
O Peregrino e suas aventuras me perseguem nos sonhos: vejo uma onda enorme quase quebrando dentro do meu quarto. Posso sentir o cheiro do sal.
Estou engasgado e sinto, visualizo, um enorme animal negro entalado na minha garganta. Tusso convulsivamente e consigo expeli-lo. É algo parecido com uma aranha, sem olhos, do tamanho de um pêssego, com patas enormes e aflitivamente epilépticas.
Ele cai no chão, ao lado da minha cama. Tento esmagá-lo com um objeto de metal, talvez uma faca. Nesse momento uma fenda enorme se abre no assoalho e um ralo profundo em espiral se abre a minha frente.
A onda se quebra sobre nós e arrasta para dentro do buraco o bicho horrendo que emite um guincho estridente, agudo, contínuo. Acordo assustado e suado com o barulho da campainha. Uma carta do Peregrino embaixo da porta me espera de barriga para cima, como um gato pardo pedindo para ser afagado.
“Pranaxtu era mais uma aldeia isolada nas montanhas de Quadtrandi. Suas casas de pedra lembravam o encaixe perfeito das ruínas incas de Machu-Pichu, no Peru. Pessoas de tez ainda mais negra do que eu estava habituado a conviver passavam, curvavam levemente a cabeça e apenas sorriam, sem emitir som. Feições marcadas, profundas e silenciosas. Mais ou menos vinte casas formavam o quadrilátero que cercava a praça arborizada. Todas as casas estavam com as janelas pintadas com uma cor clara e brilhante de base e, sobre esta cor, desenhos delicados de pássaros, flores, rios, montanhas e vales artisticamente compostos, de proporções minúsculas, fazendo com que eu tivesse que chegar bem perto para decifrá-los e apreciar devidamente aquela arte inesperada. Quatro crianças, entre três e oito anos, paradas à minha frente, davam-se as mãos e me olhavam com aquela mesma expressão de assombramento que só presenciei no rosto do meu velho amigo, o marinheiro Imnti, nas Maldivas. O que eu podia esperar de Pranaxtu? Por que me chamava e me encantava, sendo aparentemente tão igual às dezenas de vilas pelas quais eu havia passado?
De uma das poucas casas com duas chaminés também de pedra, uma um pouco mais alta que a outra, quase totalmente bloqueada por uma figueira milenar, abriu-se a porta da frente. Ninguém apareceu e nenhum som foi ouvido, no entanto estava claro que era um convite, ou melhor, um reconhecimento de quem eu era e do universo de sabedoria inerente que eu aspirava e pressentia, cada vez mais, a minha inserção. Aquela casa sempre tinha sido parte de mim, mas só agora eu a encontrava. O que era isso? Um prelúdio para o encontro com o guru? Estaria me mostrando primeiro a morada física para depois revelar a espiritual? Quem era o guru, afinal? Deus? Sim, como as crianças que brincavam, o cachorro sarnento, os raios no céu límpido, a lama das trilhas, as visões de horror, as miragens da paixão, o tempo e a fé. Tudo é Deus, não há nada nem ninguém que não seja Deus.
Entrei com os pés descalços e senti o chão de barro frio. Demorei alguns segundos para me acostumar às sombras. Três crianças, dois meninos e uma menina olhavam para mim de um dos cantos. Uma das meninas exibia chagas no rosto do que me pareceu varíola; no entanto, sorria. Senti a expressão do guru à volta delas, seu rosto as envolvia com uma rede de luz protetora, uma aura branca e brilhante, com leves pinceladas de dourado. Nas bordas da imagem percebi um contorno bem acentuado da cor violeta e de uma outra cor não catalogada que, ao mesmo tempo em que pulsava levemente, emitia um som parecido com um cântico veda. A sombra do rosto do guru me sorria com intrigante compaixão, como se me perdoasse, antecipadamente, de qualquer desvio ou pecado, de um pensamento ímpio ou de uma atitude drástica, do passado ou do futuro. As crianças, estáticas, pareciam anjos portadores de notícias benévolas. Quanto mais eu enxergava as feições do guru, mais as asas das crianças se tornavam visíveis. Sem nenhum sinal entre elas, fecharam os olhos ao mesmo tempo, e da borda violeta saiu três cordões espirituais que se ligaram imediatamente ao terceiro olho de cada uma delas. Não sei porque, me veio à mente a imagem de ondas gigantes quebrando em reefs isolados no meio do oceano. As crianças balançaram seus corpos levemente, com um breve estremecimento e, em seguida, uma paz quase impossível se estabeleceu. Neste momento, sem abrir os lábios, o meu Mestre falou:
— Bem-vindo a Deus, meu filho, onde todas as presenças se completam. És tu, Tudo É, através do meu Ser. Não se surpreenda com a minha ausência física e com a minha voz presente. O espaço e o tempo são ilusões. Tudo acontece ao mesmo tempo no mesmo lugar. Esperei-te, no entanto, para um encontro que tu pudesses perceber.
— Onde estás, meu Senhor?
