
Os dois últimos meses foram recheados de acontecimentos no esporte, tanto no meio competitivo, quanto de mercado. Como no meu dia-a-dia de bodyboarder. E, era com esse foco que estava direcionando minha próxima coluna. Foi quando, no último dia dez de novembro eu tive um sonho. Acordei atônito às quatro da manhã e só hoje tive coragem de contar pra minha esposa, Neca, que disse: “Escreve”. Então, lá vai:
Lá estava ele, em seu cavalo altivo, totalmente vestido com sua armadura e em punho, sua lança. Ao lado, dois cavaleiros devidamente ornamentados. Suas armaduras douradas me ofuscavam os olhos, temi ao vê-los, mas de alguma forma meu espírito acalmou-se

quando ouvi, no mais puro swing carioca de Fernandinha Abreu, sua oração:
Jorge sento praça na cavalaria, eu estou feliz porque também sou da sua companhia. Eu estou vestido com as roupas e armas de Jorge. Pensei: que viagem, ouvi essa música hoje na rádio, é isso. Mas os cavaleiros me chamaram a atenção, enquanto a prece continuava no mesmo ritmo.
Para que os meus inimigos tenham pés e não me alcancem, tenham mãos e não me toquem, tenham olhos e não me vejam. E, nem em pensamento eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar – Meu Deus, isso é um sonho, é isso? Os dois cavaleiros sorriem e, me

conduzem até o final da oração.
Quando me dou conta, estou acompanhando os dois por uma época que mais se parece a Idade Média. Há jovens camponeses por toda parte, parecem perdidos e se misturam a pessoas conhecidas de sua comunidade, mas não os enxergam. Há um prelúdio de confusão e ameaças no ar. Olho à minha volta, reconheço rostos e caras, mas não me detenho. Sigo a acompanhar meus guias.
De repente, como que num passe de mágica estou diante de pessoas aparentemente importantes, assim deduzo, pelas vestimentas e forma como conversam com os outros. São Jorge chama minha atenção e diz: São esses juízes e togados, vestem-se com as leis e são alijados pelo poder. Esquecem que a legalidade não perdura sem a legitimidade.

Em seguida, aparecem outros personagens – nesse momento, estou tranqüilo ao lado dos dois cavaleiros. Figuras esquisitas essas, em flashs instantâneos à minha frente, submetem-se ao transformismo das situações. Ora se misturam aos togados, ora estão próximos aos camponeses. Meus olhos surpresos são pacificados com as palavras de São Jorge: É o poder. Pardos como o entardecer que não brilha e escuros como à noite sem estrelas e luar.
Volto às ruas e vielas dos camponeses. Eles parecem procurar algo. Entre os rostos, existem pessoas importantes e permeiam algum respeito e consideração entre eles. Flashes retornam e, vejo alguns desses rostos envolvidos com os personagens que vira antes. E, mais uma vez a voz de São Jorge ecoa em meus ouvidos: Alguns são legítimos, mas estão envoltos com a fumaça da persuasão das

promessas, outros são falsos profetas que alardeiam seus semelhantes.
Estou confuso e, em seguida vem a conclusão de sua frase anterior: Os primeiros tornam-se omissos e os últimos apenas querem ocupar o poder. Embora confuso com tudo que tinha presenciado, São Jorge e seus cavaleiros dourados me transmitiam paz. Retornamos ao local da oração e ouço suas últimas palavras: Conhece a tua História e a verdade te libertará!
Boquiaberto, olho para frente e em pleno Canecão – casa de shows no RJ, vejo o Falcão, vocalista do Rappa, cantar o refrão e apontar pra mim: “Valeu à pena / eh eh / valeu à pena / eh eh”. Balanço à cabeça positivamente e acompanho o refrão: “Sou pescador de ilusões / sou pescador de ilusões”. Olho para os

lados e duas luzes douradas, simplesmente iluminam o local e se vão.
Acordo na madruga, meio tonto, vou à cozinha e bebo um copo d’água. Minha esposa pergunta se está tudo bem e respondo que sim. Deito e fico olhando o teto, tentando adivinhar o que aquele sonho queria dizer.
Levanto às seis da manhã, pois tinha uma aula personal para ministrar. No trajeto ouço na rádio a nova do Lenini, pernambucano radicado no Rio. Acredito que a música chama-se “Do it”, não tenho certeza. Mas a voz com uma “porrada arretada” e um violão rasgado é um hino fantástico ao inconformismo e a mediocridade.
A letra soma-se ao sonho e faz um sentido

