Surf

O novo golfe?

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Será que o surf é o novo golfe? 

Imagine um grupo de surfistas formado por empresários e profissionais liberais bem sucedidos. Cada um com sua prancha escolhida a dedo para a condição do mar naquele momento, retirada de um quiver personalizado caríssimo, zelosamente transportado mundo afora em suas viagens de primeira classe para se hospedar em resorts ou iates de luxo, sempre com um campo de golfe, ops, quer dizer, uma onda perfeita à disposição.

Entre as séries, eles discutem grandes negócios, decidindo a alocação de investimentos envolvendo milhões de dólares e planejando como irão gastar os lucros exponenciais. E de buraco a buraco, ops, quer dizer, de pico a pico da região, eles são transportados confortavelmente em barcos nos quais um caddie, ops, quer dizer, um guia, recolhe sua pranchas e oferece alimentos e bebidas, entre elas possivelmente até uma cervejinha.

Terminada a sessão de surf, os empresários e profissionais liberais bem sucedidos são reconduzidos aos seus confortáveis aposentos com ar condicionado, nos quais, antes de se reunirem novamente para o jantar no restaurante do resort ou salão do iate, poderão se conectar, utilizando seus Macs e IPhones de última geração, às sedes de sua empresas para despachar com seus assessores, já encaminhando as decisões acertadas no mar com seus amigos de golfe, ops, que dizer, de surf. Tudo resolvido, é hora de degustar um prato sofisticado preparado por um chef renomado e brindar, com vinhos das melhores procedências e safras, o sucesso conquistado na vida.

Não fui eu quem disse que surfe é o novo golfe, mas levando em conta que o cenário acima descrito já é uma ocorrência factível nos dias de hoje, até que poderia fazer sentido. Pelo menos foi essa a visão inicial que me veio à cabeça quando li a coluna do publicitário Nizan Guanaes de 28 de abril passado, publicada na seção de negócios do jornal Folha de São Paulo, sob o título Dois Surfistas.

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Jorge Paulo Lemann, remando forte nos negócios ao redor do mundo.

Os dois surfistas a quem Nizan se refere são o maior empresário brasileiro, Jorge Paulo Lemann, e o maior surfista brasileiro, Gabriel Medina, ambos apontados pela revista Time entre as cem pessoas mais influentes do mundo. O que, para Guanaes, não seria uma mera coincidência, já que em suas palavras “é interessante que os dois brasileiros da lista sejam surfistas, porque a vida no Brasil e na América Latina não é um lago. Ela é cheia de marolas, marolinhas e ondas enormes.”

Nizan prossegue sustentando um raciocínio que, pelo menos a mim, não convence, onde ele defende que os ensinamentos do mar é que levaram Lemann a ser um dos homens mais ricos do planeta. Cita o livro Sonho Grande, de Cristiane Correa, como fonte para sua argumentação, já que nele ficaria claro que Lemann e seus sócios, Beto Sicupira e Marcel Telles, “tiram do mar sabedoria de pescador e surfista para o ambiente de negócios”. E vai ainda mais adiante afirmando que “o mar ensina tanto que Carl Icahn, um dos maiores investidores americanos, ao escrever o perfil de Lemann para a lista da revista Time, o definiu como uma das quatro ou cinco pessoas mais inteligentes de Wall Street.”

Foi neste ponto do texto que não me contive mais e pensei em voz alta: “é cada uma que a gente tem que escutar”. Quer dizer que os ensinamentos do mar é que levaram Lemann à lista da revista Time como um dos homens mais inteligentes do maior centro financeiro mundial? E eu que sempre achei que teria sido uma combinação genética privilegiada e a educação do mais alto nível que ele recebeu de sua família de origem suíça, que o colocou para estudar na Escola Americana, uma das melhores do Rio de Janeiro, e depois na Universidade Harvard, de Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos, uma das mais conceituadas do planeta.

