
Enquanto o ciclone extratropical da semana passada provocava estragos em todo o país, uma galera fissurada aguardava seus efeitos positivos, que viriam em forma de grandes ondas no oceano e na costa.
Na esperança de surfar essas ondas, fui convidado por Romeu Bruno para explorar uma laje perto de sua casa, em Santa Catarina. A barca foi formada só por amigos.
João Capilé, Dudu Schultz, Rodrigo Resende, Rafael, Marco Merhej, o filmaker Flavio Vidigal e o fotógrafo Tony Fleury. Nos encontramos no Sul, onde um secret spot localizado a 10 km da costa e com enorme potencial mostraria os dentes com esse grande swell.
Graças ao apoio do empresário paulista radicado em Florianópolis, conhecido como Matida, conseguimos mais dois jet-skis, que somados ao jets do Capilé, Dudu e Marco seriam necessários para a tropa ir com segurança até a laje no meio do oceano.
Na sexta-feira fizemos um tow-in em Ibiraquera, em ondas de cerca de 2,5 metros quebrando atrás da ilha do Batuta.
Ao acordarmos no sábado bem cedo, nos deslocamos para o secret spot com toda a parafernália necessária. O tempo não era dos mais amigáveis, com muita chuva e frio. Mas isso não foi empecilho e disparamos para o outside depois de atravessar um quebra-côco pesado na costa.

Ao chegar no pico, depois de navegar por cerca de 20 minutos, a galera ficou em êxtase. Duas séries entraram com ondas de oito pés perfeitas na laje. Algumas baforadas deixaram a galera pirada.
Outro detalhe importante é o perigo que envolve uma barca dessas. Partir para uma laje a cerca de 10 km da costa durante uma neblina daquela requer pelo menos três jet-skis. O correto seria contar ainda com um barco de apoio. Do pico não conseguíamos avistar a praia.
A laje tem ainda outra peculiariedade. Devido a posição das pedras no fundo, a onda quebra em um ângulo diferente do da praia, mostrando que somente irá quebrar em determinadas direções de swell. A direita é a principal onda, porém a esquerda tambem é surfável, mas proporciona somente manobras.
Ação. Romeu ficou com Vidigal em um dos jets enquanto Monster e Capilé dispararam nas primeiras ondas surfadas do dia. Eu e Dudu Shultz fomos na seqüência. Shultz está arrebentando na pilotagem do jet-ski, o que facilitou e muito minha performance.
Não é fácil fazer a leitura dessa onda. A laje aparece na primeira sessão e o tubo rola bem na seqüência. Não sabíamos se conseguiríamos entrar na onda por trás do pico ou se seria melhor entrar um pouco mais para o rabo.

Para uma performance radical é necessário dropar por trás do pico, passar por fora da laje e colocar dentro do tubo na seqüência. Para isso, o surfista necessita de muito “timing”, talento e determinação para ser feliz. Fiz isso por duas vezes. Em uma delas não consegui colocar no trilho e senti a pressão do lip nas minhas costas.
Ficamos revezando as séries e entre uma onda e outra as principais coisas que passavam na minha cabeça eram a sensação de felicidade de confirmar a presença de mais uma onda pesadíssima em nossa costa, e a certeza que ainda poderemos encontrar mais delas em nosso litoral.
Coloquei Dudu em duas lindas ondas. Em ambas ele entrou no efeito “sling-shot” (o surfista é lançado na face da onda no sentido contrário ? do raso para o fundo ) e ele aproveitou duas das maiores ondas que vi quebrarem no dia.
Romeu Bruno foi o último a surfar, depois de ficar babando do canal por cerca de uma hora e meia, e aproveitou com todas suas forças boas ondas rebocado por Rodrigo. Infelizmente não temos uma empresa como a Billabong patrocinando nossas empreitadas como ocorre com os atletas convidados para o Odyssey, mas a galera tem muita raça.
Já com os jets apontando 1/4 do tanque de gasolina, partimos para a costa e na volta um deles quebrou e o jet do Capilé rebocou o outro danificado. A areia da praia estava muito fofa devido a forte chuva e os dois carros usados para tirar os brinquedos acabaram atolando. Depois de duas horas, com a ajuda de um trator e mais uma vez do Capilé e seu carro 4×4, conseguimos sentar no restaurante na frente do pico e curtimos um almo/janta patrocinado pela prefeitura local.
Os moradores da pacata região não acreditaram ao notar a movimentação na praia. Ficaram amarradões e nos acolheram maravilhosamente bem. Alguns deles até ajudaram a tirar os jets da água no meio daquela tempestade.
Infelizmente, por causa da chuva, a caixa-estanque do cinegrafista Flavio Vidigal embaçou e nenhuma onda nossa foi filmada com alguma qualidade, a não ser essas ondas perfeitas que quebraram sozinhas na hora de nossa chegada.
Agora não perderemos mais swells em nossos fundos de areia. As bancadas e lajes são uma grata realidade em nosso litoral. Let?s explore.
Aloha!