Pesca da tainha

O lado dos pescadores

Pescadores de Florianópolis (SC). Foto: Carina Catiana Foppa.

Todo ano penso a mesma coisa: ?tenho que escrever um artigo sobre a tainha, antes que ela comece, para tentar evitar que nós surfistas façamos algo que só vai piorar a situação!?.

 

Mas sempre deixo passar e todo ano assisto e leio informações que não queria ler.

 

Minha tentativa neste artigo é dizer ?não bem assim?, para as frases ?pescador é tudo otário?, ?acha que é dono de praia?, ?frescura de pescador? e muitas outras falas tão violentas (que apareceram nos comentários depois da matéria escrita pelo colega Máurio Borges) quanto aquelas que foram noticiadas na praia da Guarda do Embaú e que vêm acontecendo em muitas praias há muitos anos.

 

Todos nós sabemos que conflitos sempre existiram. Não é uma forma

A pesca da tainha opõe pescadores e surfistas em Santa Catarina. Foto: Carina Catiana Foppa.

de justificar, mas uma forma de ajudar a entender porque os pescadores defendem tanto a praia durante a época da tainha. Aí, cabe a cada um fazer seu julgamento sobre em que medida ele continuará ?dando murro em ponta de faca?, como dizem por aqui na Ilha.

 

Antes também é importante dizer de onde eu falo. Sou surfista há 23 anos, local da praia do Pântano do Sul (a galera do surf chama de praia dos Açores, mas Açores é apenas o nome do Balneário residencial), onde historicamente alguns conflitos já aconteceram e muitos sabem que lá a turma de pescadores é conhecida como ?casca-grossa?.

 

Já corri de pescador umas duas vezes naquela praia, meu pai e meus tios uma vez tentaram botar rede e foram parar num caminhão com os pescadores até a delegacia (e os pescadores prontos para encherem ele de po….!), e já tive notícias naquela praia de pescador colocar o facão na prancha. Naquele tempo eu achava que tinha razão.

 

Mas além disso, sou oceanógrafo e fiz o mestrado (Ecologia – UNICAMP) e Doutorado (Sociologia Política ? UFSC), todos voltados para a pesca e nos últimos 10 anos tenho estudado atentamente a pesca da tainha. Foi aí que eu comecei a entender algumas coisas.

 

A pesca da tainha atualmente é um grande negócio para a pesca industrial, tanto que é chamada da ?tainha dos ovos de ouro?, já que o objetivo desta frota são as ovas, direcionada a exportação para a produção de caviar. Essa pesca então se tornou altamente rentável e provocou a migração das embarcações industriais do tipo ?traineira?, principalmente a partir da crise na pesca da sardinha.

 

Para se ter uma idéia dessa mudança, segundo dados informados pelo ICMBIO/CEPSUL – Centro de Pesquisa sobre Recursos Pesqueiros – a pesca artesanal era responsável pela maior parte da produção de tainha na década de 80, chegando a 95% em 1988.

 

Atualmente, a pesca artesanal corresponde a apenas 10% da captura total de tainhas no Estado de Santa Catarina. Eis aí o primeiro problema: está chegando cada vez menos tainha para os pescadores artesanais, porque os órgãos de gestão da pesca autorizaram a pesca industrial a operar sobre este recurso com um grande esforço de captura.

 

Outro problema refere-se à pescaria com redes de emalhar, que são redes utilizadas por um a cinco pescadores, dependendo do tipo de rede: as fixas, quando a rede fica ?esperando? o peixe passar, geralmente colocada próxima aos costões; as ?caças de malha? ? quando os pescadores usam redes que contornam o cardume, e às vezes batem na água para assustar as tainhas e elas se emalharem nas redes.

 

Muitos pescadores, com a diminuição da produção na pesca de arrasto de praia, começaram a comprar estas redes porque ?cansaram de esperar? pelo peixe chegar na praia para dar o ?lanço?.

