Muitas Águas

O desabafo de uma onda

 

Yuhu, uma onda da Indonésia e que fala a língua dos surfistas. Foto: Sebastian Imizcoz.

Bem, primeiramente gostaria de me apresentar – meu nome é Yuhu. É assim mesmo, sem sobrenome, do jeito que está escrito. Eu moro no longínquo Oceano Índico. Na verdade sou uma eterna viajante.

 

Nasci bem longe, formada pelos constantes ventos austrais, no Polo Sul. Como é lindo o lugar onde fui gerada! É bem frio, diga-se de passagem, mas as paisagens são de tirar o fôlego de tão grandiosas.

 

E ainda tem gente que diz que Deus não existe! Eu queria mandar um desses pra lá, pra ver a perfeição e o poder da criação! Mas o que me faz escrever aqui é o fruto de meus pensamentos e longas conversas com minhas dezenas, centenas, milhares de amigas mundo afora, ou melhor, oceanos afora.

 

Outro dia destes, numa de nossas viagens estávamos a conversar sobre como as coisas mudaram rapidamente, e pra pior, infelizmente! Antes éramos formadas, viajávamos e quebrávamos solitárias pelos sete mares.

 

Era legal, tudo perfeito, mas faltava algo, tipo uma companhia! Então, lembramos de quando lá no Hawaii, um rei veio nos fazer uma visita. Era tudo que imaginávamos um dia ser. Ele pegou sua alaia, de uma madeira nobre e superpolida e veio pela primeira vez conversar com a gente.

 

É, conversar. Pois aquilo sim era uma forma de expressão. Foram anos, centenas deles só assim, com poucos e sinceros amigos e que nos respeitavam. A conversa se transformou numa dança, que eles chamaram de surf.

 

Ah, Como era lindo. Eles sorrindo e nós oferecendo nosso melhor. Não podia ser melhor. Afinal, o Criador nos formou também para o prazer deles. Mas passado esse tempo as coisas começaram a mudar. Os oceanos, passaram a ser campos de batalha, domínio, poder… E quem pode domar os oceanos, nos domar, ou aos ventos?

 

E, apesar de sermos muitas, comecaram a brigar por nós. Verdadeiros gladiadores… que egoísmo! Jamais pensamos em ser motivo de discórdia para alguém. Entre nós, nunca competimos pra ver quem é a melhor. Eu, por exemplo, sou de estatura mediana, longa e tubular.

 

Tenho amigas mais agressivas, outras bem calmas. Umas aparentemente feias, mas todas temos nossa beleza e valor. Agora, eles, começaram a competir entre si e conosco. E a dança que era tão bonita, se transformou completamente.

 

Na verdade começaram a querer nos dominar, esconder dos outros… uma possessividade. Uma amiga minha ficou indignada: “E quem disse que nós somos só deles, querem nos aprisionar, como se fossemos brinquedos de garotos mimados”.

 

O que mudou mesmo foi o relacionamento. Mas isso porque eles mudaram entre eles também. Da época dos reis havaianos, mesmo que não fossem da realeza, havia respeito entre eles e também conosco.

 

Agora, é só selvageria. Querem também descobrir o futuro, que arrogância, querendo dizer onde e como vamos quebrar (numa tal de internet). Chegaram ao cúmulo de fazerem clones nossos, colocando-nos em gaiolas, que eles chamam de piscinas, cheias de químicos!

 

Meu Deus, Como será a vida das minhas filhas, netas…?

 

Os oceanos viraram uma grande latrina e resolveram tirar o óleo do fundo dos nossos oceanos, deixando um grande vazio. Com isso, todo o equilíbrio foi quebrado, e a Terra começou a tremer mais e mais,  tudo por um negócio de papel que eles chamam de dinheiro e acham que com isso podem ser alguém!! Doce ilusão…

 

Nós existimos há milhões de anos, e eles surgiram ontem! Nós vimos Deus nos criando e tudo o mais e depois eles vieram, muito tempo depois, que era para dar alegria e companhia para esta Terra, mas a ganância entrou no coração deles, e olha no que deu!

 

Eu tenho umas amigas que se levantaram num manifesto muito violento, me chamaram pra fazer parte, mas achei que não era por aí que as coisas iriam se resolver, sou da paz. Mas elas insistem que se derem um susto neles, as coisas podem mudar. É o que acreditam minhas amigas um pouco mais radicais.

 

Na verdade, estamos todas tristes e indignadas. Poderia ficar aqui escrevendo por tantas páginas, mas me preocupo com tudo isso. Tenho amigas que já morreram e outras são ameaçadas de morte pela construção de portos, marinas, condomínios e a poluição, que é o pior mesmo!

 

Agora, elas, as tsunamis, como são chamadas, estão se organizando e se manifestando cada vez mais. É um perigo para todos, pois estão furiosas mesmo! Então eu só queria dar meu recado, já que está acabando  mais um ciclo que vocês chamam de ano. Por favor, mudem a maneira de viver e sentir a vida, voltem à essência da simplicidade e do amor.

 

Eu moro na Indonésia, viajei a vida toda para então fixar residência aqui. É lindo ainda e me deram esse  nome: Yuhu. Pois por aqui ainda se sente aquela ingênua e sincera alegria. Sou muito orgulhosa do meu nome. Mas, até quando?

 

Espero que nessas poucas linhas eu possa ter passado um pouco de nosso sentimento e a visão de vida. Sei que tem muitos de vocês que pensam da mesma maneira e querem o bem. Unam-se e lutem por um mundo, um mar melhor, para que as coisas melhorem!

 

Venham e vamos conversar, vamos “surfar”, como vocês dizem. E tragam os amigos. Foi para isso que Deus nos fez, para sermos plenos em nossos propósitos.

 

Aloha (como diziam os nobres reis havaianos).

 

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Motaury acessa o site A Onda Eterna

 

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