É muito bacana fazer parte da história. Seja como Ader Oliveira e sua excelente cobertura do campeonato, seja como Adriano de Souza e seus dois episódios marcantes diante do rei, seja como Andy Irons aplaudindo tudo do céu, seja como Torcedor Fanático assistindo tudo pela TV e internet.
Fiquei um tempão sem escrever sobre campeonatos para o Waves. O enredo estava muito igual: Slater em ascensão, outros entrando em parafusos tentando o algo mais nitidamente impossível de alcançar, alguns resultados polêmicos, rookies aparecendo com destaque, aquela choradeira no Forum dos “entendidos” de plantão e assim por diante. Confesso ter dado uma cansada dessa repetição de criticar os juízes, malhar as performances intermediárias dos brasileiros e na etapa seguinte começar tudo outra vez.
As mudanças no formato do WT deram uma outra dinâmica às disputas. Acho que até a ASP se tocou de que precisava colocar mais pimenta no tempero para tornar mais emocionante o que já estava se tornando um pouco entediante.
As duas repescagens acabaram por dar mais chances a todos de se recuperarem de momentos não tão bons. O round 4, onde voltam três surfistas para a água, com certeza é um dos mais emocionantes, pois é a hora de o funil apertar e ninguém quer cair para a segunda repescagem, em que, teoricamente, o oponente é bem mais forte do que no round 2.
A história dessa etapa de Porto Rico foi uma das mais fascinantes de todos os tempos e será eternamente lembrada. Por ser uma etapa “The Search” já tem aquele “que” de “quero ganhar” por parte dos atletas. O público aguarda altas ondas e performances perto da perfeição e, com a corrida pelo título mundial chegando perto do final, era tudo o que precisávamos para haver certeza de emoção das grandes.
Só que o que era pra ser só festa, foi interrompido pela incógnita e inesperada morte de Andy Irons. Um dos ídolos da contra-cultura, aqueles mestres que vão do céu ao inferno em questão de segundos, mas que aparentemente estava se reencontrando para estar sempre ligado na positividade do mundo do surf. Muitos gênios se vão desse plano, talvez para atender a algum chamado dentro da evolução de seu espírito. E Andy se foi.
Mas como o show não pode parar, o show-man tinha que fazer sua parte.
Fiz uma viagem ao passado e me recordo que, quando Kelly Slater surgiu para o mundo do surf, muita gente não gostava dele. Lembro-me bem de alguns amigos que o criticavam bastante por ser um americano metidinho, no melhor estilo “somos donos do mundo” e chegar chegando em todos os lugares de nariz empinado. Talvez pela pouca idade e pela sua nacionalidade, isso fosse um pouco verdade no começo de tudo e, é claro, quem tem problema com o novo sempre critica quando alguém aparece para desbancar nossos ídolos ou começa a implementar algo que não estamos acostumados a ver.
Eu mesmo me espelhava em Tom Carroll e, quando apareceu Kelly Slater, pensei: “ferrou, eu aqui me esforçando para imitar um e agora me aparece esse aí reinventando as curvas?”.
E Kelly atravessou três gerações reinventando tudo o que a molecada trazia de novo. Nada foi impossível dentro desses 10 títulos mundiais. Se duvidavam que ele voaria e giraria, ele voava e girava melhor e mais alto. Se duvidavam que ele teria preparo físico para acompanhar o ritmo frenético da elasticidade e dos limites de pressão de joelhos e coluna vertebral, ele se preparava e encarava tudo na maior naturalidade.
É raro ouvir alguém dizer: “Fulano manobrou ao estilo Slater”. Pois sua genialidade é tão única que copiá-lo é perda de tempo. Quem quiser ser melhor do que ele vai ter que reinventá-lo.
Voltando ao campeonato, ainda não sei ao certo o que passou pela cabeça de Adriano de Souza ao cometer aquela interferência de obstrução em cima de Slater. A malandragem do careca foi tão extrema que ficou parecendo um baita vacilo mesmo de Adriano. Ganhando a bateria e embarreirar uma onda intermediária e fechando, foi um daqueles momentos estúpidos que todos nós temos de vez em quando.
As deselegantes declarações de Slater ao final da bateria deixou o Torcedor Fanático “P” da vida com o rei e foi aí que realmente caiu a ficha de que ele não deixaria escapar o título em Porto Rico por nada nesse mundo.
E novamente lá veio Mineiro nas quartas-de-final tentar carimbar a faixa do campeão que ainda não era campeão até aquele momento. Se Mineiro barrasse Kelly, ele seria o goleiro que defendeu o que seria (e foi) o milésimo gol de Pelé, e talvez fosse mais interessante deixar a bola entrar do que tentar barrar o campeão dos campeões.
Mineiro deixou passar as duas primeiras ondas da bateria, que eram ótimas ondas, e foi exatamente ali que Slater fez suas notas e deixou o brasileiro entrar para a história junto com ele. Mas como se chama mesmo aquele goleiro que tomou o milésimo gol de Pelé?
Com o caneco garantido, dali pra frente foi só festança, abraços, homenagens e, bateria após bateria Slater continuou a fazer o que fez o ano todo: não se entregou em momento algum e foi triturando adversários. Adeus Taj na semi e esculhambou Bede Durbidge na final com nota 10 e show de surf.
E agora? Ele para, continua, casa, compra uma bicicleta?
Evidente que ele ainda tem muito gás para continuar, mas será que ele quer esperar seu “gráfico” entrar na descendente para se despedir, ou será que é melhor vestir e eternizar a camisa 10 do surf até surgir outro extraterrestre como ele?
Até hoje não apareceu ninguém melhor do que Pelé. Será que algum dia veremos alguém superar Kelly Slater?