Na onda delas

O surf como metáfora

Arco-íris representa o planeta em total momento de equilíbrio e plenitude. Foto: Roberta Borges.

Eu sempre tive o surf como uma metáfora de vida. Adoro relacionar acontecimentos do cotidiano com situações que enfrentamos no mar. Isso sempre me serviu como aprendizado, especialmente na hora de enfrentar certas situações difíceis.

 

O mesmo também serve para as coisas que dão certo. Procuro relembrar cada passo do que foi feito para que tal situação fosse tão perfeita e acabo descobrindo como estava centrada, equilibrada e presente naquele momento.

 

Dias atrás, tive contato com a monja Isshin, uma grande propagadora do Soto Zen Budismo no Brasil, que me contou de sua maravilhosa aventura de surfar pela primeira vez e como esta experiência marcou sua vida.

 

A monja Isshin nos descreve com muita propriedade seu sentimento por meio de uma bela metáfora. Fiquei impressionada com sua sensibilidade, sua percepção sobre deslizar nas ondas e a relação que faz com certos momentos da vida.

Confira o depoimento da Monja Isshin

 

?É uma maravilha sentir a força da água, a corrente levando a gente. É um grande aprendizado perceber a resistência no corpo, o medo de entregar-se e de deixar-se ser levado.

 

No começo, agarrava a prancha com força total. Mas que maravilha a sensação de liberdade, ao relaxar o corpo e começar a tornar-me uno com a prancha e a água.

 

E como é forte a descoberta que, soltando o corpo, entregando o peso para a prancha (e a água) é quando a gente passa a ter a maior estabilidade. Com maior estabilidade (o corpo solto e entregue), descobri que tinha mais espaço até para manobrar a prancha, exercendo o meu ?livre arbítrio?, dentro da minha limitadíssima capacidade.

 

Descobri que não precisava ter medo de cair na água, que a água me acolhia até com uma certa suavidade quando tombava da prancha (ou seja, toda vez que tentava ficar em pé nela).

 

Também ficou clara a necessidade de manter a plena atenção, pois era necessário cuidado para não cair de cabeça e arriscar batê-la no fundo do oceano, que, nestas alturas, estava bastante próximo. Também era importante proteger a cabeça na hora de voltar à superfície depois de cair na água, evitando o risco de batê-la na prancha.

 

E não é a mesma coisa com a vida? Quanta resistência fazemos! Como sofremos de medo de nos entregar, de nos deixar ser levados pela grande corrente da vida.

 

Que batalha que é para aprender a nos soltar. Soltar o espírito, soltar a mente, abrir mão da tentativa de controlar tudo. Abrir mão da rigidez, das opiniões, da falsa segurança daquela ?zona de conforto?, do conforto do conhecido e da familiaridade.

Mas foi somente ao relaxar o corpo que pude perceber que estava segura na mão da água. E é somente ao relaxar o ?espírito?, como em zazen, onde abrimos mão dos pensamentos, que podemos perceber que estamos seguros na mão do sagrado, que somos parte integrante dessa mão. Nunca fomos separados dela.

 

É justamente na hora em que conseguimos nos entregar ao sagrado, deixando que a grande correnteza da vida se manifeste, que ganhamos o espaço para exercitar o nosso livre arbítrio, manobrando as nossas ?pranchas?, aproveitando o máximo que podemos da onda que nos leva até a praia.

Enquanto resistimos, tentando ir contra a correnteza, as ondas vão-nos esmagar, mas, ao soltarmos, podemos nos divertir bastante durante a nossa jornada, surfando as ondas da vida.

 

Podemos descobrir que errar não precisa ser o fim do mundo, pois não somente estamos sendo carregados nas mãos do universo, somos uma parte integrante do próprio universo, inseperáveis.?

 

O depoimento completo da Monja Isshin pode ser conferido na terceira edição da revista digital Ehlas que já está no ar.

 

Para obter mais informações, visite os sites Ehlas, wavetoon.com.br e monjaisshin.wordpress.com .

 

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