
Às vezes é meio difícil sintonizar a minha vida com as cartas do Peregrino. Elas chegam em momentos totalmente imprevisíveis e, ou batem de frente com a meu estado de espírito eminentemente prático/trabalho/cidade grande, ou me pegam introspectivo, voando nas esferas dos sonhos e das ondas dos fins-de-semana.
Podem entrar em diagonal pela garganta até o estomago, sem passar pelo coração, causando um certo mal-estar na região do fígado e do amor, ou fluem fácil pelos olhos e inundam o corpo físico e astral numa onda de prazer. Em todo o caso, de certa maneira, estou à mercê do seu ritmo de escrita, pois não resisto à tentação de abrir e ler, como essa última, que começou assim:
“Estou cada vez mais fundo no coração da Índia. Misteriosos são os caminhos do mundo. Viver com a intensidade pretendida é o meu karma construído, dia-a-dia, emoção a emoção, num artesanato de horror e de bênção. Aprendi a desmontar lenta e precisamente a armadura interna que me escravizava a ideais que não me pertenciam. Identifica-los é o primeiro e grande passo. Livrar-se deles, com jeito e decisão, o segundo. A partir do momento que olhamos de frente e reconhecemos a face do demônio podemos lidar com ele. Só nós, sozinhos, podemos fazer isso. Não há para quem pedir ajuda, estamos constantemente sós, com a nossa alma, e podemos pinta-la da cor que quisermos, se soubermos como. Essa terra é o palco escolhido pelo meu espírito para aprofundar ainda mais a minha experiência. Surfar em terra. Mãe-Índia. Reconhecendo a escuridão como nossa, como parte de nós, tiramos sua fôrça por completo. Ela retoma a proporção da sua insignificância perante a Força maior do deus interno. Como delegar tal missão?
Quanto mais eu entro no continente indiano, mais secos e expressivos os rostos magros, sulcados pelo calor e pela vida. A dor é mestra na arte de esculpir almas. Alguns homens peregrinavam em sentido contrário ao meu. Na cabeça, muitos levavam panos de algodão típicos e coloridos, que serviam para envolver pasta de arroz, frutas e legumes. Tinham os passos lentos e os olhos negros e penetrantes contornados por uma tinta preta sobreposta por uma dourada. No rosto e na testa uma tintura amarela pálida de qualidade diversa, porosa, decorava suas intenções e definia seus propósitos: sadhus, homens-santos, no eterno martírio da procura da transcendência da carne em favor da espiritualidade.
Um exibia um pedaço de madeira de mais ou menos 30cm atravessando praticamente todo o diâmetro da orelha direita, outro tinha as costas nuas, decorada com ganchos de ferro inseridos que pendiam de sua pele – não havia traço de sangue; um terceiro equilibrava no alto da cabeça uma pirâmide da mesma altura do seu corpo feita dos próprios cabelos enrolados em espiral. Pássaros rodeavam este homem e eu me surpreendi ao reparar que alguns haviam construído ninhos entre as camadas capilares. Muitos aspiram integrar-se com a natureza, nesse caso, a natureza integrou-se a ele, facilitando o diálogo. Suas figuras não criavam sombras, mesmo as quatro da tarde deste dia sem nuvens.
Era como se seus corpos estivessem passeando acima da luz, ao mesmo tempo em que permaneciam plasmados a ela. Eles eram suas próprias silhuetas vivas, sem necessidade de representação ou aval do sol. Um deles, o que tinha ficado mais atrás, me olhou fixamente e sorriu. Tinha pelo menos dois metros de altura, uma feição macerada, porém bondosa e serena. Vestia apenas uma tanga de algodão, trespassada entre as pernas, à moda hindu. Nunca tinha visto alguém tão magro. Seus ossos abriam caminho entre os músculos e a cavidade abdominal era tão aprofundada e côncava que eu não entendia como poderia haver espaço para os órgãos internos. Os olhos saltavam para fora do crânio e em minha direção como objetos independentes do resto do corpo.
