
Era 1985, fazia quatro anos de surfe nas costas e na latinha arranhada de sol, inda (atenção copydesk! o erro é intencional) faltava um par pra completar 20 – três para maioridade.
Um caro amigo, Alexandre (fazia as melhores capas do pedaço: Avant-Garde), passou uns dois meses me convencendo de que o Sul era fundamental na experiência de um surfista de verdade, tal e coisa.
Aceitei o conselho, recheei a mochila de bananada, biscoito de maizena e parafina e me mandei pra lá de bumba, 18 horas enlatado. As contas sempre justinhas apontavam uma diária de alguma coisa por volta dos, digamos, dez reais, incluindo hospedagem, alimentação e transporte.
– Sul é de graça! Todo mundo dizia. E eu, ingenuamente, engolia.
A turma lá no Quebra-Mar, minha primeira escola de surfe, vivia contando lendas maravilhosas de uma tal boca de rio, ainda mais perfeita do que a nossa queridíssima esquerda.
Ivon, Parrá e Zulu ficavam horas falando sobre as casinhas dos pescadores, a total ausência de surfistas, os Hare Krishnas, hippies e bichos-grilo que povoava a Guarda durante o verão – e as ondas! As ondas? Eu babava.
O tempo tinha outro ritmo, pouca pressa, ir e voltar do Sul nunca demorava menos do que um mês, quase o oposto da objetividade atual, onde a horda do andar de cima se programa para ver quem passa menos tempo e se mostra mais ocupado, pouco disponível, para os prazeres da vida.
Ostentar é preciso e, se possível, impreciso.

Dezembro, um calor danado, a namorada do Alexandre, farta das quase vinte horas de estrada, não agüentaria esperar mais quatro horas pelo ônibus que saía de Floripa para Palhoça, cidadezinha pertinho do paraíso.
Um detalhe importante na resistência da menina é o de ter que andar debaixo daquele sol sem-vergonha uns 15 minutos da rodoviária interestadual até a outra, dos cata-cornos locais, como chamávamos os ônibus mais modestos.
Dividimos um táxi e logo quando chegamos, o aspecto das acomodações não supriam as expectativas da mocinha, muito higiênica, muito mal acostumada com as mordomias da zona sul carioca. Nos hospedamos numa coisa que se assemelhava a um hotel, muito a contra gosto do meu senso financeiro.
Pronto! Em dois dias, numa viagem programada para um mês, já não sobrava mais um centavo, depois de rachar táxi e outros luxos?
O amigo e a namorada foram embora em poucos dias, eu fui ficando?
Aproximava-se o dia 31, data de loucura máxima na Guarda do Embaú, a rapaziada já se municiava com toda sorte de drogas.
Foi a primeira vez que vi nêgo cheirando pó, uns paulistas, muito gente fina por sinal. Assustei-me um bocado com o fato dos camaradas terem virado a noite e estarem com o espelho do banheiro debruçado no colo. Suavam bicas.
A gente ia surfar todo dia cedinho? Nessa manhã fui surfar sozinho.
O primeiro a me dar uma força foi um velho amigo do Quebra-Mar, Cláudio “Bodora”, que dividia um minúsculo quarto com Capilé.

Logo em seguida chegaram Cláudio Werneck, Marcos Conde e Pedro Muller, que vinham de um campeonatinho em Tramandaí, Torres ou Atlântida, maldita memória!
Cláudio, ao lado de seu irmão Rick Werneck, era um dos sócios fundadores da Cristal Graffiti, junto com Conde e mais, Carlinhos, André Cotrim, Cláudio Valle e Beto Santos – Pedro Muller era o principal patrocinado e maior esperança do surfe brasileiro desde Picuruta.
Pois eu contava da pindaíba que era passar o resto do mês com o dinheiro que me sobrara, da gentileza do Bodora (foi ele que me apelidou de Marreco, quando eu tinha uns 15 anos nas areias do Quebrão) e da adoção pela equipe da Cristal.
Acabei passando todo tempo no quarto dos caras, sempre esperando eles terminarem o PF para traçar o feijão e arroz que sobrava aos montes, a dona da pousada até gostava.
Evoluí dois anos em um mês, surfando todos os dias com Pedro e observando tudo com atenção. Na maioria das vezes, apesar da perfeição das ondas na boca do rio, preferíamos a caminhada até a Prainha e o surfe quase solitário.
Voltei ano após ano, sempre que pude, até 96, quando a invasão dos malandros de sungão, frescobol e kimono começava a se alastrar.
Tinha gente que nem prancha levava.
– Que tipo de pessoas são essas? Eu me perguntava.
As melhores ondas foram em 91, o Roger bem lembra?