O voto é uma procuração que você dá ao candidato que falará em seu nome. Até por isso muitos preferem anular, para não ter responsabilidade sobre os atos dos políticos. Mas ao não escolher, a pessoa automaticamente aceita a escolha dos outros e ainda facilita que ela se concretize, tendo assim sua parcela intrínseca de responsabilidade.
Para muitos, política é sinônimo de corrupção, mas no dicionário é organização social. Para evitá-la, os maus políticos encontraram a melhor fórmula: dizer que todos que entram na política são ou tornam-se corruptos. Assim desestimulam a participação das pessoas honestas e fornecem ótima desculpa aos preguiçosos de plantão, que só reclamam e não agem.
Ao despertarem no povo a raiva da política, ficam isolados no poder, fazendo o que bem entendem. Decepcionados, os mais fracos de cabeça logo pensam em burlar as regras também ?para não ficar para trás?. E assim o lado negativo da cultura do jeitinho corrói o sistema como um câncer.
Enquanto buscamos a causa da miséria na fortuna dos ricos, a doença está no ?jeitinho nosso de cada dia? quando é usado para levar vantagens indevidas, independente da posição social. Seja subornar um guarda, deixar de declarar imposto de renda, furar uma fila, jogar lixo na rua ou qualquer coisa do gênero, por mais insignificante que pareça.
Se todos cobram a plenitude de seus direitos, mas evitam cumprir os deveres, o sistema entra em falência e tudo fica exatamente como os maus políticos gostam: um caos social, onde eles aparecem como salvadores da pátria e para isso só precisam do seu voto!
Depois de longos períodos como colônia, império e regimes ditatoriais, nós conquistamos o direito de ter o poder ao alcance do povo. Só não deram educação para o povo governar e assim a política segue invertida. Em vez do povo se unir para eleger representantes, são os políticos que tentam unir o povo em torno de suas propostas.
Todo direito está ligado a um dever. E o direito à democracia está ligado ao dever de exercê-la. Não só nas eleições, mas no dia-a-dia, acompanhando o trabalho dos políticos que elegemos, apoiando ou repudiando seus atos, de acordo com os interesses da comunidade ou grupo que façamos parte.
Para finalizar, fica um trecho de ?O Analfabeto Político?, do poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, do início de século passado, mas que ainda parece bem atual:
“O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”