O consistente herói do oco

Nas triagens do campeonato conhecido até pela tia que mora no interior de Minas, um moleque de Itacoatiara ensinou umas verdades a mim e ao mundo do surfe. Bruno Santos, 21, veio do país acusado de não ter onda boa, atropelou uma dúzia de havaianos na casa mais oca do arquipélago deles, eliminou Mestre Machado, tirou tubo em pé na final e me fez ficar três horas de frente para o computador, numa noite suada do Rio.

 

A primeira porrada é nos inimigos da mania de banda larga, coisa de viciado em computador. Ficava cá eu com meus livros, discos e outros escritos blasfemando os conectados no futuro.

 

 

Um dia, precisei da coisa para o trabalho. Na noite do dia 8, dia de Pipe Master no Havaí, dei uma espiada num negócio chamado live webcast do aspworldtour.

 

Com a tal tecnologia, mesmo para quem não está no arquipélago, ver Pipeline ao vivo é um prazer de arquibaldo. A janelinha razoavelmente nítida aberta na computador me fez pensar em abandonar o Flamengo na voz do narrador pai de piloto. Bruno tem a coragem escassa em Jean e Dimba, a calma perdida por Felipe, a frieza sonhada por J. Baiano. E ainda mete gol! A cada jogo contra três gringos no Maraca do surfe mundial, ele tirava um canudo profundo, para delírio da torcida Raça-Bruno.

 

Lição dois: o sonho do título nas ondas perfeitas da elite não acabou. Desde que inventaram os eventos prime do CT, a curva de resultados dos centuriões do Brasil caiu como o lip de Pipeline. Em todos os cantos, surgiram teses: 1) a oferta de ondas da costa tropical era insuficiente para formar vencedores. 2) faltava a bala dos ianques, que mandaram o floridiano careca passear pelas melhores ondas do mundo desde garoto.

 

Pois o moleque Bruno nos fez lembrar que volta e meia damos por aqui mesmo um jeito na pobreza e nas ditas ondas pouco generosas. Temos, sim, as esquecidas escolas de ondas pesadas e de tubos. Itacoatiara formou Herdy e tantos outros não tão ilustres.

 

 

Agora o Bruno. O moleque estava soltinho no peso dos oito pés sólidos pipelineanos. E, com a base conquistada em Niterói, impressionou de verdade os havaianos. Os tubos do outro lado da ponte estão lá, prontos para ensinar outro determinado.

 

Outro canto: o amigo Belo, como eu um feliz catador de onda amador, mudou de
esporte desde que mudou de endereço. Foi para São Conrado, onde enterrou a
antiga linha tímida e especializou-se em sobreviver no vazio dos canudos.

Com vontade, dá para encontrar mais uma pá de surfistas bem-sucedidos e de
cursos intensivos em salões verdes pelo Brasil afora.

 

Não desligo a ainda suspeita banda larga sem contar a última aprendida na noite. Bruno chegou sozinho ao evento principal do evento mais famoso do mundo. Foi chamado para a triagem, mas como figurante de um jogo cujos bilhetes premiados são historicamente reservados aos havaianos. Dentro d’água, tomou uma das duas vagas na moral. Remou nas maiores, tirou belos tubos. E ganhou o que o surfista almeja na pressão do arquipélago e o brasileiro precisa para ser campeão mundial: respeito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Michelle des Bouillons desceu uma onda de quase 25 metros em Nazaré e pode entrar para a história como a mulher que surfou a maior de todos os tempos. Em entrevista exclusiva ao Waves, ela conta como chegou até aqui.

De Bells Beach a Raglan, Brasil vive quatro etapas de domínio histórico: vitórias, finais, nota 10 e os quatro primeiros do ranking mundial com a mesma bandeira.

Mais de cinquenta anos de câmera na mão: do Píer de Ipanema a Pipeline com Gerry Lopez, de Bob Marley no Havaí aos Rolling Stones no Maracanã. Fernando “Fedoca” Lima viveu e fotografou tudo isso. Agora reúne tudo em um livro.

Maior onda já surfada por uma mulher no Brasil é registrada por Michaela Fregonese durante swell histórico em Jaguaruna (SC)