Soul surf

O Surfista Peregrino ? Índia ? Parte I

Rapaz! Finalmente o Peregrino mudou de país! Percebi os selos da Índia sobre o envelope negro de longe, logo que entrei no meu jardim em direção à porta. Brilhantes, dourados e vermelhos, ancestrais.

 

Não deve ter sido fácil largar uma paixão como o Sri Lanka, mas como ele mesmo diz : ?Nada neste mundo é real. O significado de tudo é o significado que eu atribuo a tudo?, portanto… Nunca ouvi falar de surf na Índia, estava curioso para saber como é que o meu amigo lidaria com uma eventual ?síndrome de abstinência das ondas?.

 

Enchi um copo de vinho, fiz algumas torradas com queijo gorgonzola, sentei na beirada da cama e comecei a ler o calhamaço com prazer. Por alguma razão a sua letra estava mais legível, mais nítida. Senti que aquela carta, antes mesmo de abri-la, emanava significados. Sua mensagem precedia a escrita. Pude compreender o que ele queria dizer antes mesmo de ler.

 

“Depois de acertos com alguns marinheiros amigos do Charlie, fui até um lado obscuro das docas de Colombo, onde um barco com capacidade para 10 passageiros me esperava. A esta altura já deveria ter umas 35. Minha atração inconsciente pelo dark side da vida, pelo lado escuro da lua (Pink Floyd rolando no discman), se manifesta nas ocasiões mais insólitas. Pelo preço e pela população excessiva era com certeza uma embarcação clandestina. Aquela era uma barganha perigosa, típica de uma das minhas inclinações inconscientes à procura do desastre. Pelo menos estou atento. Mas mesmo assim não quis evitar. Algo me chamava para dentro. A atração era fortíssima. Entrei.

 

Muitos rostos sombrios vagavam pelo convés ou sentavam-se no chão sujo, uns por cima dos outros. Não havia quantidade de palavras no ar, sinal de que havia muito a ser dito. Pequenos trejeitos, tiques nervosos, movimentos bruscos. Ninguém me fez perguntas. Ninguém me ofereceu colete salva-vidas. Fui entrando e pagando as 100 rúpias para o capitão que guardava a entrada, como uma cafetina cuidando com excessivo zelo do seu bordel fuleiro. Tentei evitar as farpas que saíam da velha madeira do deck como navalhas contemplando furtivamente meus artelhos indefesos.

 

Uma ratazana cinza-escura do tamanho de um castor passou correndo ao lado do meu pé esquerdo e entrou na cabine do comandante. Soprava um vento forte, indicativo das monções, e eu me preparei para mais uma travessia marítima turbulenta a ser acrescida ao meu já extenso curriculo de enjôos e vômitos. A lua quase cheia, faltando apenas uma fatia fina e tenaz, surgiu atrás das nuvens carregadas e eu pude ver as curiosas cicatrizes rosadas com charmosos quelóides no pescoço do capitão. O fedor do diesel aumentou a sensação de desconforto. Zarpamos.

 

No entanto, a travessia ocorreu calma e pacificamente. O vento esperou que chegássemos à costa da Índia para só então entrar violentamente, na forma de um filhote de furacão. Rebento aparentemente indisposto. Enquanto eu saltava do barco e corria pela praia levando minha mochila e prancha que teimava em se fazer de vela, podia ver os telhados de sapé das casas dos pescadores, juntamente com alguns barcos menores, voarem em direção ao continente.

 

Crianças choravam arrastadas pelas mães para lugar mais seguro, e um grupo de pescadores ainda tentava amarrar suas embarcações aos coqueiros, desistindo em polvorosa, quando o corpo de um deles caiu subitamente. Um enorme mastro negro decorado com um dragão chinês escarlate havia despencado sobre o homem. A pancada na cabeça tinha sido violenta o bastante para ecoar através dos trovões. Não havia mais esperança para ele. Vendo isso, os companheiros apavorados fugiram ainda mais rápido, ultrapassando e atropelando as mulheres e crianças pela trilha lamacenta.

