
Pelo segundo ano consecutivo o carioca Pedro Muller, o “águia”, 35 anos, campeão brasileiro profissional em 89 e reeleito presidente da ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional) para os próximos dois anos, ocupou a função de diretor técnico da etapa brasileira do circuito mundial WCT.
Entre as diversas responsabilidades atribuídas ao cargo está a definição do tempo das baterias, a continuidade ou não do campeonato de acordo com a melhora ou piora das condições do mar, número de ondas a serem consideradas na soma de pontos e até a alimentação do staff do campeonato.
Comparando as duas vezes em que ocupou a função, Pedro Muller considerou a primeira experiência mais difícil: “Eu não tinha noção exata de qual era minha função, tivemos diversas dificuldades junto à Prefeitura e ainda por cima trabalhamos com um campeonato móvel, ou seja, tínhamos que estar prontos para mudar o campeonato de lugar de um dia para o outro”, explica.

“Já o segundo evento foi mais tranqüilo. Eu já estava mais seguro na função e não houve muitas dúvidas em relação ao mar. Minha preocupação maior foi antes do campeonato, pois estava um flat assustador. Felizmente tudo deu certo e veio um ótimo swell”, comemora Muller.
“Procuramos aproveitar o máximo do swell” continua. “Tanto que no primeiro dia foram disputadas 20 baterias em 10 horas ininterruptas de campeonato, uma verdadeira maratona para os juizes e para a organização. No segundo dia, cravamos 24 baterias ininterruptas”, conta.
Quanto à receptividade do pessoal da ASP (Association of Surfing Professionals) ao campeonato e toda a estrutura envolvida, Pedro não tem dúvidas em afirmar que foi a melhor possível.
“Todas as pessoas da organização estavam muito satisfeitas, inclusive com as condições do mar. Eles vinham de duas etapas na Europa em que o mar não ajudou, e gostaram muito das ondas em Itaúna. Tanto que mesmo quando o mar abaixou, as notas dadas pelos juízes ainda foram altas”, afirma Pedro.

Vale lembrar que a etapa de Portugal foi cancelada nas oitavas-de-final por falta de ondas e a etapa de Mundaka, na Espanha, teve sua final em condições insatisfatórias na praia de Bilbao, um beach-break próximo à famosa esquerda espanhola.
Segundo Pedro Muller, o fato da praia estar lotada no sábado não pesou na decisão de encerrar o campeonato naquele dia. “A maior preocupação foi mesmo com o andamento da competição, pois temíamos que o mar ficasse totalmente sem ondas no domingo”, explica – fato que não se concretizou.
Na correria do campeonato, Pedro teve pouca oportunidade de conversar com os competidores. “As baterias começavam às 7 da manhã, eu tinha de acordar às 05:30 e agilizar um monte de coisas para começar o campeonato na hora certa. Foi a maior ralação”, lembra.
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Quanto ao aprendizado, Pedro diz que esta segunda experiência lhe acrescentou muito, pois ele passou a entender mais sobre a função.
“Uma coisa interessante que eu vi, por exemplo, foi uma bateria que ficou sem ondas nos primeiros 15 minutos. Eles decidiram zerar a bateria e começar tudo de novo. Foi uma boa solução, pois depois começaram a entrar boas ondas, tinha sido só uma calmaria”.
O último dia foi, com certeza, o dia em que as decisões mais difíceis tiveram de ser tomadas, segundo Pedro. “Na segunda bateria não deu onda. Então corremos para a internet e avaliamos que deveríamos continuar o campeonato. Felizmente na terceira bateria o mar reagiu e aí rolou o campeonato até a final”, diz.

A decisão final de um campeonato é feita por um conselho, no qual um surfista representa os competidores. Porém, segundo Pedro, nem houve a necessidade de convocar os surfistas, pois a decisão foi consensual e sem muitas dúvidas.
“É muito complicado lidar com um campeonato quando ele depende dos caprichos da natureza, ainda mais quando a decisão põe em jogo o título do campeonato mundial, aí o medo de errar aumenta”, comenta Pedro.
Mas o andamento do campeonato foi tranqüilo e, segundo Pedro, a ASP ficou muito satisfeita. “Tudo funcionou bem, apesar do trânsito lento devido ao excesso de veículos”, lembra.
“Pelo que vi nesse campeonato tudo indica que a ASP aprovou totalmente Saquarema como palco do WCT no Brasil para os próximos anos”, conclui.

Pedro diz ter ficado impressionado com o público presente nos três dias de evento. O próprio Taj Burow, australiano vencedor do evento, afirmou que o público em Saquarema foi o mais participativo que ele já presenciou num campeonato.
Conversando com Pedro Muller, fica-se com a sensação de que a ASP ficou com a melhor impressão possível da etapa em Saquarema. Ponto para o Brasil, considerado pela própria entidade como um “powerhouse” do surfe, termo que pode ser traduzido livremente como uma “potência do surfe”.
Todo esse conhecimento acumulado nos principais eventos do circuito mundial irá fazer a diferença na hora de conduzir campeonatos nacionais, aprimorando cada vez mais a nossa já competitiva estrutura. É assim que iremos trilhar o caminho para, um dia, termos o tão sonhado título de campeão mundial.