Torcedor Fanático

O dia da criança

 

Gabriel Medina: concentração, determinação, talento e humildade para vencer o Quiksilver Pro na França. Foto: Divugação Quiksilver.

Acompanhar o circuito mundial ao longo dos anos nos faz registrar vários momentos mágicos, especiais, alguns trágicos, polêmicos e assim por diante.

 

Confesso que cansei de me tornar repetitivo contestando bateria por bateria, em que os brasileiros são claramente prejudicados. Perdi o bom humor, perdi um pouco da vontade de escrever o Torcedor Fanático, percebi que mesmo com uma grande audiência, meus textos estavam se tornando o Chatão Fanático.

 

Estava virando mais recado para as entidades do que propriamente entretenimento para os fãs do esporte.

 

Só que torcedor de verdade não pode engolir o grito na garganta diante de um dos feitos mais espetaculares dos últimos tempos, não só para o surf brasileiro, mas para o surf mundial.

 

Ter ídolos é assim, é sentir os olhos lacrimejarem ao ver a bandeira amarela sair da água e ir para o alto do pódio. É perceber que essa histórica opressão às nossas campanhas no tour começa a ser quebrada da única maneira que tantos insistimos, por meio do incontestável, em que nenhum juiz pode ter a cara de pau de tentar explicar que viu Porsche no lugar de Fusca, ou seja, ter que ganhar duas vezes do melhor de todos os tempos para carimbar a frente e o verso do atestado de que não aceitamos mais o papel de coadjuvantes, consumidores de enlatados da indústria de surfwear e fornecedores de belas meninas e seus backsides malhados.

 

O dia das crianças não poderia ter sido melhor, quando uma recém ex-criança mostrou ao mundo e a todos seus adversários que o mundo dos esportes ganha, definitivamente, mais um fenômeno.

 

Gabriel Medina é ludicidade pura, a maestria para voar o fez ganhar um evento da elite de um dos esportes mais competitivos de todos, em que você vale uma apresentação, uma performance, onde a comunhão com a natureza pode arrasar ou te glorificar.

 

É muita pressão, é muita concentração, é muita explicação e Medina está fazendo isso diferente de todos os que estão lá. O adolescente está se divertindo de verdade, isso é nítido no sorriso, em seus posts nas redes sociais. Ele quer vencer, é competitivo, mas como diz seu grande camarada Miguel Pupo: é muita vibe!

 

Alguém postou no Facebook durante o último dia do campeonato: ”Ferrou, Medina entrou em transe!”. Minha nossa, e que transe! Se ele tiver uns cinco transes destes num ano de 12 etapas, por exemplo, estamos feitos!

 

Muitos críticos têm dito que Medina ainda tem muito a evoluir. Sem dúvida, mas vai ser a primeira vez que veremos um surfista brasileiro evoluir no alto do pódio e isso vai trazer uma satisfação tremenda. Ainda bem que ele é bem novo, tem fôlego de sobra para ganhar várias vezes de quem quer que seja.

 

A vitória de Medina vai fazer com que a mídia internacional pegue um pouco menos no pé dos outros brasileiros, pois, até então, estava criado um grande clima de descontentamento da avaliação das ondas de nossos atletas, expressões ao sair da água, entrevistas azedas e isso já estava desgastando demais até o relacionamento de nossa torcida com o circuito mundial e Medina vai ser a locomotiva para puxar e colocar o trem definitivamente nos trilhos.

 

Queremos amenizar aquela inhaca das novelas mexicanas entre Mineiro e Slater, pois Mineiro é top, precisa de foco no surf e mostrar serviço dentro da água. É nítido que essa rixa entre eles fortifica a gana de vencer em Mineiro, mas um sentimento desses, forte demais, pode ser uma faca de dois gumes, pois o amor e o ódio andando tão próximos pode atrapalhar o atleta, que claramente precisa estar bem consigo mesmo para mostrar resultados positivos.

Precisamos deixar Heitor Alves mais confiante e calmo para acertar o pouco que falta em sua linha de surf para brigar pelas primeiras posições do ranking.

 

É tempo de fazer com que Alejo cometa menos erros de escolhas de ondas e perda de prioridade nos minutos finais das baterias praticamente ganhas.

 

Alguém precisa dizer para Raoni refletir que talvez seja hora de voltar a ser criança e se divertir surfando nas baterias, em vez de ficar abalado com a pressão de precisar vencer.

 

Jadson vai precisar mudar um pouco sua estratégia do aéreo reverse com a mão na borda finalizando a onda, pois esse tipo de aéreo ou é estratosférico ou não vale mais tantos pontos quanto antes. Não que tenha virado um cutback, mas não está mais sendo carta na manga de ninguém.

 

Miguel Pupo, ah, esse cara também é muita vibe! E é essa energia que me faz vir aqui e continuar a ser o Torcedor Fanático!

 

Valeu, crianças!

 

 

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