Espêice Fia

Nostalgia em J-Bay

Em plena época de pesca da tainha, com várias praias fechadas no litoral catarinense, uma escapada até Jeffreys’ Bay caiu feito uma luva. Se para mim, o fato de apenas acelerar naquelas longas paredes para a direita já foi o ápice, para o guarujaense Victor Bernardo foi uma exelente oportunidade para conhecer e praticar em uma onda cultuada por milhares de surfistas do mundo inteiro.

 

A carreira de Vitinho é promissora e vem sendo bem preparada pela Hang Loose, que conta Paulo Kid, ex-surfista profissional e agora técnico. A viagem nestas duas últimas semanas de junho já estava programada havia meses, mas depois da conquista do título brasileiro sub 20 em Itamambuca (SP), recentemente, nada como um treino preparatório para o futuro no surf profissional.

 

Apesar da dificuldade atual do mercado, com tantas marcas balançando as pernas e a Billabong sem conseguir promover seu evento tradicional em Jeffrey’s, este parque é assediado, logo penso que não vai demorar para outra marca abraçar a etapa caso ela não aconteça no ano que vem.

 

Se existe um respeito à Billabong ou não, o segundo ano sem um WCT nas clássicas direitas não é sinônimo de adeus. Os interessados buscam Jeffreys para aprimorar o surf. “Adriano de Souza vem aqui desde cedo”, relatou Paulo Kid a Victor Bernardo. “E você viu o resultado dele no evento no ano passado? Campeão!”.

 

Nosso coro foi simultâneo ao relatarmos a dificuldade de se competir em J-Bay. A onda é veloz, o tubo é mais acima da parede na maior parte da extensão da onda. Manobrar com categoria, no crítico, com velocidade e sem perder o tubo, requer conhecimento, ou seja, muito treino.

 

Victor sentiu isso, apesar de sua enorme adaptação à onda. Em seu primeiro surf, já impressionou todos na água com sua velocidade e manobras aéreas. “De onde vem esse garoto? Ele é daqui da África do Sul”, perguntavam. O fotografo Jeff Munson, que vive no México e é cadeirante devido a um acidente no pico (fraturou a coluna cervical em 2002), estava de passagem por J-Bay quando viu o “furacão negro” voando baixo.

 

Quando descobriu que Vitinho era brasileiro. ficou maravilhado, soltou muitos elogios em um mix de inglês com um portunhol procedente de um casamento de três anos com uma brasileira e visitas a Maresias, litoral Norte paulista. “Você fantastic”, dizia o gringo.

 

Seu surf cativou todos, e rapidamente Victor fez muitas amizades, incluindo o hot grommet de 14 anos Adin Masencap, de Cape Town, que também estava em Jeffrey’s treinando. O moleque, que surfava com as pranchas da Safari, produzidas pelo legend Spider Murphy, era franzino, mas tambem dá sinais de que vai representar muito bem o surf sul-africano no futuro.

 

Desde 2006 eu não ia a Jeffrey’s. A cidade cresceu e um grande shopping center a uns 3 quilômetros do centrinho foi construído em um local que era apenas pasto. Muitas lojas e bancos rumaram para lá. No entanto, o cineminha (o proprietário cobrava o ingresso, vendia a pipoca e botava o filme pra rodar) ao qual costumávamos ir na Gama Road – principal via de Jeffreys e que corre paralela à praia – vizinho ao supermercado Spar, não exite mais.

 

“Faliu”, contou um senhor que me levou ao aeroporto de Port Elizabeth no dia de minha partida. “No inverno, J-Bay continua pacata, mas na alta temporada muitas famílias vêm do interior e fazem daquilo ali um frenesí”, disse. “Sem o evento de surf, perdemos um ‘extra’ na baixa temporada”, lamentou o senhor.

 

Umas das coisas que relatei para Victor foi que estava estranhando a temperatura em J-Bay. A água, apesar de gelada, estava boa e a temperatura agradável não me trazia boas sensações, pois nunca tinha visto aquilo ali quente e com ondas. Muito pelo contrário: só peguei clássico quando vinha tempo congelante. Lembrei até de uma vez em que eu e Peterson Rosa nos preparávamos ainda escuro para um treino antes de um evento.

 

Os pingos de chuva que caíam pareciam agulhas de estalactites congeladas despencando sobre nossas cabeças. Era engraçado, pois um ficava mandando o outro sair e quando botávamos o pé na varanda do apê, voltávamos tremendo de frio. De fato, a maior ondulação que pegamos nestes dias, cerca de 1 a 2 metros na série, entrou com tempo bom.

 

Não ficou o clássico, mas deu pra se divertir e praticar bastante. O vento na cara da onda dificultava as manobras e a permanência tranquila nos tubos, devido aos batentes que se formavam. De fora da água parecia clássico, mas de dentro estava bem difícil. Victor saiu da água mais cedo em determinado momento, reclamando da condição.

 

Paulo Kid, que nos filmava, disse-lhe para voltar, pois com aquelas ondas mesmo difíceis, se houvesse um evento, com certeza o dia de disputas estaria em ação. Quando Victor retornou ao outside, reforcei o palpite de Kid e até me pilhei mais um pouco, pois mesmo também achando as condições difíceis, pensei logo que dificilmente teria um dia como aquele no Brasil.

 

Ficamos um bom tempo na água e aproveitamos também que o crowd do dia anterior, quando as ondas estavam lisas, já não existia. Um dia antes do swell, havia levado minha prancha ao conserto por ter quebrado a quilha quando saía de uma onda no último segundo. Procurando uma antiga fábrica nos arredores de J-Bay, acabamos encontrando o legend Derek Hynd, que há anos vive no paraíso das direitas.

