Após anos motivado por uma sensação inexplicável, sempre buscando ser estimulado por isso. A vida como bodyboarder Pro, arrumar patrocínios e seguir os ídolos das revistas. Percebi que pegar onda vai muito além dos estereótipos trazidos pelas revistas, filmes e televisão.
Conseguir viver, pegando onda e viajando pelo planeta, para encontrar as maiores e mais perfeitas ondulações depende muito mais de nossas motivações mais íntimas. Como disse o cineasta russo Tarkovski, no livro Esculpir o tempo:
“Um gênio não se revela na perfeição absoluta de uma obra, mas sim na fidelidade absoluta aos seus sentimentos e suas paixões.”
Para contribuir e realizar obras e feitos, capazes de transcender nossos tempos, o mais importante é seguirmos nossa essência,
diferente do que geralmente tentamos fazer. Buscar atingir padrões
impostos, simplesmente para sermos aceitos no sistema ou no mercado existente.
Podemos ir além disso, criar novas tendências a partir da fidelidade à nossa essência. Não é questão de criar algo do nada, mas a partir de nossas inspirações e referências capazes de tocar a alma. Buscar estar sensível a tudo isso, refletir sobre o que chega aos olhos e ouvidos, seus objetivos. Evitar, como diz Cazuza, ser mais um inseto em volta da lâmpada, jogando o jogo criado por um sistema que escraviza seus desejos e sua felicidade.
Bom exemplo disso são os campeonatos, eventos que comercializam o esporte e fazem com que atletas busquem atingir o estigma de herói. Mas o que vemos são os tais insetos em volta da lâmpada, buscando chegar num lugar que não existe, que não passa de uma lâmpada acesa. Nos fazendo buscar uma felicidade inatingivel, algo que não está em nossa essência, numa imposição do sistema. Vivendo a ilusão de ser aceito e respeitado por tais feitos.
Heróis devem existir, aliás, esse é um arquétipo presente na cultura humana independente das crenças, regiões ou épocas. Acontece que os verdadeiros heróis são aqueles capazes de evoluir, capazes de se reciclar e aprender. Os capazes de mostrar um caminho novo, de nos fazer refletir sobre atitudes erradas. Uma luta não deve acabar em sete, oito ou nove títulos mundiais, mas numa busca concreta para que as próximas gerações reflitam sobre o comportamente humano e o caminho para felicidade, ao bem-estar. Bem como os comportamentos que trazem decepções e infelicidade.
Entendo a arte como algo fundamental nessa contínua passagem de conhecimento através das gerações. Isso foi dito num texto publicado anteriormente, sobre o documentário Barrels Board. Entendo o oceano como um ambiente passível para a expressão, sendo as fotos e imagens meios capazes de transformar e levar essa expressão para grandes massas. Essas motivações e pensamentos dão força e coragem para enfrentar as dificuldades de sobreviver num país desorganizado e inundado por valores distorcidos como o nosso.
Saramago cita: “Quero encontrar a ilha desconhecida e quero saber quem sou quando nela estiver”. A experiência de estar num mar gigante, perto de nosso limite, desafiando um de nossos maiores instintos de sobrevivência (o medo). Viajar para lugares distantes, ou mesmo, mergulhar num grande amor. Tudo isso nos mostra algo novo no externo e, ao mesmo tempo, nos faz descobrir quem realmente somos.
Expressar tudo isso através da arte, talvez permita aos homens estabelecer um contato anterior com essas informações e sentimentos, possibilitando a capacidade de ir além. Transcender os limites externos e internos, garantindo a evolução, geração após geração. Foram assim os últimos sete dias mágicos vividos no Tahiti. Após perder duas temporadas havaianas, aguardando decisões políticas, onde a corrupção predomina.
Achei uma brecha no sistema e pude dar continuidade à produção de audiovisuais, peças fotograficas e textos que contam minhas experiências ao redor do planeta. Desafiando a própria capacidade de me manter em harmonia com as grandes descargas de energia geradas pelo aquecimento do ar, provocado pelo sol (ventos), refletidas no mar (ondulações) e somadas ao movimento do planeta.
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Não suportei a angústia de aguardar depósitos e liberação de cartas das leis de incentivo. Agradeço ao gerente do banco, que liberou cartões de crédito, com limite baseado no valor dos projetos, antecipadamente. Vi, através da internet, uma ondulação épica rumo ao Tahiti. Não tive dúvida, embarquei para o paraíso.
