Leitura de Onda

O legado de Ricardo

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A importância de Ricardo dos Santos no surfe mundial foi fartamente medida nos enormes círculos espalhados por todo o litoral brasileiro em homenagem ao surfista e na comoção expressa com carinho em todo o planeta. Foto: Vinícius de Sá
 

A importância de Ricardo dos Santos no surfe mundial foi fartamente medida nos enormes círculos espalhados por todo o litoral brasileiro em homenagem ao surfista e na comoção expressa com carinho em todo o planeta.

A técnica de um dos mais habilidosos surfistas de tubo da história é apenas a ponta mais visível da herança de Ricardinho. O natural da Guarda nos deixa um legado maior e mais desafiante: a cultura cidadã, o engajamento com as questões do ambiente em que o surfista vive, a defesa intransigente da terra.

Quase todos os principais destinos turísticos do Brasil e do mundo foram descobertos pela vocação exploradora do surfista. É a cultura da busca pela onda desconhecida, que abre novas filiais do paraíso a cada dia e, involuntariamente, acaba abastecendo o preguiçoso turismo de massa, que só vai aonde muita gente já foi e disse que é bom.  

Por aqui, só para citar alguns poucos exemplos mais óbvios, além da Guarda do Embaú, temos Itacaré, Búzios (antes de Bardot), Jericoacoara (este pelo povo do windsurf), Garopaba, entre dezenas de outros recantos hoje saturados. Alguns resistiram mais às consequências desse turismo, outros abriram as pernas para o discurso do lucro de curto prazo de quem invade a praia.

No hoje profético texto em defesa de seu quintal, publicado em 2011 em sites de surf como o Waves, Ricardinho encerra com um apelo desesperado.

“Já sabemos que os políticos são todos uns canalhas, que a polícia é inútil e que ninguém faz droga nenhuma em relação a essa baderna. O que muitos não sabem é que a Guarda está acabando, e não vai demorar muito. Peço, do fundo do meu coração, a ajuda de todos, para que possamos juntos acabar com essa palhaçada.”

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A técnica de um dos mais habilidosos surfistas de tubo da história é apenas a ponta mais visível da herança de Ricardinho. O natural da Guarda nos deixa um legado maior e mais desafiante: a cultura cidadã, o engajamento com as questões do ambiente em que o surfista vive, a defesa intransigente da terra. Foto: Arquivo pessoal
 

Na última frase, está guardada a mais importante sugestão de Ricardinho. O surfista pede a união dos surfistas e de outras tribos em defesa da Guarda. Muitos ainda resistem a essa ideia, mas a única maneira de influenciar decisivamente políticas públicas de uma região é organizar-se em torno de entidades.

É o chamado “empoderamento”, expressão que vem do inglês “empowerment”, e que remete a uma ação coletiva de cidadania, a conscientização, a socialização de poder, a conquista da condição e da capacidade de participação.

Isso deveria ser a chave para uma virada no fenômeno do localismo.

Em vez do comportamento primitivo, boçal e violento em torno da lógica indefensável dos “donos da onda”, é hora de o local ampliar seu olhar, perceber as sutilezas e fragilidades de seu ambiente, defender (aí, sim, verdadeiramente) o pico, lutar para preservar os paraísos descobertos por surfistas do passado.

Em vez de carros riscados, agressões covardes e desrespeito, é hora de pensar em políticas públicas, em interferir na lei de uso do solo, em exigir de seu município um estudo que avalie o impacto do fluxo de turistas e, eventualmente, proponha uma regulação, em tomar parte de um plano diretor.

Já há alguns bons exemplos de associações ativas espalhadas pelo país. Temos que ampliar a cultura de cobrança e seguir o exemplo de Ricardinho, que ao ver o seu algoz saindo com o carro depois de atingi-lo com dois tiros, teve forças para um último grito de cidadão: “Corre atrás dele, anota a placa, faz alguma coisa!”

Temos que fazer.

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