cósmico, dizendo em sua letra marcante: quer saber, apure / se acredita, tenta / não tá bom,melhora. Não se submeta, não se submeta. Incontáveis são as colunas e artigos, campanhas desesperadas, cartas suplicando o retorno e a ajuda de pessoas que certa vez somaram-se aos bodyboarders da época e fizeram o esporte acontecer.
Acredito estar mais que na hora dos bodyboarders pararem de se submeter ao que realmente os está incomodando. Não é de hoje que um grupo privilegiado de praticantes detém as informações necessárias para que a submissão acabe. Eu mesmo, passei muitas dessas informações gratuitamente. E digo isso, porque qualquer profissional cobraria uma consulta bastante onerosa por elas.

Entretanto, nada acontece. A diferença, certa vez conversada com meu amigo e parceiro de colunas Xandão, é de que o grupo formado por mim, Cláudio Marques, Xandinho, Luisinho, Kiko Ebert, Cláudio Leite, Otto e outros grandes talentos que compunham a administração da Amberj / Abberj, era sinistro.
Não tenho saudades do passado do nosso esporte, porque o vivi gloriosamente com meus amigos. Reviverei as histórias e a história tantas vezes quanto necessário, com as pessoas que conheci e conheço por causa do bodyboard. Com alegria, mas jamais com saudosismo. A palavra tem força e durante os anos 70/80 uma geração de bodyboarders mudou o que era impossível. O nome do esporte deixou de ser Morey Boogie e tornou-se Bodyboard.
Infelizmente, no anos 90, a geração adotou a

expressão inglesa “sponge” e a usou largamente para decifrar o esporte. Existe uma expressão em inglês: through a sponge -que quer dizer jogar a esponja. Essa expressão aparece quando o pugilista exausto pede para o córner jogar a esponja em sinal de abandono da luta. Infelizmente, parece que essa geração fez exatamente isso.
Entramos no novo século e continua a incógnita. Eu no papel de pioneiro acredito no meu presente e tenho foco sempre no futuro. Os protagonistas dessa mudança são os próprios bodyboarders. Como dizia Maquiavel: no processo de mudança, voce cultiva inimigos e defensores tímidos. Voce vai despertar inimizades e antipatias. É preciso ter consciência que voce vai encontrar pessoas resistindo e trabalhando contra.

Participei de três Pipe Masters e, graças a um boicote idealizado e fomentado pelos brasileiros, finalmente aderido pelos gringos. Conseguimos abolir definitivamente o “board restricton rule”. E, hoje, corre-se o risco – sabe-se lá porque – do evento não acontecer. O bom jornalismo é aquele que denuncia, que age pela sociedade, quando as instituições são frágeis e muito das vezes, as decisões só acontecem em nível corporativo. Sendo assim, apurem, denunciem e realizem as mudanças necessárias.
Ao cederem aos pedidos de que tudo se resolve em casa, estão se tornando omissos e suscetíveis aos privilégios e omissões do descaso que o esporte está passando em nível de estrutura política atualmente. Muitos dos emails que recebo através de meu site – kungbodyboards.com.br , vem por intermédio do

item da história do bodyboard. Muitos são de pessoas daquela época, muitos são protagonistas, muitos são fãs, muitos são ídolos. Mas a grande maioria são bodyboarders que não sabiam que tudo isso existiu e nunca ouviram falar.
Quer melhor forma de acabar com a cultura do seu povo ou qualquer referencia do que aniquilar a sua história? Ou quem sabe distanciar as qualidades dos seus produtos e valorizar o que vem de fora? O mais importante é ter conhecimento do seu passado e construir um discernimento próprio das suas decisões. De volta à São Jorge: conhece a tua história e ela te libertará.
Quero ter o prazer de filiar-me à uma entidade representativa do esporte na qual sou o praticante número um deste país, sem dúvidas. Quero ter o prazer de falar com o Presidente dessa entidade e ouvi-lo falar com meus semelhantes com respeito. Quero apóia-lo nas suas decisões sem temer as conseqüências para as gerações futuras.
À São Jorge e seus cavaleiros dourados, peço proteção à todos os bodyboarders e agradeço por terem estado entre nós! Ao grande Kiko Pacheco, meu querido amigo Luisinho e inseparável irmão de Xandinho, que estaria aniversariando em 19 de novembro. Valeu pela sua força e por sua garra!
Vejo vocês na água!