Uma pequena parada em São Paulo, onde recebi a benção do grande amigo e companheiro de luta Xandão Barros, e parti para o Tahiti. O
auge do swell estava previsto para segunda e meu vôo chegaria na polinésia francesa no domingo à noite. O problema é que não teria como chegar ao Sul da Ilha, onde fica Teahupoo. Não haviam ônibus nesse horário e, até o local, são 80 quilometros de distância.
Por sorte ou destino, chegando ao Tahiti, encontrei um grande amigo que não via há muito tempo, o famoso local da Joaca Cajú, buscando
dois casais de Florianópolis que passariam 14 dias com ele e sua mulher. Logo descobri afinidades e vivências em comum com os casais que chegavam ao Tahiti. Gaúcho Juliano, médico cirurgião que vive em Florianópolis, brincou, durante a infância, na mesma rua onde eu passava as férias, na casa da minha avó em Lages, interior de Santa Catarina.
Juliano era também grande amigo de um primo mais velho. Tornou-se o fotógrafo dessa matéria. É impressionante como, quando viajamos sozinhos, as coisas acontecem naturalmente. Eles estavam hospedados numa casa alucinante, indicada pelo juíz da ASP Renato Hickel e viraram (Cajú, Juliano e Luciano) grandes parceiros, pois eram os únicos brasileiro no pico durante essa semana.
Sempre me hospedo numa casa muito simples, mas muito especial, da familia tahitiana de Phillip, que me trata como um filho. A guarita foi indicada por meu grande amigo e Mr. Pipeline, Paulo Barcellos. Essa primeira noite foi complicado dormir. Mesmo cansado, o barulho das ondas era enorme e a adrenalina bombava. Eu estava há muito tempo sem viajar, treinando muito pouco e, ao mesmo tempo, enfrentaria condições épicas em Teahupoo. Totalmente determinado e quebrado das quase trinta horas de vôo, acordei cedo.
Chequei o mar e parecia não ter subido tanto, mas as bombas eram previstas para o meio do dia. Entrei na água às 11 horas, no mesmo barco do bodyboarder brasileiro Thiago Becker, radicado no Tahiti. Muito crowd, mar liso, azul e glassy, mas com muita gente. As ondas não pareciam muito grandes, com dois metros no máximo. Peguei três ondas e consegui tubos curtos. Saí do mar e fui dormir. Acordei, tomei um suplemento e voltei. As ondas pareciam maiores e chegavam aos 2,5 metros, com séries maiores. O crowd diminuiu e pude pegar ondas magníficas, com direito a tubos profundos e mágicos.
No dia seguinte, caí cedo e peguei o mar bem liso com ondas de três metros e muito perfeito. Vetea David puxava no Tow-in, o surfista brasileiro João Mauricio Jabour, que pegou tubos insanos, os mais profundos que vi em todo o swell. Teahupoo tem basicamente dois tipos de onda. Uma que vem mais de Sul, rodando mas não muito. Agora, quando junta com uma ondulação meio de Oeste, a onda fica deformada e proporciona um dos tubos mais irados. Você nem passou a primeira sessão e a segunda começa a jogar o lip totalmente quadrada.
Lembro de duas boas ondas que peguei. A primeira foi um tubo longo, muito profundo e com direito ao cumprimento do mestre tahitiano Vetea David. O outro tipo de onda boa que rola em Teahupoo é aquela mais deformada, que entra de Oeste e chupa logo toda água da bancada. Minha segunda onda boa foi assim: após um drop no ar, cheguei na base e fui empurrado por dentro daquele canudo mágico, com direito ao visual das montanhas e, totalmente “deep”, fui expulso pela espuma de dentro do tubo somada a baforada. Inesquecível!
Uma ondulação mágica e muito perfeita e também muito perigosa, um dos maiores dias surfados na remada nos últimos anos. O experiente Damien Hobgood quebrou a escápula em uma onda pesada e o bodyboarder Simon Thorton estourou o ombro na bomba do dia. A trip terminou com uma visita a Moorea, outra ilha do arquipélago, com visual lindo na volta para o Tahiti.
Do barco víamos as montanhas imponentes e grandiosas da ilha de Moorea e o sol se pondo atrás. O mar muito liso, com a visão perfeita dos arrecifes que cercam a ilha. O céu foi escurecendo em um show de cores e as estrelas surgiam lindas e brilhantes. Fiquei bobo admirando tudo aquilo, emocionado com o que via. Em seguida, de olho em nosso, a ilha do Tahiti, uma lua cheia linda e amarela saia das montanhas Tahitianas e iluminava nosso rumo.



