
A emoção de ficar em pé e descer uma onda pela primeira vez alimentou os sonhos de quatro meninas, que freqüentam as praias de Mongaguá, no litoral sul de São Paulo.
Jayce Oliveira, Fernanda Nogueira, Thiara Siqueira e Vilma dos Santos são amigas, surfistas e têm um objetivo em comum: querem virar surfistas profissionais.
Todas começaram a pegar onda por acaso, na escolinha de Gilberto Miranda, no Pier de Mongaguá.
É ele quem treina e incentiva as garotas todos os finais de semana. “Eu treino cada uma de uma forma diferente, tento passar tranqüilidade e ajudar no que elas têm que melhorar dentro d’água”, explica o técnico,

que acompanha o desempenho das suas pupilas nas competições.
A NÚMERO UM – Em apenas dois anos e meio, Jayce Oliveira, de 16 anos, já colecionou alguns títulos. Ela foi campeã dos circuitos regionais de Mongaguá, Guarujá e Itanhaém, além de ter sido a terceira colocada no ranking A Tribuna Colegial. Como mora em Mongaguá, ela se dedica muito aos treinos. Ela cai no mar várias vezes ao dia. “Surfo duas horas, saio, reponho as energias, volto para a água e assim vou buscando chegar lá”, explica.
Jayce pegou prática rapidinho,
porque já fazia vários

esportes. Desde quando correu a primeira parede, nunca mais parou. Os pais deram o maior apoio, principalmente a mãe, que é quem mais aposta as fichas na filha.
Com os ótimos resultados, a surfista conseguiu alguns patrocínios: do professor e shaper Gilberto Miranda, da Drogaria Ubatuba e o apoio de uma academia, onde a atleta faz seu preparo físico.
Garota porreta, ela nasceu no Rio Grande do Norte, e se inspira em outra nordestina de fibra: Tita Tavares. “Ela surfa muito, talvez seja pela garra de nordestina, que põe as coisas na cabeça e consegue cumprir seus objetivos”, ressalta ela, que venceu o preconceito dos pais, que hoje a apoiam nas competições. Esse ano ela quer buscar vôos mais altos e pretende disputar o Circuito Paulista.

LONGE DE CASA, PERTO DO SONHO – De tanto admirar as meninas na água, Fernanda Nogueira, 17 anos, fez uma escolha importante em sua vida. Quando completou 15 anos, desistiu da tradicional festa de aniversário e fez um pedido à mãe: Em vez de festa, queria uma prancha de surf.
No dia do aniversário, a mãe deu à filha uma prancha vermelha da MCD, que pertenceu ao top Peterson Rosa. “No mesmo dia entrei na água e fiquei em pé”, conta entusiasmada.
Ela teve de enfrentar o medo inicial. “No começo até tive medo de surfar, mas passou. Eu sei os meus limites. O medo aparece quando

você não está acostumada com alguma coisa. Hoje, tenho adrenalina e não medo”, reforça Fernanda, que se considera muito corajosa.
A dedicação foi tanta que, de aluna, passou a assistente do professor Gilberto Miranda. Fernanda treina o dia inteiro e estuda à noite, no terceiro ano do Ensino Médio e pretende fazer faculdade de Educação Física.
No futuro, Fernanda quer disputar o SuperSurf e ensinar mais garotas a pegar onda. No ano passado, ela foi a terceira melhor colocada do Circuito de Mongaguá.
Determinada, Fernanda saiu da casa dos pais em São Paulo

e, há três meses, decidiu morar na praia com o namorado e a sogra. Mas, descer a serra e morar no litoral tem seus prós e contras. Segundo ela, os pais da garota não aceitaram bem a idéia, mas ela conseguiu convencê-los de que estava indo atrás de seus sonhos. E, por causa disso, Fernanda está enfrentando a maior barra da sua vida.
“Eu morro de saudades dos meus pais, da minha casa, dá um aperto no coração. Eu choro todos os dias porque queria estar perto da minha família”, desabafa. Um sacrifício que ela pensa ser recompensada no futuro. “Apesar de tudo, eu estou feliz, tenho o que mais quero para realizar o meu sonho, ficar perto do mar, do surf”, explica esperançosa.

A QUERIDINHA DO PAPAI
– Caçula da turma, Thiara Siqueira, de 13 anos, foi incentivada pelo irmão de 18 anos, que queria uma companheira dentro d’água.
Os dois começaram juntos na escola de surf do Gilberto Miranda. A menina ficou tão empolgada, que o pai dela resolveu presenteá-la com uma prancha. “No início ele pensou que seria fogo-de-palha, e que eu iria desistir de pegar onda, mas quem acabou parando foi meu irmão,” conta a surfista.
A determinação e a vontade de Thiara
contagiaram o pai, que

hoje leva a menina nos finais de semana para a praia e também nas competições.
O pai orgulhoso virou técnico, criou página na internet, pega no pé dela, corrige os erros no mar e dá o maior apoio. Durante a semana, quando Thiara não tem aula (ela cursa a oitava série), o pai põe a prancha no carro e leva a filha para fazer um bate-volta na Baixada Santista.
Thiara surfa há dois anos, mas compete apenas há oito meses e já foi quarta colocada no Circuito Guarujaense. Como pretende seguir carreira, ela quer disputar todas as competições amadoras.

AMOR À PRIMEIRA VISTA
– Aos 17 anos, Vilma Bispo dos Santos, decidiu aprender a surfar para conquistar o coração de um surfista e se matriculou em uma escolinha.
Resultado: ela ficou tão atraída pelo esporte, que desistiu do surfista e se apaixonou perdidamente pelo surf.
“No final, acabei gostando mais do surf do que do surfista”, conta a garota, que pensou em desistir na primeira aula.
“Tentei várias vezes subir na prancha, não conseguia. Foi então

que pedi a Deus um sinal. Se, na próxima onda, eu não ficasse em pé, não era para eu continuar surfando. E ele deu o sinal que eu esperava. A onda veio e consegui subir, foi uma sensação maravilhosa, jamais vou esquecer”, relembra com entusiasmo.
A família inteira apostou na escolha de Vilminha, como é chamada carinhosamente pelos amigos. Todos ajudaram na compra da primeira prancha. Um investimento que valeu a pena. Hoje, aos 20 anos, ela se esforça para ir atrás dos seus sonhos.
Começou a competir no ano passado e já conquistou a segunda

colocação no ranking do Circuito Municipal de Mongaguá. “Para mim o mar pode estar bom ou ruim, eu entro de qualquer forma”, explica a surfista que treina diariamente no Pier.
Neste segundo ano de competição, ela espera correr campeonatos no litoral norte. Além do aprendizado no surf, ela teve que aprender a lidar com vitórias e derrotas. “Eu chorava muito quando perdia, ganhei até o apelido de chorona”.
Ela prometeu nunca mais chorar de tristeza, mas sim de felicidade. “Quando bate o desânimo, eu penso na minha família,

nas pessoas que me amam e que me dão a maior força e sigo em frente”, revela a surfista.
Guerreira, Vilminha dá a fórmula para enfrentar todos os obstáculos que aparecem pelo caminho.
“Nunca desista dos seus sonhos, porque nada é impossível. Acredite em você acima de tudo e tenha certeza de que você pode e conseguir qualquer coisa. Use a força do pensamento para conquistar coisas boas, que Deus vai acreditar em você”, incentiva Vilma.