 

O australiano, que perdera um olho surfando em um evento em Durban em décadas passadas, ficou feliz em me ver e, é claro que nossa felicidade foi enorme – digo minha e de Paulo Kid, já que Bernardo não fazia a mínima ideia de quem era o “caolho”.

 

“Fabio! The style man!”, me elogiou. Agradeci envergonhadamente, quando Derek, ao mesmo tempo, me aprensentava a Mikey Meyer. “Hey Fabio, esse cara aqui é o melhor surfista da história de Jeffrey’s! Você precisa ver sua linha e estilo!”.

 

Neste momento, Kid nos chamou para uma foto e aproveitamos e apresentamos Vitinho a Derek. “Este é o grande sufista que eu estava assistindo em Jeffrey’s hoje?”.

 

Derek ficou simplesmente maravilhado com Vitinho e assombrou-se mais ainda diante de sua idade. “Ele só tem 16?”, exclamou em alto e bom som. Depois de contarmos parte da história de Hynd, Victor também maravilhou-se. E mais ainda ao ver Derek surfar com suas pranchas sem quilhas, apenas com as profundas canaletas. Ô negócio doido!

 

Algumas delas com rabetas assimétricas e só canaletas! A session da tarde rolou clean. Mr. Hynd vinha mais que deslizando, vinha voando em derrapagens e 360’s em alta velocidade. Que coisa maluca, nunca tinha visto Derek surfar com aqueles modelos ao vivo. Fiquei doido! Morria de rir, tal como outros surfistas no pico, que, mesmo acostumados, abriam sorrisos e exclamações.

 

Derek surfa agachado, para que o baixo centro de gravidade lhe dê um melhor balanço. Para pegar tubos, as pranchas “finless” funcionam apenas quando estão em alta velocidade, contou ele. Em determinado momento, quando Derek vinha a milhão em uma onda, um bump no meio da parede o desestabilizou. O “caolho” deu uma cambalhota em alta velocidade. Meu Deus, o cara de 56 anos parecia um guri! E haja joelhos! Quando o mar baixou, fomos ver a bicharada: leões, girafas, enfim, parte de passeios turísticos disponíveis nas proximidades de J-Bay.

 

Não faltou também o pulo em um dos maiores bungee jumps do mundo. A adrenalina estava a mil, dei meu segundo salto (já havia saltado em 2001) com bem mais tranquilidade. Vitinho pirou em queda livre, estava em êxtase. A essa altura, Caio Faria, irmão free surfer Junior Faria, chegara para também nos filmar. Caio havia vindo para J-Bay para gravar um programa do Canal Off e dali seguiria para gravar o WQS de Balito.

 

Já na plataforma abaixo da ponte, sob uma altura de 216 metros, Caio se instigou e depois de gravar nossos pulos também foi dar seu pinote e voltou incrédulo. Paulo Kid acabou não pulando, deixou para uma próxima vez e ficou nos filmando a longa distância.

 

Em mais um dia ensolarado, fomos dar um role até Cabo de Saint Francis. Por lá, a fama do rastro do Endless Summer. Surfamos em Seal Point boas marolas manobráveis de 1 metro. Vitinho havia comprado uma alaia e se encontrava em umas das regiões mais propícias para a prática.

 

Arrebentou, estava divertido vê-lo deslizar. Eu havia aproveitado para surfar com uma quadriquilha 5’6 que tinha uma rabeta serrada de uma prancha que havia inicialmente shapeado como 6’2”. A inspiração havia vindo de Dane Reynolds e Kelly Slater, e a prancha estava correndo muito, altas passadas e round houses cut backs.

 

Os aéreos ficavam por conta de Victor. Aliás, nesta session ele ficou sem conseguir voar quando o vento terral ficou ultraforte, nos levando ao almoço. A pizza de marguerita no Nina’s, ali atrás de Super Tubes, era o carro-chefe. Deliciosa!

 

Em nosso último dia, o mar amanheceu subindo. O nascer do sol estava bonito, mar liso, mas logo o vento maral e lateral entrou, estragando as condições. Mesmo assim, surfamos boas antes disso e Caio Faria nos filmou na água. Depois trocamos as funções para que Caio provasse Jeffrey’s. Com o tempo chuvoso e o vento forte a favor da “vaga”,o bicho deu boas passadas em alta velocidade.

 

Paulo Kid havia surfado na tarde anterior, quando botou pra dentro de backside sem as mãos em uma onda que fechou-se na sua frente. Pronto, foi o que faltava pra zoação do mascote Vitinho, que naquele momento documentava a session em vídeo e, antes dessa onda, havia captado uma vaca de seu técnico.

 

Desconectei-me um dia mais cedo da barca. A lembraça das duas semanas vinham à tona quando às 4:30 da matina o senhor que me levava ao aeroporto acelerava a 130, 150 quilômetros por hora em um Hyunday pequenininho. Achava que minhas pranchas iriam voar capota abaixo.

 

Gostaria de ter ficado para um evento especial que iria rolar em Jeffrey’s daqui a duas semanas. Tinha também outros afazeres no Brasil. No dia do meu regresso, as ondas ainda estariam boas, o sol iria raiar esplêndido em breve, tal como havia sido em todos os dias (só um dia chuvoso).…

 

Muitas lembraças, muitas fotos para viajar durante a jornada de volta pra casa. Passou rápido, e no último sábado já surfei boas ondas em Floripa. Os barcos já não estavam transitando ao fundo, acho que as tainhas vieram e foram embora mais cedo.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.