto e concluiu. “Prefiro acreditar que foi uma bela co-criação… Não há justificativa para a morte, não há desculpa para vida. São apenas duas irmãs que relutam em se reconhecer siamesas. A minha destruição e o meu Amor são uma só entidade. Eu escolho qual vou criar”. Todos ficaram quietos e a conversa só continuou depois de muito tempo. Eu esperei até o momento certo, quando quase todos já haviam se retirado, para perguntar ao homem gordo a localização do Guru.

Ele me olhou com candura e, sem dizer uma palavra, com seu braço esquerdo suportando com dificuldade o peso de uma camada flácida de gordura pendente, apontou para o noroeste.

 

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