
Alguém já parou para pensar o que seria do surfe se uma pessoa como o empresário Roberto Marinho, dono da Rede Globo, maior emissora de TV aberta do Brasil e uma das maiores do mundo, pegasse onda? Provavelmente o esporte teria muito mais espaço na mídia e seu mercado estaria muito mais aquecido, entre outras inúmeras vantagens (e desvantagens também).
Pois é isso que acontece no segmento de TV por assinatura, onde a Globosat, maior operadora do país e afiliada da Globo Cabo, tem em seu presidente, o executivo CEO (chief executive officer) Alberto Pecegueiro, um surfista fissurado e responsável direto pelo surgimento e pelos primeiros passos da indústria da mídia e comunicação no surfe brasileiro, nos anos 70.
“O surfe brasileiro não pode reclamar de falta de espaço na mídia. Muito pelo contrário, o surfe aqui recebe tratamento acima da média de países bem mais desenvolvidos do que o Brasil, como os Estados Unidos. Na verdade, os surfistas profissionais brasileiros são felizes e não sabem”, afirma Pecegueiro, à frente de uma empresa com mais de 20 canais e um faturamento anual de cerca de R$ 250 milhões.
“Além disso, o surfe recebe muito mais espaço na mídia televisiva do que ele oferece de retorno comercialmente – apesar de possuir uma forte indústria de surfwear que lhe permite um grau de autonomia não observado em outros esportes em nosso país”, complementa.
Esse carioca de 45 anos (num corpinho de 44, como diz) foi também o fundador da primeira revista de surfe do Brasil, a Brasil Surf, e, estando no topo da pirâmide do poder na indústria da comunicação, possui uma visão privilegiada sobre as oportunidades e dimensões que o surfe possui junto à mídia brasileira e mundial.

Tudo começou em 74 quando, aos 16 anos, ele se uniu a um grupo de amigos com o sonho de fazer uma revista de surfe. “O pai de um de nossos amigos sempre viajava para os Estados Unidos e certa vez trouxe uma newsletter sobre surfe da Flórida. Aquilo acendeu nosso desejo de fazer algo parecido no Brasil e, à medida que o projeto evoluía, percebemos que era possível fazer uma revista”, lembra o executivo.
A partir dali, ele se uniu a Flávio Dias, Ricardo Bravo, Fernando “Fedoca” Lima, Múcio Scorzelli e Fred Koester (irmão do lendário shaper Miçairi) e juntos iniciaram o projeto que mudaria a história de surfe no Brasil. O primeiro exemplar da Brasil Surf saiu em meados de 75 e foi devorado pela então pequena comunidade surfística existente – um marco na história do surfe brasileiro.
“A Brasil Surf viveu uma época romântica, cada um fazia um pouco de tudo”, recorda o CEO da Globosat. Segundo ele, ninguém possuía formação profissional específica e o surfe ainda vivia fortemente ligado à contracultura, com um comportamento tipicamente tribal. Porém, o país vivia um “boom” econômico e nos anos que sucederam o mercado iria descobrir nesse esporte uma interessante oportunidade de divulgar seus produtos. Aproveitando a maré favorável, a revista deslanchou, com anunciantes de peso comprando suas páginas publicitárias.
Em 77/78, embalado pelo sucesso da Brasil Surf, o grupo lançou a Brasil Skate, já com um formato mais elaborado e calcado na experiência editorial que a Brasil Surf havia proporcionado. A experiência de fazer uma revista de surfe foi marcante para Pecegueiro, e permitiu que ele pudesse definir sua opção profissional bem cedo. “Me apaixonei totalmente pela idéia de fazer revistas, não importando de que gênero fosse”, conta.
Em 79, em pleno auge da revista, desentendimentos internos levaram ao fim do projeto e, quando isso aconteceu, Pecegueiro havia se transformado num profissional com rara experiência de mercado e uma vantagem competitiva que lhe permitiu um rápido crescimento. Logo depois foi para a Rio Gráfica, do Grupo Globo, onde começou como assistente, passando a gerente de produto, coordenador de edição, diretor de fascículos e finalmente a diretor de revistas.