Todas as juntas, como cotovelos, joelhos e ombros haviam extrapolado os limites da ossatura, quase rasgando a pele escura no seu contundente caminho para o mundo exterior. Ele desencarnava claramente, de uma maneira rápida e progressiva, ainda em vida. No entanto, continuava sorrindo para mim e, agora, balançava a cabeça, lendo meu olhar, como que adivinhando e concordando com as minhas observações. Ele sabia quem era, o que era, e para onde estava indo.
Havia escolhido conscientemente aquele destino, ao mesmo tempo em que aceitava com alegria uma escolha maior que tinha sido feita para ele antes mesmo do seu nascimento. Aquele sadhu sem sombra marcou minha memória desde então, e até hoje seu olhar me visita, às vezes, quando estou distraído ou sem rumo. Ou quando necessito de Luz. Os motivos que levam um homem a entrar no imenso oceano e esperar pacientemente a chegada das ondulações são tão variados quanto as próprias ondas do mar. Estas ondulações, como vim a perceber, transitam também por terra firme.
Nós as levamos, na verdade, dentro dos nossos corações turbulentos ou compassivos. Enveredei cada vez mais pelo interior do continente indiano. Eu constituía uma visão insólita, com a minha prancha debaixo do braço. Mas o que não é insólito? A face da destruição do tsunâmi estava ainda contraída e repleta de sulcos, canais de morte que viriam a desaguar, eventualmente, em vida. À medida que eu avançava, no entanto, os sinais da catástrofe iam se atenuando até quase se tornarem uma lembrança, um sonho longínquo, fiapos de pesadelo, uma dor que já não é. Um tênue fio de medo.
A miséria habitual se estendia muito mais longa e profundamente, por quilômetros e séculos. Crianças de dois anos carregando bebês esquálidos. Um homem passou abraçado, perna e braços entrelaçados, como um feto indeciso se nascia ou não, embaixo do ventre de uma vaca. Ela caminhava tranqüilamente enquanto ele me observava com o seu olhar vago, não porque eu fosse diferente ou interessante, mas simplesmente porque eu era mais alguém atravessando o foco do seu olhar. Ele olhava fixamente numa só direção. O mundo que desfilava a frente daqueles movimentos que a vaca fazia com as suas ancas protuberantes era o seu universo. Nada o desviava ou distraía, e a sua pegada era tão firme que eles se movimentavam como se fossem um só ser.
Dormi ao relento, não antes de subir num coqueiro e fazer despencar dali dois enormes côcos com a técnica aprendida com os meus amigos nativos do Sri Lanka: usando os dois pés e as duas mãos, alternadamente, escalando a árvore como um macaco, para alcançar alturas inimagináveis. Não olhar para baixo era uma regra que eu acrescentei. Os músculos do pescoço doíam com a tensão e o esforço dos últimos dias. Usei a respiração para solta-los e acrescentei, mentalizando, a cor verde da cura no local. Depois de mais ou menos cinco minutos dormi. Sonhei com coqueiros sendo arrancados do solo por um tufão e um maremoto combinados, ao mesmo tempo em que me atravessavam o meu peito. Tentei respirar, mas os galhos obstruíam a minha garganta e saíam pelos olhos. Fiz força e consegui evacuar tudo numa imensa bola verde e vermelha de sangue. Uma cachoeira de luz e água prateada brilhante caiu do céu, desmaterializando e lavando todas as desgraças para o passado. Elas choravam, resmungavam, esperneavam e gritavam num tom agudo e desesperado enquanto iam sendo tragadas e destruídas. Mas a luz não tinha piedade na sua missão purificadora. Queria o caminho limpo para a passagem do ser essencial. Acordei tranqüilo e revigorado, absorvendo os delicados, mas precisos sinais que me indicavam o rumo a seguir: um casal de periquitos voando noroeste, um leve frêmito no lado direito do pescoço, um leito de um pequeno rio seco que fazia uma curva abrupta nesta mesma direção. Poderiam ser armadilhas, truques do Mal? Eu tinha certeza que não. Eram todas expressões fluidas e límpidas do meu respirar. Não havia engodos ou subterfúgios. Apenas um fluxo natural e cristalino…
Não há sentimentos obsoletos. Todos são atuais e necessários. Por mais familiares que pareçam, são sempre diferentes, por mais dolorosos que sejam, são sempre úteis”