 

Os pescadores do ?arrasto de praia?, a pescaria mais conhecida e tradicional de Santa Catarina, representam a ?tradição? da pesca. Segundo alguns pesquisadores, essa pescaria é remanescente das ?companhas?, que eram formas de pescarias comunitárias que aconteceram durante muitos anos nas praias catarinenses para vários tipos de peixe. Mas foram desaparecendo com os avanços tecnológicos ? a motorização e as redes de nylon.

 

Os pescadores ?de praia?, como são chamados aqueles que praticam o arrasto de praia, mantém um sistema muito complexo e ao mesmo tempo simples de pescaria. Complexo, porque não é o simples ato de puxar rede, porque existe divisão de funções ? o vigia, os tripulantes (mestre, remeiros, chumbereiros que lançam a rede na água) e existe a divisão da captura ? o quinhão.

 

O quinhão, para quem já viu, é aquele monte de peixe que depois é distribuído aos pescadores ? camaradas, que ajudam a puxar o peixe.

 

O arrasto de praia também é um ritual de renovação dos laços comunitários, em que a comunidade ? homens, mulheres, crianças e idosos se reúnem na praia e trocam sentimentos de respeito, pertencimento, reciprocidade.

 

Hoje mesmo, um pescador me disse: ?Eu pescava numa praia, mas lá elas vendiam o peixe e me davam a minha parte em dinheiro, mas aí eu não quis e fui para a outra praia, porque eles dão o meu quinhão e eu posso dar uma tainha para um amigo, um familiar?.

 

Assim, a pesca da tainha é muito mais que um processo produtivo-econômico, é um momento de manifestação do ?território da pesca artesanal?. Porém, não deixando de lado a dimensão econômica, numa pesquisa que realizei no Pântano do Sul, os pescadores chegam a quadruplicar a sua renda durante esses dois meses. E isso tem uma importância muito grande, pois é o momento onde ele pode melhorar a sua casa, ou fazer uma reserva para os ?meses de miséria?, quando a produção é baixa.

 

Os conflitos A pesca da tainha era regulamentada pela Portaria IBAMA 26/1995, que proibia qualquer atividade pesqueira num raio de 800 metros da praia e 50 metros dos costões. Pelos problemas de fiscalização e pela distância insuficiente em algumas praias, os pescadores começaram a entrar em fortes conflitos com os pescadores da rede de emalhar. Tiros e brigas são comuns, infelizmente, de maneira muito mais acentuada do que com os surfistas. E a solução está longe do fim.

 

Em 2008, uma nova Instrução Normativa foi publicada pelo IBAMA (IN IBAMA 171/2008). Ela aumentou a distância para 1 milha náutica e 300 metros dos costões. Criava ainda uma safra da tainha, que permitia a pesca somente a partir da 15 de maio. Ela ainda afastava as traineiras, para 5 e 10 milhas da costa de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, respectivamente. Também reduzia de 200 para 60 traineiras em operação durante a safra da tainha.

 

A principio, boas mudanças, mas para os pescadores a partir de Florianópolis ao Sul, o impacto era bastante substancial, pois como a tainha faz um percurso migratório no sentido Sul-Norte, eles corriam o risco de não ver a tainha, ou melhor, ver a tainha e não poder pescar.

 

Apesar disso, nesta lei, a proteção das praias licenciadas para o arrasto de praia, mesmo não considerando o surf, iniciara em primeiro de maio.

 

Porém, uma reviravolta em Brasília, a pedido do presidente da Federação dos Pescadores de Santa Catarina ? Ivo da Silva, um dia antes de iniciar a temporada, dia 14 de maio, mudou novamente a distância para 800 metros e não deixou claro quantas traineiras irão atuar.

 

Os pescadores do arrasto de praia estão revoltados, decepcionados e mais uma vez marginalizados, agora pelo seu próprio representante ? a FEPESC – que privilegiou uma pescaria bem mais agressiva do ponto de vista do recurso e, mais individualizada, ao contrário do arrasto de praia que envolve de 30 a 100 famílias por comunidade, dependendo da praia, num sistema comunitário e equitativo de divisão da captura. Além disso, deu-se a abertura para o aumento do número de traineiras, que estava limitada em 60 para 2009.

