
Para quem não sabe, o surfista Pete Cabrinha não é havaiano. Na verdade, ele chama-se Peterson Cabrini dos Santos, é paulista e morava na Moóca, com muitos parentes naquela alegre comunidade italiana da paulicéia.
Assim, o título do XXL é do Brasil. E não se fala mais nisso.
Dizem que Cabrinha é primo do grande jornalista da Band Roberto Cabrini. Mas isso não tem nada a ver. Esse é um boato, uma espécie de fofoca que rolou no Fórum.
Mas, paguei um jantar outro dia para o Cabrini e, enquanto saboreávamos um suculento cabrito assado, ele garantiu não ter qualquer relação de parentesco com o big rider.
Cabrinha, para desgosto da família era corinthiano, apesar da origem italiana. Por isso, diariamente era acordado aos berros pelo pai palestrino pasteleiro de feira às 4 horas da madrugada para ajudar no batente.
Era um pastel tão famoso no bairro quanto o oco dos tubos que viria a surfar um dia.
Um dia, a galera da área fretou uma Kombi e partiu alegremente para o balneário do Guarujá em busca de um domingão total farofa de muito pastel, caldo-de-cana, mocréias branquelas de biquini, jacaré, frango assado, pinga e outras cositas más… para acender durante a descida pela Imigrantes e dar aquele astral bob marley pra barca guiada por um rastafire ‘é nóis’ destes bem malucão.
Chegaram à praia de Pitangueiras muito animados, meio chapados e, de cara, ficaram chocados com o tamanho das ondas quebrando muito atrás da Ilha, com uma arrebentação que ia até a África.
Falando assim, na lata, é incrível e até parece mentira, mas é verídico o fato de que entravam séries gigantescas, cerca de 40 pés plus e algo mais – sendo que este algo mais fica por conta da minha necessidade de ser fiel aos fatos, pois tava tão inacreditável quanto unbelievable.
Sylvio Mancusi, Romeu Bruno, Rodrigo Monster, Carlos Burle, Eraldo Gueiros, enfim, todos os big riders brazucas dominavam o pico com um tow-in espetacular. Os jets riscavam o oceano ao melhor estilo Jetsons e Rocket Powers. Os caras dropavam imensas paredes para um vibrante público que lotava o calçadão das Pitangueiras.
Equipes de TV, revistas, jornais e sites registravam o épico dia em que o Hawaii era aqui, mas com aquele jeitinho brasileiro que a gente está acostumado.
Laricado depois de tantas ondas surfadas praticamente no quintal de casa, Sylvinho Mancusi aceitou um pastelzinho oferecido pela barraca do Cabrinha, surpreso com a recente clientela enfileirada no calçadão.
Cabrinha ficou amarradão quando Sylvinho pediu outro pastel de vento terral.
Mas, em troca, teria que atender um pedido: ele queria ser rebocado e experimentar uma única vez todo aquele way-of-life de surfista de onda grande.
Mancusi tentou remover Cabrinha daquela idéia de jerico, mas não teve jeito.
O cara queria provar aos amigos, gatinhas e cabritas, de que também era capaz de
ser macho e dropar um ondão sem nunca ter subido numa prancha de surfe.
Convencido sob a mira de uma arma de raio ultra-violenta, Sylvio pilotou o jet e rebocou Cabrinha para uma sessão além da arrebentação, numa session que estava mais pra sessão espírita do que pra sessão da tarde, em que somente as almas mais destemidas teriam vez diante da força aterrorizante da natureza em fúria.
Depois de varar uma arrebentação que deixou a dupla a poucas léguas da famosa direita de Jeffreys Bay, Sylvio Mancusi enfim posicionou o jet para uma esquerda muito monstrenga, com um lip ameaçador que mais parecia ser a baba do tinhoso.
Cabrinha soltou a corda e dropou. Dropou reto por intermináveis segundos e nem percebeu a onda dobrar-se por trás em um imenso caixote líquido, salgado e muito, muito gigantesco.
Anos depois, Sylvio Mancusi era rebocado em Jaws pelo Piscopato quando avistou um rosto familiar.
“My God!”, gritou Mancusi para Laird Hamilton que passava a milhão pelo canal com seu parceiro pilotando o jet. “That crazy guy is a Brazilian nut!”, gritou novamente Sylvinho.
Enquanto descia uma onda de 70 pés para a direita, Mancusi não teve tempo de perguntar o que Cabrinha fazia ali dropando pra esquerda.
Os dois só foram se reencontrar horas mais tarde, no restaurante do bom baiano Yuri Soledade, enquanto saboreavam um saboroso beef break com pão de morey-burger e salada de couve-floater.
Foi quando Cabrinha explicou como virou um havaiano tão legítimo quanto as sandálias havaianas made in Paraguay.
Depois de levar um caldão e perder a prancha emprestada pelo Romeu Bruno naquela remota tarde de domingo no Guarujá, Cabrinha foi resgatado mais morto que vivo por um navio que ia da África do Sul para o Hawaii.
Ao chegar na world famous ilha de Oahu, Cabrinha driblou a severa imigração feito um Garrincha aquático: atirou-se ao mar antes de o navio ancorar em Pearl Harbour.
Em pouco tempo Cabrinha já se virava legal no arquipélago. O cara sabia se virar tão bem que logo virou havaiano. Adaptou dos filmes a facilidade para virar as coisas em outras coisas e aprendeu inglês, aprendeu a surfar de verdade e aprendeu a esconder de todos a sua clandestinidade.
Isso apenas para surfar os picos na condição de um dos locais mais loucos do arquipélago, e que ninguém sabia de onde tinha vindo e nem nada sobre a verdadeira identidade.
Com a grana da premiação do double XL, Cabrinha confidenciou para o Sylvio que pretende voltar ao Brasil para rever a mãe, irmãos e os amigos de infância.
O encontro será marcado na pizzaria da família Cabrinha. Ele só não sabe que o Waves vai estar lá para registrar a emocionante efeméride.
E mais, os internautas que acreditarem nessa promoção ganham um vale-rodízio para toda a família. Só não vale levar a sogra ou o cunhado.
Fiquem ligados e não deixem de participar desta incrível onda a favor do reconhecimento do título do XXL para o Brasil.