— Em todo lugar, em lugar algum, e ao teu alcance.
— Quando poderei me ajoelhar ante Ti e tocar teus pés sagrados?
— No momento em que quiseres. O sagrado está em tudo, é o presente do Divino nessa vida, e quanto mais aceito mais sagrado e mais divino.
Senti o chão fugir embaixo dos meus pés. O teto da cabana aumentou de tamanho, um calor intenso percorreu a minha espinha com incrível rapidez abrindo todos os chakras com violência. Não suportando a intensidade daquela energia que me invadia, desmaiei. Sonhei que o meu inconsciente estava me preparando, estruturando meu emocional para eu poder suportar tal expansão da consciência, que o meu estado de vigília era ainda muito frágil para conviver com o absoluto, presenciar o divino. Que esse desmaio era a ante-sala espiritual de um novo ser prestes a ser parido. Ao acordar uma linha de sol incidia diretamente no meu olho direito formando pirâmides de luz e reflexos multicoloridos. Na extremidade periférica direita desta mesma vista formou-se um caleidoscópio de imagens refletidas em inúmeros fragmentos coloridos do que parecia um espelho. Elas se sobrepunham, dançavam, refletiam o verde da mata lá fora, o brilho do sol, as paredes internas da choupana, o céu, imagens da minha infância, de um ser que ainda é e não sou mais eu, rostos de amantes que eu tive e das que eu gostaria de ter tido, de mendigos irremediáveis e de peregrinos sem lugar de origem.
O filósofo chinês Lin Yutang já dizia que “o bom viajante não sabe para onde vai, e o viajante perfeito não sabe de onde veio…”. Fechei os olhos pressionando as pálpebras e sentindo a ardência dos glóbulos oculares, mas ao abri-los novamente tudo continuava ali, como se um portal tivesse se aberto em minha mente e uma luz inédita houvesse invadido o cérebro e trazido à tona dimensões até então desconhecidas. Balancei a cabeça, como um cachorro molhado, tentando livrar-me daquela distorção, mas ela persistia ali, querendo consolidar o espaço conquistado. Finalmente aceitei a companhia e, ao olhar para o teto, ele se abriu imediatamente e o rosto do inefável Pravaknanda Purenese surgiu em meio às nuvens de um céu azul profundo. Ele sorria e não emitia nenhum som. Todo um leve silencio envolvia o ambiente circundante e o infinito invisível. O silencio continha tudo. Estendeu sua mão gigantesca e transparente até a cabana, deixando, camada a camada, um suave odor de lótus. Lentamente tocou-me no rosto e eu não consegui manter os olhos abertos. Senti a integração suprema com o cosmos e captei todo o significado da minha vida num átimo de segundo.
Não mentalizei palavras para descrever a magnitude daquela percepção plena não porque eu não ousasse proferi-las, mas porque não existiam. Meu corpo vibrou e, de repente, visualizei cada célula do meu corpo iluminada e vibrando em todas as cores conhecidas e em milhares de outras que eu nunca havia visto. Um exército de bilhões de luzes multicoloridas pulsava em energia, sendo cada uma nitidamente um universo próprio ao mesmo tempo em que se uniam como nunca no complemento do todo, na consciência da unicidade não só do meu corpo, mas no de toda a humanidade, de tudo o que existe na Terra, de tudo o que existe no Universo, já existiu e existirá. Essa consciência outorgava uma força descomunal a cada uma das pequenas unidades celulares, advindas da Paz inerente por terem tido, visto e sentido a Verdade finalmente revelada. Não queria mais sair da Presença de Deus, não poderia haver nada mais completo e feliz, no entanto, eu sabia, sem que o guru proferisse palavra, que os meus desafios, desenvolvimentos e evoluções deveriam prosseguir no plano terreno, na encarnação presente. No instante em que tive esse pressentimento, voltei. Um micro-instante racional foi o suficiente. Quando a tentação do controle mental sobre as coisas e os eventos surgiu, essa sim a verdadeira maçã do pecado original, o Paraíso se desvaneceu. Os efeitos da visita, no entanto, permaneceriam no meu corpo e no meu espírito para sempre.
A aldeia estava vazia, o teto havia voltado no lugar, o meu caleidoscópio ocular periférico não mais existia, e meu corpo, apesar de ser aparentemente o mesmo, eu podia perceber, tinha muito menos densidade. Eu não perdi peso, mas densidade. Tudo fluía mais e melhor através de mim, eu compartilhava a união/yôga com todas as coisas, saindo da ilusão da separação dos corpos e da matéria, da multiplicidade dos espíritos, das distâncias e dos tempos. Uma formiga enorme veio em minha direção pelo chão de terra batido, parou a meio palmo do meu pé direito e ali permaneceu me encarando. Sentou-se nas patas traseiras, como um elefante amestrado, e, numa reverência respeitosa, abaixou a cabeça reconhecendo o divino em mim. Repeti o seu gesto, retribuindo o reconhecimento do divino naquela criatura que, agora eu sabia, também era eu”.