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Em 87 foi chamado para o grupo Abril, com a missão de lançar a revista Super Interessante, onde acabou assumindo também a publicação da Placar, Capricho, Cláudia, a divisão de moda, a divisão de revistas masculinas e os Guias. Por fim, assumiu a diretoria de publicações, com as revistas Veja e Exame incluídas. Nesse momento, um mundo de revistas que representava grande parte da mídia impressa brasileira passava por seus olhos.
Depois de cinco anos no importante cargo, no final de 92 Pecegueiro se viu diante de uma crise-existencial e, desmotivado por problemas internos de seu trabalho, decidiu que era hora de mudar, fazer algo novo. Foi quando recebeu o convite para participar do desafio de lançar a TV paga no Brasil, através da Globosat. “Aceitei o desafio porque achava que era uma oportunidade de começar algo novo, pouco explorado, e isso realmente era estimulante”, lembra.
O passado ligado ao surfe sempre facilitou a abertura e a receptividade do esporte na programação da Globosat. Para Pecegueiro, o surfe no Brasil possui muito mais espaço na mídia do que nos Estados Unidos e os exemplos que ele dá para confirmar seu ponto de vista são diversos e vão além dos programas da empresa que dirige. Veja alguns exemplos:
A “Folha de São Paulo” possui uma coluna regular sobre surfe. Na opinião de Pecegueiro, esse jornal paulista corresponderia no mercado norte-americano ao “The New York Times”, no qual raramente se encontra algo sobre surfe, muito menos uma coluna regular.
O Brasil possui pelo menos três revistas especializadas em surfe de âmbito nacional (Fluir, Hardcore e Alma Surfe), sem contar outras de menor porte e caráter regional, além da Trip, cuja proposta é mais abrangente. Enquanto isso, o futebol, maior paixão nacional, possui apenas uma revista, a Placar.
Comparando o tamanho dos mercados e guardando as devidas proporções, a revista Fluir, a principal atualmente no Brasil, vende mais do que qualquer revisa norte-americana, cujo mercado é cerca de dez vezes maior que o brasileiro.

A MTV brasileira possui o Programa SuperSurf, enquanto a gringa não tem nada de surfe na sua programação. A Sportv tem na sua grade de programação diversos programas especializados em surfe, como o Fala Bocão e o Extra, entre outros, além de um bloco diário com muito conteúdo surfístico, o Zona de Impacto.
Na década de 70, o PipeMasters era transmitido ao vivo pela rede ABC nos Estados Unidos, mas hoje nenhuma grande rede americana tem interesse por esse tipo de projeto. A Sportv brasileira tem o direito de imagem de toda as etapas do WCT e já transmitiu ao vivo a etapa do WCT na Barra da Tijuca por três anos seguidos, algo impensável nas redes de tv americanas.
Aliás, ninguém pode dizer que sob a gestão de Pecegueiro a Globosat não tenha investido no surfe. Foi sob seu comando que ocorreram as históricas transmissões ao vivo da etapa brasileira do WCT, uma página importante na história do surfe brasileiro. Porém, comercialmente esse projeto não traz boas lembranças ao executivo: os resultados foram pífios frente ao tamanho do investimento realizado para torná-lo viável.
Na verdade, na opinião de Pecegueiro o surfe tem um grau de exposição muito maior do que os níveis de audiência que ele oferece como retorno. Essa opinião provém de uma experiência frustrante que o executivo teve com o surfe. Embalado pela sua natural afinidade com o esporte, Pecegueiro apostou forte no surfe nos primeiros anos da Globosat, acreditando poder conseguir um retorno comercial interessante. Porém, esse retorno não veio ele foi obrigado inclusive a cancelar alguns projetos, como as já citadas transmissões ao vivo do WCT.