Até por que se o mar ensinasse como negociar ações e gerir negócios tão bem, não teríamos tantos surfistas extremamente talentosos dentro d’água e tão durangos em terra. Ou então eu sou um péssimo aluno, como comprova minha conta negativa no banco. Do que conheço da biografia do Lemann, sei que ele dá sim uma grande importância ao fato de ter sido, segundo suas próprias palavras, “um dos melhores surfistas do Rio de Janeiro” em sua época. Mas isso muito mais devido ao surf ter lhe ensinado a “importância de tomar riscos”, do que qualquer outro coisa que tenha aprendido com o mar. Aliás, ele quase abandonou Harvard por sentir falta de surfar.

O que certamente teria comprometido sua trajetória, pois foi o ambiente de Harvard que o moldou no homem que viria a se tornar um dos mais admirados empresários do planeta. Como ele mesmo explica, foi lá que “a minha visão do mundo se transformou daquela de um surfista pra alguém que realmente via o mundo maior e tinha um senso de história, e os meus sonhos que eram ganhar o campeonato de tênis ou pegar umas ondas maiores, passaram a ser muito maiores do que aqueles anteriormente. Ter um sonho grande dá o mesmo trabalho que ter um sonho pequeno, então eu passei a ter sonhos grandes, sempre pensei em fazer maior e melhor”.

E neste sentido eu arriscaria a dizer que ele aplicou, em sua atuação no mundo dos negócios, mais ensinamentos adquiridos no tênis, esporte do qual é exímio praticante até hoje, do que os recebidos no surf. No tênis você sempre tem um adversário a ser derrotado, enquanto no surf, salvo a minoria dos que entram na água para disputar baterias, a competição é um elemento secundário. O principal objetivo do surfista é a interação com a natureza, algo bem diferente do que as empresas conduzidas por grandes capitalistas como Lemann promovem.

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O investidor brasileiro, que já participou de campeonatos como Wimbledon e a Copa Davis, agora é um dos maiores empresários do mundo.

Tendo representado o Brasil dentro da quadra inclusive em competições internacionais, Lemann certamente assimilou do tênis a importância de atacar o adversário impiedosamente até extenuá-lo, variando as jogadas para surpreende-lo, sacando com força e defendendo com mais força ainda, procurando colocar um efeito enganoso nas bolas ao mesmo tempo em que tenta sempre encaixá-las fora do alcance do oponente, sem nunca perder o foco total.

Não sei se Lemann também joga golfe e não consegui perceber a conexão que Nizan pretendia estabelecer entre o mega empresário e o primeiro brasileiro campeão mundial de surf. Sobre ele, Guanaes não vai muito além de dizer que cada vez que toma um caldo no turbulento ambiente de negócios brasileiro, aprende também a ser “um pouco Gabriel Medina”, ao “subir de novo na prancha, enfrentar de novo a arrebentação e surfar a próxima onda”.

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Oskar Metsavaht, empresário e surfista – não necessariamente nessa ordem. Foto: Sebastian Rojas

Para Nizan, o surf realmente tem uma capacidade extraordinária de prover ensinamentos no campo dos negócios aos seus praticantes, já que, como ele diz, “a quantidade de presidentes-executivos e líderes empresariais que são surfistas no Brasil é enorme, como Marcello Serpa, um dos principais criativos e um dos grandes empresários da propaganda; Oskar Metsavaht, um dos maiores empresários da moda brasileira; Fernando Madeira, presidente-executivo do Walmart.com para os Estados Unidos e a América Latina; Marcio Santoro, co-presidente da agência Africa; só para citar alguns exemplos.”

A essa altura eu já estava com a tese do Nizan entalada como uma espinha de peixe na garganta, pois por mais romântico que possa parecer que os empresários e líderes mencionados tenham apreendido muito com as ondas, eu diria sem pestanejar que os conhecimentos mais valiosos que eles utilizaram para sua ascensão profissional foram acumulados bem longe da praia, aplicando-se a fundo nos estudos e no trabalho, e não pegando onda.