 

##

 

Os pingos daquela chuva titânica eram tão grossos e violentos que provocavam uma dor aguda assim que atingiam a pele do rosto, dos braços e das costas. Senti cheiro de fumaça, lamparinas caíram queimando rapidamente várias casas de sapê, madeira e junco, como uma pira divina ao deus Hecatombe. O caos se instalou e eu podia ouvir o zunido da ventania me ameaçar com suas vozes e sibilos sinistros. A intensidade aumentava e todos correram para a montanha distante uns dois quilômetros.

 

Penetravam nas cavernas ali existentes como ratos fugindo do fim do mundo. Eu fui atrás, esperando que as minhas provisões dessem para os poucos dias que eu imaginava durasse a tormenta. Lembrei que os tormentos externos vão se dissipando quando a ebulição interna amaina. E assim fiz. Descansei meu coração no abismo do nada e aconselhei todos os meus outros órgãos a se acalmarem.

 

Meditei profundamente em um canto da caverna, um lar perfeito para minha alma, e me senti tão energizado que, ao terminar, peguei o garfo para comer o arroz integral da minha vasilha e ele começou, para meu espanto, lenta e progressivamente a entortar. Até ficar totalmente deformado. Uma mulher baixa e forte com um desenho tribal no terceiro olho, ao meu lado, observou o fenômeno e começou a gritar. Embora eu mesmo estivesse um pouco assustado tentei acalmá-la para que não chamasse a atenção dos outros. Fiz o gesto de entortar o talher nas pedras da parede do nosso abrigo para que ela entendesse o que foi o que eu poderia ter feito. Ela parou o alvoroço e me olhou desconfiada, como se tivesse certeza do que tinha visto e de que eu, mesmo que me achasse mais esperto e ?civilizado?, não poderia enganá-la.

 

Mas pelo menos se acalmou, pensei. Cobri o garfo com o meu corpo e mentalizei sua recomposição ao formato original. Senti uma vibração poderosa dentro do meu peito emanar para o objeto através do meu braço direito e da minha mão, e o ferro, devagar, mas suave e consistentemente, foi voltando à retidão. Não completamente, mas o suficiente para perder o caráter grotesco. Foi só chegar na Índia e fenômenos para-normais já começam a acontecer! Justo comigo que sempre tive a ilusão, desde menino, que poderia ler o pensamento dos outros com a minha força mental, que podia mover objetos ou conseguir que fatos ocorressem apenas com a concentração, o foco do meu coração. Nunca tinha acontecido nada concreto ou visível, até agora. Apenas uma ?coincidência?. O fato de eu estar na Índia neste momento acumulou com o fato de eu estar constantemente meditando. A energia que me embala me levou para a Índia, a energia da mãe-Índia agora me embala.

 

No meio da madrugada do quarto dia, a chuva parou. E todos nós vimos que era bom. Olhei para fora e pude ver a lua minguante derramar algumas gotas de luz no ar lavado. Lá embaixo o mar inteiro parecia recuar. Alguns pescadores também notaram e começaram a gritar para acordar os outros. Era a primeira vez que eu presenciava o início de um ?tsunâmi?, como são chamados no Hawaii estes fenômenos. Um maremoto.

 

Alguma fissura tinha sido aberta no meio do oceano em função de algum tipo de tremor, movimentando as placas tectônicas que cobrem a superfície do globo naquela região. A água do mar penetrou nesta fenda secando a costa. O desastre é quando ela volta. Podíamos ver as escamas prateadas dos peixes brilhando à distância, enquanto eles se debatiam no plataforma continental seca. Que recepção ao continente indiano: tempestade seguida de terremoto. O que Deus queria me dizer? ?Vá surfar!?, foi a voz que eu ouvi lá dentro, mais profunda que o órgão mais profundo. Será?!!

 

Confiei na calma que se seguiu dentro da minha mente, na plena e, diga-se de passagem, injustificada confiança. Peguei a prancha e, para a enorme surpresa dos meus companheiros de caverna, segui rumo à praia. Na verdade contornei o penhasco que circundava a baía antes de o mar recuar até aquele ponto. Consegui me adiantar à velocidade do fluxo das águas e, depois de correr uns 15 minutos, me vi sobre o limite norte da baía. Lá embaixo, o mar continuava a refluir lenta, mas inexoravelmente. Desci o cliff e me joguei na água. Senti como se um rio gigantesco se movimentasse sob o meu corpo e fui sendo levado para alto mar.”

 

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