
A surfista gaúcha Roberta Borges, 40 anos, fez história no esporte.
Primeira campeã brasileira da história, em 85, ela também foi a primeira atleta a ter patrocínio na década de 80 e participou do mundial amador na Inglaterra em 86.
Roberta parou de competir em 1988, pois naquela época, o surfe ainda não estava estruturado a ponto de dar condições à surfista para se profissionalizar.
Hoje, quase 20 anos depois, Roberta continua pegando onda em frente de sua casa de praia, na Barra, em Garopaba. Sempre que pode ela viaja os 400 quilômetros que separam o pico de Porto Alegre, onde vive, e reina no outside, como a mesma garota de 20 anos atrás.
Na estréia da coluna Na Onda Delas, a surfista comenta a recente explosão do surfe feminino no litoral brasileiro.

Desde que comecei a surfar sempre compartilhei o outside com os homens. Mas, não era uma sensação relaxante e natural.
Natural seria eu ficar na areia como todas as meninas que esperavam seus namorados, ou simplesmente conversavam com as amigas.
O surfe ainda era um esporte novo no Brasil e estava reservado ao universo masculino. Com raras exceções, como minha parceira Tanira Damasceno, não era comum ver mulheres surfando no meio de tantos homens.
Sempre que ia surfar, tinha a leve impressão de estar no lugar errado ao ver tantos olhares de interrogação que me observavam da areia, e olhares de indignação, como se estivesse invadindo um território proibido, quando alcançava o pico.

De fato, isso nunca me abalou, pois o amor pelo surfe sempre falou mais alto e, logo que pegava minha primeira onda, uma voz interior, cheia de satisfação e alegria, reforçava minha decisão de ser uma mulher surfista.
Com o passar dos anos, muita coisa mudou e as mulheres conquistaram seu espaço em muitas áreas: no trabalho, na política e no esporte – onde mais me sensibilizo, principalmente ao ver neste verão, o grande número de garotas surfistas que perambulam pelas praias brasileiras, tornando-se o alvo de inúmeras reportagens na mídia nacional.
Agora sim! O surfe feminino explodiu no litoral brasileiro. Liberdade de ação sem preconceitos! Mas, será verdade que todas já se sentem à vontade?

Muitas meninas ainda estão em fase de aprendizado neste verão e, graças às escolinhas de surfe, elas podem ter total assistência nessa nova vida, mas já existem as que se arriscam sozinhas no outside, disputando timidamente as ondas com os homens, que por um longo tempo ainda serão maioria no pico.
Passo o verão em minha casa no litoral catarinense. Ela fica bem em frente a uma pequena ilha. Em condições de vento sul, quebram altas ondas sendo ali a minha Disneylândia. Conheço praticamente todo mundo que surfa lá e, no verão, muita gente nova aparece, e novas surfistas também.
Sempre ficava muito feliz quando via outra mulher no pico, só que reservava essa alegria a mim mesma. Há algum tempo resolvi mudar de

atitude. Assim que vejo uma nova surfista na água, remo discretamente em sua direção e, como quem está se posicionando no pico, paro ao lado.
Como forma de boas vindas, sorrio com satisfação. Imediatamente recebo um sorriso de volta. Mesmo sem dizer nada, muita coisa é dita nestes poucos instantes. É a linguagem não verbal que na maioria das vezes fala mais do que muitas palavras.
Entramos na mesma sintonia. Sinto que esta atitude faz bem a quem está chegando, bem como a mim, que há anos batalho pelo surfe feminino.
Certamente, para a nova geração que está acordando para a vida, como a da pequena Isabela, de 7 anos, tudo é muito natural. Provavelmente, ela não passará por nenhuma saia justa no seu desenvolvimento como surfista, pois ao mesmo tempo, o surfe feminino também acorda para uma nova fase. Talvez ela nunca perceba que um dia tudo foi bem diferente no outside.

Que assim seja! E que os sorrisos de “boas vindas” permaneçam para sempre, como forma de união e respeito entre as mulheres!
PS: Ouço gritos de crianças enquanto escrevo esse texto e olho para praia… Pausa para um salvamento: cinco meninos argentinos caíram na corrente ao lado do ilhote, todos com seus bodyboards, mas o mar está grande e os conduzia direto para o fundo.
Eles remavam em vão contra a correnteza. Logo peguei minha prancha e corri até eles. Quando cheguei perto já havia outro surfista. Fizemos os meninos remarem para o lado e assim saíram da corrente. Deu tudo certo!