O que o executivo aprendeu dessa experiência é que outros esportes de massa acabam competindo com o surfe pelo espaço da mídia. “O gerente de mídia de uma agência de publicidade, profissional para o qual vendemos nossos espaços comerciais, geralmente se vê diante de uma verba limitada. Por isso, tende a apostar no que é certo, e a audiência que o surfe oferece ainda está longe daquela oferecida pelo tênis pós-era Guga e pelo futebol. Em 2002, por exemplo, sete das 10 maiores audiências do Sportv foram de tênis e as outras três de futebol”, exemplifica.
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“Outro aspecto que tem de ser lembrado é o de que o Brasil é um país pobre, cujo PIB inclusive passou a ser menor do que o do México”, ressalta Pecegueiro. “Esse argumento serve, em parte, para explicar como a Tita Tavares está sem patrocínio. Se levarmos em conta que a tenista número 1 do Brasil está sem patrocínio, mesmo sendo o tênis um fenômeno de audiência, não é tão surpreendente que a Tita também esteja”, analisa o executivo.
Pecegueiro ainda aponta o fato de os fabricantes de surfwear não terem desenvolvido a prática de trabalhar com a mídia televisiva, preferindo mídia impressa com a qual já possuem identificação histórica. Isso restringe ainda mais a possibilidade de retorno comercial de uma grade de programação baseada no surfe.
Ele também vê outros problemas para transformar o surfe em esporte de massa. Esportes como o futebol, o vôlei e o tênis têm na competição sua maior essência. Conseqüentemente, eles possuem maior capacidade de gerar negócios do que os outros, conseguem verbas com direitos de transmissão e com isso podem aumentar inclusive a remuneração dos atletas.
Isso não acontece com o surfe, que segundo o executivo tem sua maior essência no free-surfe e não na competição. Na opinião dele, o free-surfe é super plástico e maleável, com um formato adequado para a TV, enquanto os eventos de surfe competição estão longe de ser um bom produto para a TV. As competições duram muito tempo e possuem vários períodos em que nada acontece, além de haver um alto grau de imprevisibilidade, o que acaba por inviabilizar o projeto.
Já o tow-in é um gigantesco salto qualitativo em termos de show business para o esporte, ainda que não esteja enraizado como evento comercial. A modalidade trouxe para o surfe um caráter de forte plasticidade que poderá trazer interessantes perspectivas no futuro.

Por outro lado, Pecegueiro avalia que hoje há uma oferta excessiva de filmagens de surfe. Um repórter com uma filmadora digital de 35mm, por exemplo, pode fazer um excelente documentário para TV que vai ser muito mais atraente para o grande público do que uma caríssima transmissão de quatro horas ao vivo de um campeonato, como o WCT.
Mas se engana quem acha que Pecegueiro é um visionário que não busca referências. Ele não tem dúvidas em citar Steve Pezman como grande fonte de inspiração durante a época da Brasil Surf. Pezman foi editor da Surfer Magazine por mais de 30 anos e abandonou o cargo depois de perceber que não conseguia mais manter uma linguagem adequada para seu público.
Atualmente ele está à frente do Surfer’s Journal, uma revista com um conceito mais clássico e dirigida a um público mais maduro, com acabamento visual e gráfico impecável, na avaliação de Pecegueiro (para mais detalhes, visite Surfersjournal.com).
Sua admiração por Pezman se estende aos livros que ele fez sobre os grandes nomes do surfe, como os fotógrafos Art Brewer e Jeff Divine. “Num desses livros há inclusive uma foto do Otávio Pacheco tirada por Divine, cuja legenda menciona a publicação na Brasil Surf”, lembra Pecegueiro com indisfarçável orgulho.
Aliás, o executivo mostra ser uma pessoa pouco afeita à paixão pelo passado ou ao saudosismo e possui apenas três exemplares da Brasil Surfe em sua coleção pessoal. “Só olho para frente”, arremata Pecegueiro, o todo poderoso da TV a cabo brasileira que traz o surfe no coração e na alma.