
Tudo aconteceu há uns 10 dias em um beach break secreto e cascudo em New South Wales, Austrália. Cheguei aqui há seis meses para fazer doutorado e tenho caído neste pico com mais frequência. A onda é um triângulo que rola para direita e esquerda e sua força não deixa nada a desejar em relação as ondas mais fortes que temos no Brasil.
Neste sábado em questão, o mar estava com quatro pés, um pouco mexido, mas com muitas rampas. Encontrei um pessoal que havia surfado junto na semana passada e um deles, James, me disse que naquela ocasião havia tirado duas boas fotos minhas de dentro d’água.

Ele pegava onda com uma camera adaptada em seu antebraço. Conversamos um pouco mais e descobri que ele morava perto de casa, trocamos o telefone quando saímos da água pra eu pegar as fotos outro dia. No mesmo dia, peguei um tubo que não saí, ele berrou pra caramba e veio me cumprimentar, e falei: “Mas não saí” e ele: “Mas foi irado! Deserves a five!”; em inglês: toca aí, merece!”.
O cara tava na água amarradão. Nesta hora isto me fez pensar sobre os melhores bodyboarders. Aqueles que detonam, com certeza, mas principalmente aqueles que mais se

divertem…
No domingo o mar subiu muito, os triângulos tinham oito pés plus e cedinho a maré estava muito seca. Em um golfinho, minha prancha bateu no fundo e duas vezes fui varrido quando estava no outside, estava sinistro. Metade dos bodyboarders sentados na areia e, com cuidado, estava me divertindo, o que me fez permanecer na água. James e seus amigos entraram na água depois, a gente se falou rapidinho e naturalmente nos distancimos ao pegar as ondas.
Pouco tempo depois, não vi nem ele nem seus amigos aí pensei: “Normal, tá grande, eles devem ter saído”. Logo chegou um helicóptero e desceram dois paramédicos. Continuei na água e imaginei que alguém devia ter se quebrado e como o acesso a praia é por trilha, o único meio de resgate seria aéreo. Após meia hora pensei que o resgate estava demorando demais pra ir embora e saí da água. Quando estava chegando perto da beira, vi os paramédicos tentando ressucitar uma pessoa. Chegando um pouco mais perto, Bingo ! Era o James.
Os paramédicos tentaram por mais dez minutos e subiram no helicóptero para o hospital. Falaram que ele não havia morrido, mas a impressão que tive foi oposta. Acho que eles quiseram naquele momento poupar seus amigos, que estavam desesperados. Horas depois um destes amigos me ligou dizendo que James havia “passed away”: passado para o outro lado.
Escrevo isso após voltar do funeral. Muita tristeza, muitas perguntas e poucas respostas. Ao conversar com um dos amigos de James, fiquei sabendo que ele não fazia muita atividade física além dos finais de semana na água. Isso me fez pensar na importância em estar preparado para enfrentar determinadas situações e conhecer nossos próprios limites. Quanta gente não cai em mar grande com medos: primeiro das ondas, em segundo do que os outros pensarão – se os amigos vão tirar onda, contar pra todo mundo. Será que são esses os verdadeiros amigos?
Aqui vai como fato, o exemplo de Kelly Slater, relatado em sua autobiografia “Pipe Dreams”. Em 1984, quando estava nos primeiros anos de sua carreira, viajou pela primeira vez da Florida para a Califórnia, representando a costa leste dos EUA no trials que definiria o time americano que participaria do World Amateur Championships. Contudo, dos 22 atletas da costa leste, 2 seriam descartados pelo técnico do time. Para a surpresa de todos, o campeão grommet Kelly e seu irmão Sean foram os escolhidos.
Por quê? Simplesmente por que o mar estava grande e eles estavam com medo das ondas. Pouco a pouco, após muitas viajens para Barbados e outros picos nos EUA com ondas maiores do que a Florida, os medos foram sendo superados e Kelly relata que até 1992 ele era rolulado como merrequeiro e queria mudar esta situação, mas no seu próprio passo. Com o tempo as trips para o Hawaii e outros picos se intensificaram, e alguns anos depois, após alguns títulos do Pipe Masters nas costas, Kelly venceu2 o Eddie 2002, Aikau em Waimea Bay.
Por aqui, ouvi histórias de bodyboarders que sofreram algum traumatismo na coluna vertebral e após muita fisioterapia estão recuperados ou se recuperando, voltando a andar e realizar outros movimentos. O inglês Danny Wall e os aussies Chad Jackson, Joel Taylor, Caitlin Susan-Brown e Warren “Wazza” Feinbeer são alguns deles.
Trabalho com pesquisas na reabilitação de paraplégicos aqui no Rehabilitation Research Centre da Sydney University, tenho vivido o dia-a-dia destes seres especiais que se superam constantemente. De acordo com os depoimentos de alguns atletas que sofreram estes traumas, e minha experiência pessoal e profissional, aqui vão algumas sugestões para minimizar os riscos:
Mantenha um bom condicionamento cardio-respiratório e pegue onda dentro deste limite. Um trabalho físico neste sentido no mínimo três vezes por semana é essencial.
Se tomar um caldo e se sentir abalado, jamais entre em pânico. Se estiver perto do outside, volte para o fundo e descanse um pouco até pegar a próxima, senão, saia da água e descanse. Um bom leash e cordinha para as nadadeiras ajudam muito.
Se você ver que vai tomar uma onda na cabeça que não tem condições de furar, não tente dar o golfinho. Deixe a prancha de lado e mergulhe. Se o turbilhão te pegar, procure ficar encolhido na posição fetal, mãos ao lado da cabeça e lembre-se de não se movimentar bruscamente – mesmo sefor para escalar a cordinha, isso aumenta muito o consumo de oxigênio.
Se o mar estiver grande e você não se sentir preparado, não tem nada demais ficar na areia, curtindo a praia ou admimirando as ondas da galera. Lembre-se também de dois requisitos muito importantes ao se fazer atividade física: estar bem dormido e alimentado.
Uma musculatura tonificada dá suporte aos ossos, articulações e coluna vertebral. Trabalhe principalmente abdomem e costas, mas todos os músculos merecem atenção.
Flexibilidade também é muito importante.
No caso de trabalhar sentado por longas horas, faça uma pausa no mínimo a cada 45 minutos. A coluna lombar agradece. Lembre-se de que isto irá também renovar sua concentração. Se você vive um estilo de vida sedentário, esteja certo de que em termos ergonômicos, bodyboard e longas horas na cadeira são uma das piores combinações que podem existir.
É importante ressaltar que mesmo que aconteça alguma coisa, as recomendações acima irão minimizar e muito as complicações posteriores, acelerando suas condições de voltar ao rip. Se jogar nas ondas é algo que faz parte do espírito do bodyboard. Contudo, tenha sempre em mente de que é preciso estar preparado e este é um longo processo.
James, fique com Deus.