
Quem tem a oportunidade de assistir às performances do cearense Heitor Alves fica impressionado com o show de velocidade e manobras inovadoras protagonizado pelo atleta.
É rabeta voando para todos os lados, é aéreo de tudo quanto é jeito. Como esse cara consegue andar tanto assim? Essa é a pergunta feita pela maioria das pessoas que acompanha as sessões do cearense.
O carioca Marcelo Simon, que completa 34 anos no próximo dia 15 de janeiro, tem conhecimento de sobra para tirar essa dúvida.

Prestes a completar 10 anos como shaper, Simon atravessa uma das melhores fases de sua carreira.
As fantásticas atuações de Heitor Alves na perna catarinense do circuito mundial fizeram com que as pranchas de Simon ficassem em evidência na mídia.
Com as melhores pontuações da prova, Heitor conquistou a etapa do WQS realizada na praia Mole, Florianópolis. Em seguida, foi convidado de última hora para o WCT e não decepcionou.
Aplicou uma verdadeira surra no havaiano Bruce Irons, derrotado por 16.66 a 11.43 pontos.
Na terceira rodada, travou um bonito duelo com o tricampeão mundial Andy Irons, com direito a uma nota 9.00 na última onda, mas foi superado pelo placar de 15.34 a 14.00.
Em entrevista exclusiva ao Waves.Terra, Marcelo Simon comenta sua carreira, mercado de pranchas no Brasil e o trabalho que desenvolve com o cearense Heitor Alves há sete anos.
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Quando você começou a shapear?
Eu era competidor e sentia a necessidade de ter pranchas melhores, pois sempre fui pesado e era difícil acertarem as pranchas pra mim. Então, resolvi fazer as minhas próprias pranchas. Isso foi em 1996.
As primeiras ficaram bem boas e alguns amigos pediram pra eu fazer pra eles também. Eles acabaram gostando e trazendo outros amigos. As coisas foram crescendo e acabei me profissionalizando no shape.
Quem são os melhores shapers do Brasil e do mundo em sua opinião?

Tem muita gente boa no mercado. Gosto muito do Beto Santos e da galera da Wet Works. Lá fora curto os trabalhos do DHD (Darren Handley) e do Al Merrick.
Qual a sua inspiração na arte de shapear?
Me inspiro muito no Heitor. Vê-lo fazer as manobras com facilidade, sem ter que se matar para pôr a prancha onde ele quiser, com muita força, velocidade e controle, me mostra que estou indo pelo caminho certo.
O que acha do mercado de pranchas no Brasil? E dos preços?
Temos um dos maiores do mundo, aqui tem muito potencial! Cada dia surgem novos shapers e novos surfistas, então esse crescimento é proporcional. Cada um sabe o quanto vale seu trabalho. Não há como controlar os preços.
Quando começou a trabalhar com o Heitor Alves?
Comecei há sete anos atrás, quando ele ainda era mirim. Conheci o Heitor dentro d’água e logo vi que seria um campeão, apostei tudo nele. Deu certo!!! (risos)
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Você é um dos poucos shapers no Brasil que acompanha o atleta em praticamente todas as competições. Como é isso? E os gastos com as viagens?
Sempre viajo com ele por conta própria. Sempre que pode me ajudar, ele me ajuda. Nosso trabalho tem dado certo. Tenho surfado muitas ondas diferentes, testado muitas pranchas, conversado com muitos shapers e atletas.
Tudo isso tem me dado um excelente feedback para nossas pranchas. Além disso, vejo-o em sessões de free surf e nas baterias. Conversamos sobre tudo que acontece e tiramos nossas conclusões.

