
Tudo está acontecendo, na Ásia e no mundo, cada vez com mais intensidade e cada vez mais rapidamente. O mundo não é mais tão seguro e confortável.
Tudo é instável e efêmero, sempre foi, a diferença é que agora o próprio planeta nos lembra disso das formas mais drásticas e contundentes, e cada vez mais constantemente. É como se o “Corpo Planeta” estivesse se ajustando, se encaixando, “voltando” ao seu eixo, “procurando” sua verdadeira posição e forma. Se tiverem humanos, plantas ou animais no caminho…
O Peregrino me enviou outra carta. Recebi apreensivo e aliviado. Apreensivo porque, ultimamente, todas as suas missivas têm sido difíceis de ler, experiências sintonizadas com o ritmo radical que a Terra tem imprimido à humanidade; e aliviado porque ele continua vivo e bem, como ficou demonstrado logo nas primeiras linhas, em que sua letra elegante e bem proporcionada emitia firmeza e paz.
“Acordei, olhei para os lados e só vi areia branca, galhos de árvores dos mais diversos tamanhos espalhados por todo lado, minha prancha sendo gentilmente levada e trazida pelas pequenas ondas que lambiam a praia e um céu tão azul e brilhante que me feriu os olhos. Pensei que a realidade é muito mais verdadeira e enlouquecida que os sonhos. E que a verdade criada internamente é a única. Os poucos coqueiros que permaneciam de pé balançavam suas folhas cansadamente, como que saídos de uma briga feroz seguida de uma ressaca milenar. O mundo tinha uma outra dimensão e as coisas, cheiros, mesmo eu, pareciam diferentes, mais plenos. Podia discernir tudo à minha volta com mais nitidez, mas mais que isso: de uma forma totalmente diferente do que eu estava acostumado.
A percepção estava claramente mais aguçada, os contornos mais discerníveis, o interior das coisas e animais visíveis, a minha pele e sentidos presentes de uma forma intensa. No que eu havia me transformado? Em mim mesmo. Em algo que eu sempre intuíra existir, mas que não sabia como alcançar. Num ser desejável no prazer que sentia constante e ininterruptamente pela existência. Pedras de coral, conchas, algas e anêmonas vindas das profundezas do oceano jaziam à minha volta, dando uma pequena pista dos tesouros que emergiram, e de onde vieram. Um forte cheiro ascendia das algas ressecadas pelo sol. Fechei os olhos, agradeci pela minha vida e por tudo o que existe e, ainda enfraquecido, perdi os sentidos.
Acordei mais uma vez no bojo de uma escuridão profunda. Lembrei onde estava. Com certeza a Índia que eu conheceria a partir de hoje será um país bem diferente do que foi ontem e nos milhares de anos que precederam o tsunami. Uma catástrofe dessas proporções fere indelevelmente uma história. Haverá uma era A.T. e outra D.T. Antes e depois do tsunami. Uma lavagem estomacal e espiritual em todo um continente. As vísceras de uma civilização expostas e refeitas. Novas formas de ver e sentir o mundo começavam a se moldar nos espíritos indianos.
Quem sou eu e o que significa essa vida? A pequeneza de uma existência individual entra em correta proporcionalidade a partir de um evento desses. Poderemos, nós que ficamos, ser todos melhores depois desta “morte”? Com mais entendimento, com mais compaixão. As indelicadezas do dia-a-dia, os pequenos problemas, que por vício de atitude ampliamos no nosso microscópio do ego, se tornam o que realmente são: nada. O universo nos dá uma nova e maravilhosa oportunidade de ascender aos níveis de consciência real. Quem sou eu para fechar a porta na cara de Deus?! Respiro e me vejo, sangue escorrendo das feridas das pernas e dos braços, condecorado por uma honraria divina. Não por ter sobrevivido, mas por estar entrando em contato com um mundo até poucas horas invisível: o mundo real, dirimidos todos os empecilhos, caídas todas as couraças, evaporadas todas as crenças.
Srinagar era um nome que me soava familiar. Um lugar para se ir. Não questionei o porquê do pensamento. Apenas fui. Vilas desoladas, corpos sendo enterrados na lama, animais apodrecendo à beira, do que restava, das estradas. O cenário após a Grande Água não era para olhos sensíveis. A realidade por detrás da carne é o que chamamos paraíso, na frente dela, nela, e através dela, o horror. Embrenhar-me por terra, afastando-me do mar, não é a minha característica. Exatamente por isso foi o que fiz. Dizia um dos mestres que encontrei pela vida: “quando chegar a uma encruzilhada e tiver dois caminhos, escolha o mais difícil”. É o presente que estarei dando para a minha própria evolução? Buda diz: “siga o caminho do meio”; o senso comum negocia: “vá pelo caminho mais fácil”.
No final, mesmo com todas as vozes circundantes da humanidade, em todos os tempos gritando dentro da sua caixa craniana opiniões e idéias contraditórias ao mesmo tempo, você é quem tem que decidir ( é interessante perceber que o cérebro é o único órgão do corpo humano protegido por uma carapaça óssea sólida. Todos os outros estão à mercê de, por exemplo, um pequeno estilete introduzido com calma e precisão. No entanto, é o primeiro a ser atingido e penetrado pelos “estiletes”dos pensamentos). No final do caminho necessariamente individual e solitário da peregrinação pela existência, a decisão é sempre solitária.
Toda aquela imensa paisagem caiu sobre mim. Montanhas a perder de vista, vales selvagens e um céu imenso. A sensação de excitamento formigava no meu ventre e eu tive que me conter para não correr gritando pela estrada. Mas, por que me conter?, pensei. Larguei mochila, prancha, tudo o que não estava preso ao meu corpo no chão empoeirado e saí correndo e gritando a plenos pulmões. A minha postura contrastava acintosamente com a desgraça à minha volta. Deveria esperar o mundo ficar perfeito para ser o que sou? Para sentir o que sinto? Para expressar o que atravessa o meu peito? Ou devo correr e gritar porque este é o único momento da minha vida onde isso é possível? No Infinito Agora. O meu respeito pelas pessoas que se foram era manifestado pela celebração da vida para os que ficaram.
Percebi que viajo em “triângulos”, como que querendo sempre ter a proteção divina desta protetora forma geométrica. Saí das Maldivas para o Sri Lanka (base do triângulo isósceles), e daí para a Índia. Voltarei para as Maldivas a fim de completar a figura no caminho para algum outro destino? É possível e até desejável. Bolhas de água sobre bolhas de sangue lutavam para encontrar espaço na sola dos meus pés.
A minha adaptação de ser anfíbio, sempre descalço e em cima da prancha sobre a água do mar, para um ser terrestre e andarilho não sairia, logicamente, impune. No entanto, temos a capacidade de transcender a dor a partir de um certo estágio. Eu o havia ultrapassado. A dormência indicava que era hora de repousar. Embora minha mente estivesse alerta, o resto do corpo pedia clemência. Cedi, largando o que me restava de energia embaixo de um enorme ipê florido e seu maravilhoso vestido amarelo. É como uma gripe forte: a sensação é mais horrível do que as possíveis conseqüências: parece que vamos morrer, mas passa, cumprindo um ciclo doloroso, porém, previsível”.