Lógico que é bacana que sejam surfistas, e que possam eventualmente trazer lições do mar para suas atuações empresariais. Mas dizer que são assim tão bem sucedidos por que aprenderam o que sabem com o mar é um tremendo exagero.

Toda prática esportiva traz benefícios e ensinamentos, e grandes empresários e líderes costumam cada um ter a sua preferida. Já o contato com a natureza, seja na forma do mar, do deserto, da selva, da montanha, proporciona a compreensão de como qualquer um, por mais poderoso que seja, está sujeito a forças maiores, que fogem do seu controle, e devem ser respeitadas  para que seja possível sobreviver. 

E o golfe, o que tem a ver com tudo isso? Ah é. Fui pesquisar de onde o Nizan tinha sacado essa de que “o surf é o novo golfe” e descobri algumas coisas interessantes. Por exemplo que a frase de efeito já vem sendo usada há algum tempo, ainda que até agora eu nunca a tivesse escutado.

Desde pelo menos outubro de 2012, quando um artigo no Wall Street Journal falava sobre o “o oceano ser o novo campo de golfe”, até a recente publicação, em março de 2015, no jornal Business Insider, especializado em negócios e tecnologia, de uma matéria que deu no título que “o surf é o novo golfe”, foram várias as menções do assunto na mídia americana. Sempre destacando como o ato de surfar com um grupo de amigos poderosos e influentes poderia ser uma eficiente maneira de formar uma rede de contatos para negócios. O famoso networking, pelo qual o golfe é tão conhecido.

Mas se os homens de negócios estão começando a surfar com mais constância, os surfistas já frequentam os campos de golfe há muito tempo. Figuras lendárias do surf, como o pioneiro dos shapes, Mike Diffenderfer, o protagonista da versão original do filme Endless Summer, Mike Hynson, e o maior rebelde do surf, Miki Dora, foram ávidos jogadores de golfe. Que tiveram seu legado nos campos de golfe ampliados por outros grandes nomes do surf como Kelly Slater, Rob Machado, Bruce Irons, e mais uma boa parte dos integrantes da ASP, atual WSL.

980x552Slater já considerou a hipótese de se profissionalizar nos “campinhos”, depois que se aposentar das ondas.

Kelly, que dizem estar até considerando se profissionalizar no esporte dos tacos quando se aposentar das competições com pranchas, enxerga no golfe algumas similaridades com o surf, como a “possiblidade de fazer algo que você nunca fez na próxima tacada ou buraco”. Já sobre o surf ser o novo golfe, ele nunca se manifestou, mas é sabido que em suas frequentes partidas contra o big boss da Quiksilver, Bob McKnight, quando Slater ainda era patrocinado pela marca, eles apostavam ações da empresa.

E o que dizer de um esporte híbrido, combinando o surf e o golfe? Bom, pelo menos essa é a maneira como a golfboard foi apresentada ao mercado. Com ninguém menos que Laird Hamilton servindo de garoto propaganda, o skate todo terreno motorizado, criado para substituir o carrinho utilizado para a locomoção dos jogadores nos campos de golfe, permitiria exatamente isso, surfar enquanto se vai de um buraco a outro.

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Laird Hamilton, garoto propaganda do golfboard.

Agora, se perguntarem a mim, respondo fácil, o surf não é o novo golfe. E tomara que nunca venha a ser. Ainda que alguns surfistas possam fazer negócios enquanto surfam, a imensa maioria quer mesmo é pegar a melhor onda do dia e não está nem ai para discutir a situação da bolsa de Nova Iorque ou a cotação do Yuan entre uma série e outra.

Até porque homens de negócios que surfam estão apenas praticando um esporte, que poderia ser o golfe, o tênis, o ciclismo, ou qualquer outro. Já quem adota o surf como estilo de vida de jeito nenhum vai ter como ambição maior ser o homem mais rico do mundo. Bastam as ondas. Limpas de preferência.

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