Você apostaria em Heitor como um futuro Top do WCT? Acha que ele tem condições de fazer bonito na elite?
Todas as fichas e ainda pediria as suas emprestadas!!! (risos). Se ele vai fazer bonito? Isso a gente vai ter de esperar e comprovar. Mas, que tem condições, tem.
Com o surf que ele tem, por que até hoje ele não conquistou um resultado expressivo no SuperSurf?
Já teve bons momentos, mas a sorte não joga muito ao lado dele no Super Surf, não.
Como foi a sensação de ver o Heitor chamar a atenção de todos na perna catarinense do circuito mundial? Você ficou surpreso ou a “explosão” dele era uma questão de tempo?
Sinceramente, acho até que isso demorou para acontecer, e essa demora talvez tenha atrapalhado o Heitor a se dar bem no Super Surf, respondendo melhor a pergunta anterior. Sabe como é, né? Você treina muito, viaja muito, surfa bem sempre, chega na bateria e nada. Aí, você começa tudo de novo. Vai criando uma ansiedade, o cara fica se perguntando, por que? quando? o que eu fiz de errado? Mas, acho que agora o gelo foi quebrado, daqui pra frente as coisas vão fluir!!!!!!
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E a vitória na praia Mole? O cara estava “possuído”, como disse o Raoni. O que foi aquilo?!
Olha, eu conheço muito bem o Heitor. Quando ele fica desse jeito ninguém pára!!!
Como foi o convite para disputar a etapa brasileira do WCT? Veio de última hora?
Às onze da noite, na véspera da estréia!!!! Recebemos um telefonema confirmando a presença dele. Isso foi fruto de um pedido de um cara humilde que só queria mostrar que tem muito surf e que pode botar o Brasil onde nós todos queremos. No topo !!!

E a bateria com o Bruce Irons? O cara saiu da água arrasado depois daquela derrota…
Nem sei, isso é problema dele! (risos)
E depois, com o Andy? Acha que ele ficou nervoso?
Em meu ponto de vista foi excesso de confiança. O Heitor errou em duas ondas que ele podia ter fechado o caixão do Andy. Ele rasgou muito pra dentro e chegou atrasado nas manobras seguintes. Resultado: perdeu as duas ondas. Aí, sim, ele ficou nervoso e só se acalmou quando já não dava mais pra ganhar. Então, ele pegou aquele 9, que pra mim podia ser 10, e o Slater, que estava do meu lado, deu 9.5, e saiu moralmente erguido da bateria!!! Ainda bem, né? (risos)
Qual a repercussão das performances de Heitor entre os estrangeiros?
Todos elogiaram muito. Greg Emslie e David Weare vieram pessoalmente dar parabéns pra gente depois do Onbongo. O Heitor já tinha impressionado na Europa, acho que eles sabiam que mais cedo ou mais tarde ele podia ter um bom resultado.
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Quais as pranchas que o Heitor usou no Sul?
Há mais de um ano que a gente usa a mesma prancha, uma 6 pés que eu desenvolvi junto com ele e que tem o nome de Ninja Model.
O DSD e a maquina de shape facilitam muito.
Depois que você chega a um design mágico, é só reproduzir. A prancha fica muito parecida, então o trabalho torna-se mais continuo, sem períodos longos de adaptação a uma prancha.
Conte como foi a etapa do WQS no Equador vencida por ele.

Foi a maior roubada, em termos financeiros. O Heitor ganhou o campeonato e, se não fosse o esforço do Perdigão, a gente não tinha recebido a grana até hoje. Pagaram em cheques sem fundo e com a metade do valor!!! Eles não tem noção alguma do que é a ASP e o surf profissional no mundo. Maior falta de respeito que já vi com um atleta profissional.
Como está a sua equipe?
Tenho feito prancha pra muita gente, mas nada de exclusivo. Tenho um trabalho com o Jojó de Olivença e com Heitor Alves que vem dando bons resultados.
Quais os lugares que você teve a oportunidade de conhecer através do surf?
Hawaii, Califórnia, Peru, Equador, Panamá e Costa Rica.
Está satisfeito com o mercado no Rio de Janeiro? Dá pra viver bem fazendo pranchas?
Hoje em dia tenho vendido pranchas pra todo o Brasil e também exterior. Acho que depender de apenas um mercado é muito arriscado. Graças a Deus tenho uma vida digna, faço minhas viagens e a cada ano tenho evoluído em meu trabalho. Espero continuar assim e poder contribuir para que o surf brasileiro cresça cada vez mais. Aproveitando a oportunidade, gostaria de agradecer a todos que acreditaram em nosso trabalho, a Freesurf, 2Surf, Teccel, First Glass e Insane. E alguns que infelizmente não estão mais com a gente, mas que sem eles não teríamos chegado até aqui, como a Super Glass e o nosso “ex” e futuro técnico, Cristian Moutinho. Volte logo, viu?!!! . Valeu mesmo, do fundo do coração.