Espêice Fia

Lendas nordestinas

Nos dias 6 e 7 de setembro, fui a Baía Formosa (RN) depois de 14 anos. A visita ao venerado pico do Pontal não poderia ser em uma ocasião melhor. Fui convidado para participar de uma confraternização inédita em que os legends do surf do Nordeste seriam homenageados.

 

Organizado pelo também legend Helder Amaral, mais conhecido como Longarina, o encontro resgatou muitas histórias do passado. Histórias essas que cresci escutando e me inspirando quando era ainda moleque, no distante início dos anos 80.

 

A escolha dos nomes foi passada por cada associação dos estados, o que de certa forma causou certas controvérsias e mal estar. Mas logo nas primeiras palavras ditas por Helder quando a sessão na Câmera dos Vereadores de Baía Formosa fora iniciada, relatou este fato. O que se mostrou um episódio super difícil, dada a importância de tantos nomes em cada estado, deu lugar a um incentivo para que outras edições rolem no futuro, e se possível também em outras cidades, outros estados. O que foi plantado naquela noite de sábado pode ter sido um grande passo para que as lendas do surf sejam preservadas e relembradas sempre, e o esporte ganha com isso.

 

Foi demais reencontrar toda aquela turma, caras que apesar da idade e muitas vezes de “carcaças” envelhecidas pela água salgada e sol, se encontravam em plena juventude entusiástica. No mínimo dava pra denominar todos como os “inoxidáveis”. O presidente da PBSurf, Alexandre Palitot, encabeçou a cerimônia, que na real dispensemos aqui o protocolo, pois ali se tratou foi mesmo de um enorme bate-papo muitíssimo descontraído.

Foram tantas homenagens que fica difícil lembrar de todos e de tudo o que foi dito, mas seguem os nomes da turma boa que estava por lá. De Pernambuco e compondo a mesa estavam Fernando Paiva, o Murrinha, que deu ótimas declarações do início do surf na região, onde no fim dos anos 60 já haviam registros de surf. Bem humorado, começou dizendo que “entre o ser e o estar, estamos aqui sendo a história. Não porque nós começamos, mas porque nós a vivemos. Tivemos o prazer de conhecer muitos de vocês quando ainda sequer havia energia nestas praias. O prazer foi nosso, a alegria foi nossa. E o retorno é estar aqui com vocês”. 

Também de Pernambuco estavam o shaper Ricardo Marroquim e Napinho, de quem tenho a lembrança de ver muitos aéreos com uma prancha toda amarela quando fui em BF pela primeira vez, levado por Paulo Bala, por volta de 83. Na mesa também o shaper paraibano Eduardo Titi, incentivador do surf nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte e que inclusive sorteou uma BF (marca de suas pranchas) entre os homenageados. Entre agradecimentos, Titi relatou a nação do surf como um dos esportes em que os praticantes seriam mais unidos, incluindo inclusive a hospitalidade dos nordestinos. Citou Fernando de Noronha e principalmente a hospitalidade dos formosenses, que sempre acolhem todos com muita alegria, tal como Dona Regina, Dona Raimunda e Dona Francisca, respectivamente mães de surfistas como Israel “Vibration”, Figueiredo e dos irmãos João Maria e Chicó, todos legends locais.

 

O espaço público foi representado pelo vereador Antônio Madeiro, que parabenizou todos e dispensou comentários ao surf, tendo em vista todos os relatos já citados pelos homenageados presentes. O fotógrafo carioca Nelson Veiga, também conhecido como “Bicho”, um dos primeiros a fotografar e publicar em revistas de surf uma foto de BF, estava como convidado especial. Mais uma vez boas histórias e aplausos. Nelson, além de nos saudar com sua presença, claro, do alto de sua profissão não poderia deixar de registrar todo o encontro, e diga-se de passagem, com enorme prazer.

 

Foi lido pelo mestre de cerimônia, Palitot, um texto de um dos grandes incentivadores do surf nordestino e enciclopédia viva do surf brasileiro em geral, Chico Padilha, que não pôde comparecer ao encontro. Carregado de “linkagens”, o texto fazia um passeio na história. Foi muito aplaudido. Saturnino Borges, da Federação e também grande incentivador do estado do RN, tomou a palavra e foi logo lembrando um dos homenageados, Luruca Soares, descobridor da praia da Pipa e que subiu ao palco emocionado e agradeceu pela lembrança.

 

O também potiguar e hoje “master” Almeida Junior agradeceu pelo aprendizado de vida e competitividade, citando o seu mestre, o legend shaper Ronaldo Barreto, das famosas pranchas Radical. Em sua fala, além de agradecer à iniciativa de Helder Amaral pelo encontro, Ronaldo aproveitou pra homenagear importantes nomes do surf no estado. Foi o caso de Claudio Pachá, