Super Circuitos

Nova cara do surf brazuca

Evandro Abreu internacionaliza o SuperSurf. Foto: Aleko Stergiou.

Depois de dez anos de parceria com a Associação Brasileira de Surf Profissional (Abrasp), a Abril anunciou uma nova estratégia para o ano de 2010.

Na próxima temporada, a empresa vai promover quatro provas válidas pelo World Qualifying Series (WQS), divisão de acesso do Circuito Mundial.

“Tivemos uma parceria de longa data com a Abrasp, 10 anos, uma parceria supervencedora. Agora faremos uma parceria e um acordo com a ASP”, conta Evandro Abreu, gerente de produto da Editora Abril e organizador do SuperSurf.

Em paralelo ao ranking WQS, o melhor surfista entre as quatro etapas do SuperSurf também receberá um prêmio extra pela

Marcelo Andrade aposta em Circuito Brasileiro mais dinâmico. Foto: Aleko Stergiou.

vitória no circuito. Os patrocinadores ainda não estão 100% definidos, mas a Volkswagen e Nova Schin, atuais patrocinadores do SuperSurf, terão prioridade nas negocicações.

“Acho que é um grande avanço para as competições de surf no Brasil. Fico um pouco triste por deixar o Circuito Brasileiro, mas o SuperSurf está passando por uma nova era e deixando de herança um campeonato que há 10 anos começou desacreditado e hoje tem uma baita credibilidade”, explica Evando Abreu

 

“Esta herança fica para que a Abrasp continue desenvolvendo o trabalho com um novo parceiro e esperamos que continue tendo um sucesso cada vez maior. Por outro lado, ganhamos quatro etapas de WQS aqui no Brasil. Os atletas brasileiros serão beneficiados com mais etapas para buscar uma vaga para o ASP World Tour. Esta mudança será muito positiva para o surf brasileiro”, ressalta Envandro Abreu

Os locais das disputas ainda estão sendo confirmados, mas tudo indica que as quatro estapas acontecem em Florianópolis (SC), Maresias (SP) ou Guarujá (SP), Ubatuba (SP) e Rio de Janeiro (RJ).

Circuito Brasileiro Profissional A Abrasp também apresenta um novo circuito a partir da próxima temporada. Em parceria com uma nova empresa, a entidade promove cinco etapas do circuito nacional com uma premiação maior.

 

“Foram 10 anos de SuperSurf, que aumentou o patamar do surf brasileiro e ajudou muito neste crescimento. Não houve divergências nesta nossa separação, mas ideias diferentes no que diz respeito ao evento. Era notório que o evento precisava de uma mudança em vários aspectos, principalmente para tentarmos dinamizar”, conta Marcelo Andrade diretor executivo da Abrasp.

Serão R$ 200 mil em prêmios – R$ 160 mil para a categoria masculina e R$ 40 mil para feminina. O período para realização de cada etapa volta a ser de cinco dias. “Eles decidiram que o WQS seria uma solução para eles e nós analisamos que já que iríamos para outro patrocinador seria bom começar uma coisa toda nova, levando em consideração todos os problemas dos últimos anos, como formato e tempo”, explica Andrade.

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Etapa da Barra marca encerramento de uma parceria que durou 10 anos. Foto: Aleko Stergiou.

Novo formato Em reunião realizada na última quarta-feira  (28/10), ficou definido o novo formato para a divisão principal do Circuito Brasileiro de 2010, com 64 atletas na categoria Masculina divididos em três fases de oito baterias, com quatro competidores cada.

A primeira fase será formada por 32 atletas, sendo os top 10 do Brasil Tour 2010 (ranking dos eventos realizados até três semanas antes da etapa), mais oito convidados, mais sete classificados pelos rankings regionais, com mais sete últimos classificados pelo ranking do Brasil Tour de 2009.

Na segunda fase, entram os oito primeiros classificados pelo ranking Brasil Tour 2009 com os oito últimos classificados pela divisão principal do Brasileiro de 2009, estreando contra os 16 que passaram pela primeira fase da competição.

Novo formato possibilita que qualquer um seja campeão brasileiro. Foto: Aleko Stergiou.

“Nossa idéia é que o formato novo seja mais rápido, mais ágil e ofereça uma janela maior, para colocarmos os atletas na água em condições melhores e o espetáculo ter uma motivação maior para todos”, explica Marcelo Andrade.

Já os Top 16 do ranking brasileiro de 2009 fazem parte da lista dos principais cabeças-de-chave que entram direto na terceira fase, para enfrentar os classificados da segunda rodada. Os top 16 serão definidos a cada etapa pela soma dos pontos no ranking unificado de 2009, mais os pontos adquiridos na temporada vigente.

Na sequência, acontecem as oitavas-de-final já em baterias homem-a-homem, sistema de
disputa que prossegue até a grande final. Em algumas etapas, o representante do conselho executivo, o gerente do circuito, o juiz chefe e o diretor de prova podem optar por transformar o evento no formato homem-a-homem a partir da terceira fase.

Em caso de condições extremas do mar durante o evento, os representantes podem alterar o tempo das baterias entre 20 e 40 minutos, utilizando o formato de confrontos de quatro atletas até o final do evento.

“A questão de aumentar o número de atletas no masculino parece um contrasenso em relação ao que acontece no mundo, mas nossa realidade é totalmente diferente. O circuito WQS é muito forte, mas nós já não temos uma divisão de acesso tão forte. Hoje o atleta que está na elite do surf brasileiro passa um ano em uma situação muito mais confortável do que aquele que não está”, garante Marcelo Andrade.

Para a Divisão Principal do Circuito Brasileiro de 2011 serão classificados os 30 primeiros colocados no ranking de 2010, mais nove campeões regionais de 2010, 13 classificados pelo ranking Brasil Tour 2010, seis convidados e seis classificados pelo ranking Brasil Tour de 2011.

“Para aquele atleta que não está na elite a motivação será dada com 10 vagas nas provas, que irão dinamizar e trazer outros nomes empolgados pela possibilidade de ser campeão brasileiro. Agora não ficaremos só na elite dos 46. A possibilidade está ao alcance de qualquer um. Tanto a molecada mais nova do Pro Júnior como os atletas que estão retornando do ASP World Tour terão oportunidade. Com certeza o título terá muito mais valor, pois a prova será mais competitiva e reunirá os melhores do surf brasileiro. Nossa divisão de acesso crescerá ainda mais com esta mudança, pois as etapas regionais valerão como acesso”, diz Marcelo Andrade.

“Teremos oito convidados a cada prova. Dois recebem vaga pela federação local e três pela Abrasp, que sempre beneficia os contundidos e convida o campeão Pro Junior. Para a outra vaga ainda será decidido se entra o campeão brasileiro da CBS ou o vice do Pro Junior. As outras três vagas de convidado são do patrocinador”, complementa ele.

Categoria Feminina A nova elite será formada por 16 surfistas, divididas em quatro baterias de quatro atletas na primeira fase. Na segunda fase serão quatro baterias mulher-a-mulher, seguida da semifinal e final.

Em algumas etapas, a representante do conselho, o gerente do circuito, o Juiz Chefe e o Diretor de Prova podem optar por transformar o evento no formato mulher-a-mulher a partir da semifinal, com uma segunda fase formada por duas baterias de quatro atletas.

Para a Divisão Principal do Feminino de 2011, serão mantidas as oito primeiras colocadas do ranking brasileiro de 2010, com mais seis classificadas pelo ranking Brasil Tour 2010 e duas convidadas – uma pela Abrasp e uma pelos organizadores locais da etapa.

 

Na divisão de acesso, tanto no Masculino, quanto no Feminino, o formato também muda. A partir de 2010, os eventos regionais e estaduais terão os rankings unificados com o do Brasil Tour, determinando diferentes níveis de premiação e pontuação. Nesse formato, serão computados no ranking da divisão de acesso os seis melhores resultados de cada atleta. 

 

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Renan Rocha analisa a cena completa. Foto: Aleko Stergiou.

O lado dos atletas Representante do Brasil durante vários anos na elite mundial do ASP World Tour, Renan Rocha é membro do conselho executivo da Abrasp. Em uma conversa com nossa equipe de reportagem, ele contou o que estas mudanças causam de impacto para os atletas e o que muda no atual cenário do surf brasileiro.

 

“Por enquanto ainda é difícil avaliar o que será positivo e o que será negativo com estas mudanças, pois só na prática saberemos o resultado. Alguns atletas com certeza não gostaram, mas a maioria achou o fato positivo”, diz Renan Rocha.

 

“Pra ser sincero, eu, Renan Rocha como pessoa, sempre fui contra o que está acontecendo, mas o que importa é a

João Carvalho acompanha história de perto. Foto: Fernando Iesca.

opinião da maioria dos atletas e do conselho. Eu achava que

deveriam participar 32 atletas no máximo para pode ter mais dinheiro em jogo e estes atletas terem mais força na mídia, mas toda galera achou melhor que não, pois assim temos a possibilidade de que um atleta Pro Júnior, por exemplo, possa fazer um estrago danado no Circuito Brasileiro, ou até mesmo um novo nordestino que não seja conhecido pela mídia, que pode chegar e derrubar grandes os atuais grandes nomes do surf brasileiro”, explica ele.

 

“Então, esta abertura também ajuda para que haja uma renovação e motivação, já que o ranking será dinâmico. Isto faz com que ninguém fique ali só cumprindo tabela. Perdeu, dançou. Não tem mais como se acomodar. Mesmo existindo os backs e tops, isto irá mudar a cada etapa”.

 

“Acho tudo isso superválido. O ano que vem será uma grande mudança no cenário do surf brasileiro, por ter uma nova empresa apoiando, novos patrocinadores e novas pessoas envolvidas. Cada novo campeonato que ganhamos só é positivo para o surf brasileiro. Será muito interessante e tomara que todas etapas tenham altas ondas para que tudo dê certo”, deseja Renan Rocha.

 

“Por um lado, teremos muitos campeonatos, mas eles não decidirão muito a vida dos atletas que querem ingressar no ASP World Tour, pois eles terão que viajar para competir as etapas prime contra os gringos. Por outro lado vai ser bom, porque a molecada começa a competir já em formato dentro do cenário da ASP. É sempre assim, com qualquer mudança ganha-se em algumas coisas e perde-se em outras, mas o importante é o cenário do surf brasileiro hoje na parte de infra-estrutura empresarial. Os empresários vêm o esporte hoje como lucrativo, vendável e que tem que ser praticado. Isto nos ajuda bastante”, avalia.

 

“Dentro desssas novas mudanças, a única pergunta que fica no ar é em relação às marcas de surf. Será que elas terão dinheiro para patrocinar os atletas em todas estas etapas? Eu vejo atletas desesperados para sobreviver. Nesta etapa aqui da Barra eu vi pessoas que nunca imaginava implorarem em São Paulo para arrumar um patrocínio. A galera está com medo de não ter dinheiro pra comer em fevereiro. Estou vendo pessoas sem patrocínio e as que têm estão ganhando muito mal. Estes atletas moram sozinhos e têm famílias”, explica.

 

“São várias etapas a ser percorridas e estou vendo que no próximo ano serão somente uns cinco ou seis que terão verba para acompanhar estes campeonatos. O maior medo hoje não é na organização do evento, mas sim nas marcas mandarem os atletas para estes eventos. Tomara que com a mudança de ano a mente também mude. Alguns dizem que investem, mas é necessário investir com a quantia correta”, finaliza Renan Rocha.

 

Mais prêmios em jogo  Assessor de imprensa da ASP South America e da Abrasp há 15 anos, João Carvalho está presente em todos os campeonatos das entidades e acompanha sempre de perto as competições profissionais de surf no Brasil, além de ser um grande especialista nas estatísticas que costróem a história do esporte.

 

“Esta mudanças só engrandecem o surf brasileiro. O SuperSurf atinge agora uma esfera internacional e os surfistas saem ganhando, pois haverá um volume de prêmios maior a ser disputado. O Circuito Brasileiro também ganha um upgrade, pois a agência nova que entra no lugar da editora Abril chega com todo gás para fazer um produto melhor ainda do que é hoje o SuperSurf, se é que isto é
possível. O surf brasileiro é quem sai ganhando com toda esta mudança”, diz João Carvalho.

 

“Os surfistas são beneficiados diretamente com o maior volume de prêmios a ser disputados, porque além destas cinco etapas do Circuito Brasileiro Profissional que serão mantidas, teremos quatro novas etapas do WQS, fora todas outras etapa que já estão agendadas para o ano que vem pela ASP South America. Deste jeito os atletas poderão viver até sem patrocínio, só disputando premiação”, brinca João Carvalho.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.