 

Imaginem vocês que estes pescadores esperam longos meses para ter uma certa estabilidade financeira, para manifestar esse momento comunitário, um momento que cada dia se torna mais escasso, pois estas comunidades estão sendo estranguladas por um modelo de desenvolvimento e especulação imobiliária que desrespeita este grupo. Modelo este que nós surfistas aproveitamos muito, com as boates, restaurantes, hotéis e condomínios.

 

Portanto, os surfistas são os ?haoles? neste momento, pois atrapalham aquele momento comunitário, que pertencem a eles pescadores e não a nós surfistas. Além disso, eles esperam pelo peixe, e não buscam pelo peixe, capacidade que nós surfistas, em geral temos na nossa busca. É muito mais fácil para nós buscarmos ondas em outras praias, do que para os pescadores buscarem peixes em outras praias. Nossa forma nômade de surfar muitas vezes não respeita os processos comunitários que acontecem nas praias catarinenses.

 

Em relação às tainhas, se espanta ou não ? sinceramente eles acreditam que sim, da mesma maneira que eles acreditam que a pesca com redes e outras que ?espalham? o cardume também atrapalham. Mas vocês certamente vão ter sempre o mesmo argumento. ?Vocês surfam o ano inteiro, será que não dá para vocês esperarem só a gente pescar esses dois meses??.

 

Acho que muitos já ouviram essa frase. Mais do que ?estrovar? o cardume, nós surfistas invadimos o ?território? deles, mesmo que de maneira simbólica, mas impedimos que as coisas aconteçam, como acontecem há mais de 100 anos.

 

Portanto, pra finalizar este longo documento, espero que vocês surfistas possam entender porque eles querem tanto defender seu território. Será que é possível evitar? Sinceramente acredito que sim. Hoje em dia, na praia dos Açores (Pântano do Sul), só há problemas com os ?haoles?, surfistas arrogantes que chegaram inclusive a derrubar as placas e entram na água de toda a forma, apenas para mostrar um poder desnecessários.

 

Os locais se respeitam com os pescadores e conseguiram acordos para surfar em determinados momentos, mas sempre pedindo permissão aos pescadores. Se eles deixarem ótimo, se não deixarem ótimo também, e ainda ajudam a não deixar os surfistas de fora desrespeitarem.

 

Em relação às violências registradas, certamente elas vão apenas parar quando nós respeitarmos mais essa atividade. Na praia de Balneário Camboriú, uma senhora que estava caminhando reclamou que a canoa estava atrapalhando a atividade dela de exercícios. E assim, muitas histórias acontecem.

 

Não há justificativa para violências, como aquelas registradas e mencionadas, mas as comunidades também são violentadas de alguma forma, por opções que fazemos sem consultá-los. Alguém disse nos comentários que os catarinenses não vivem sem o dinheiro de paulistas e gaúchos que frequentam a praia.

 

Mas é importante entender que por mais que esse recurso financeiro é importante, os recursos que eles dispõem – o mar – é muito mais valioso que qualquer recurso trazido de ?fora?.

 

Confesso que não acredito no sistema de bandeiras nem reuniões com representantes que não representam. A intenção é boa mas não surtirá efeito se não houver conversas diretas com os pescadores. Para eles não existe papel, existe o estabelecimento de relações de confiança. E isso se faz frente à frente.

 

Sugiro que as associações de surf, façam uma romaria em cada rancho e tentem uma conversa e ali façam um acordo. Se não der acordo, infelizmente a solução é buscar as praias onde não há arrasto de praia, que são as únicas que costumam impedir a prática do surfe.

 

Talvez seja importante refletirmos mais sobre nossos atos e ver a situação de marginalidade social que se encontram os pescadores e que a pesca do arrasto de praia é um dos únicos remanescentes de uma comunidade que foi engolida por um progresso que enriqueceu poucos e excluiu muitos.

 

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.