
Não posso imaginar porque o Peregrino me escolheu para enviar a sua correspondência. Talvez dezenas, centenas de pessoas também recebam suas mensagens. Quem sabe?
Nunca ninguém me comentou nada a respeito. De qualquer forma, a chegada dos envelopes é sempre um presente e uma forte carga emocional, muitas vezes inesperada.
Geralmente não estou preparado. Principalmente para esta última, que foi a mais curta e misteriosa até hoje. Não sei se ele sobreviveu ao maremoto ou se perdi para sempre esta minha vivência das ondas através das palavras desta figura meio homem meio cosmo.
Quando comecei realmente a me preocupar, Jonas, o velho carteiro do bairro, apareceu na minha frente sorrindo, tirou o boné gasto revelando a sua proverbial careca, passou a manga do uniforme na testa para secar o suor e me estendeu uma carta bojuda com um tira dourada, obviamente feliz pelo dever cumprido. Li:
?O meu maior desafio nos últimos tempos tem sido meditar ininterruptamente. Estar ligado com o Divino todo o tempo, em qualquer circunstância. Não perder de vista a minha Luz nas sombras do dia-a-dia. Saborear a Essência a cada segundo, em qualquer atividade. Durante os afazeres e relações que se apresentam, e não só em posição de lótus, olhos fechados, local remoto, silêncio completo. Esta prática está se revelando muito útil neste momento. Se eu não estivesse em sintonia com o universo, meus nervos não agüentariam a visão dessa massa d?água marchando em minha direção. OBSERVAR. Tenho medo: OBSERVE o medo. Me dá uma angústia: OBSERVE a angústia. Me dá falta de ar: OBSERVE a falta de ar. Eu me encontro no momento: OBSERVE o momento. Meu corpo começa a arrepiar: OBSERVE o arrepio. O pânico ameaça se instalar: OBSERVE o pânico. OBSERVE.
A primeira onda do tsunâmi me olhou de frente e, ao notar a minha presença, pareceu encorpar ainda mais. Qual o tamanho? Do tamanho do meu coração. Não consegui enxergar o seu topo, mas pressenti todo o mar debaixo de mim sendo sugado por ela. Fui junto. Arrastado como um pequeno vaga-lume para a imensa superfície escura. À medida que fui subindo a parede, remando e ao mesmo tempo sendo levado inexoravelmente, relaxei. Como em um elevador da natureza, a ascendência do vórtex me levava acima de toda a noção de altura que eu havia tido até então. Quando fui me aproximando do cume da montanha, pude ver lá em cima uma parede de espuma de uns seis metros começando a quebrar. Era o princípio, apenas o ?lip?, a crista da onda.
Com esta desmesurada energia sendo desencadeada, em pouco tempo tudo começaria a desabar, invadindo a costa sem piedade. Desconcentrei-me por alguns segundos pensando no número de vidas que seriam lavadas, mas logo voltei a mim. Remei com mais vontade ao mesmo tempo em que sentia uma estranha Fé. A ausência do medo tornava tudo muito natural. A minha ligação com aquela onda ficava cada vez mais clara. E embora meu corpo e a minha mente gritassem de pavor, meu espírito os acalmou. A integridade que senti era a integridade com o Todo. Ao chegar na crista virei subitamente a prancha para baixo e remei, reunindo todas a força que já tive durante toda a minha existência. Senti a minha Irmã Onda, na sua grandiosidade, me atirar para baixo, num efeito de estilingue. Caí pelo menos 10 metros no ar, ainda em cima prancha, e aterrissei de pé. Em outras épocas isso me surpreenderia. Hoje não. Entrei no ritmo da velocidade da onda e fui cortando aquela parede infinita em direção ao norte.
Não havia escala, proporção, portanto era difícil saber se eu estava no topo ou embaixo dela. Tudo era água se movimentando, aparentemente em todas as direções. Miraculosamente a minha fiel prancha permaneceu estável, pulando de vez em quando, mas agarrando-se à superfície do monstro como se disso dependessem as nossas vidas. E realmente dependiam. Dei uma curva para cima e fui subindo, subindo, subindo. Vi golfinhos voarem ao meu lado e uma enorme baleia jubarte sendo atirada lá de cima, atrás de mim, sendo arrastada impiedosamente pelo maremoto. Quanto menos eu pensava e só sentia, mais eu me sentia ligado aos movimentos que a onda transmitia. A minha única salvação era estar ligado a ela, completamente integrado. Abraçar-se ao objeto do medo, à sua fonte. Já senti durante os últimos anos que só a união com Deus, que significa tudo, poderia me salvar e ajudar-me a evoluir nesta experiência terrestre.
Esta era uma situação extrema que ilustrava perfeitamente este conceito. Agora concretamente. Ou aquaticamente. Subi com velocidade cada vez maior. Uns vinte metros antes de chegar ao cume comecei a virar a prancha para poder dar a batida, ricochetear na espuma e descer novamente. Todos os movimentos tinham que ser absurdamente ampliados para poder lidar com aquela dimensão. Antes de virar, bem no topo, pude ter um rápido vislumbre, por cima da onda, do que vinha por detrás. Vi um exército de pelo menos mais trinta vagalhões iguais marchando em direção ao continente liderados pela minha amiga. Senti um frio em todos os ossos e pude VER claramente, como em uma tela estupidamente nítida, a minha medula arrepiando-se e brilhando com uma forte luz vermelha. Respirei fundo e coloquei todas estas visões e medos para dentro. Minhas enzimas emocionais digeriram as imagens e seus medos acoplados e eu pude raciocinar novamente.
Iniciei a descida vertiginosa novamente e, pela velocidade, calculei que deveria estar pelo menos a 50 quilômetros ao norte de onde tinha dropado pela primeira vez. Pensei nas pessoas escondidas nas cavernas e não tive certeza de que, mesmo sendo nas montanhas a dois mil metros de altitude estariam salvas de uma invasão oceânica destas proporções.
Depois de mais uma hora e meia surfando a entidade, com os músculos das minhas pernas acima do limite, já sem manobrar, apenas de pé, estático, ela foi diminuindo de tamanho, a ponto de eu finalmente poder enxergar suas duas extremidades ao mesmo tempo. A base e o topo. Deveria estar agora com 100 metros, mas diminuía perceptivelmente. Não senti alívio, ao contrário. Ao sentir que ela ia se esvaindo um estranho sofrimento tomou conta de mim, como se uma irmã estivesse se despedindo para nunca mais voltar. Como se uma parte de mim sangrasse até a morte.
Como se o momento de plenitude da minha vida tivesse passado. Ao ver a Onda caminhar para o seu destino, vencida pelo espaço, senti a dor do finito, da separação e da força de Deus. Chorei incontrolavelmente e a Onda, percebendo meu estado, levou-me calmamente para um profundo canal que jazia ao largo da cidade de Pondicherry, a 350 quilômetros da vila onde aportei e a uns 120 ao sul de Madras.
A sensação de ?término?era intensa. Uma espécie de morte. Depois daquilo o que me restaria? Para onde eu iria? O que iria fazer? Desmaiei com a avassaladora pressão da consciência de que um eu que me acompanhava todos estes anos, e que me era tão querido e familiar, a partir daquele instante nunca mais existiria”.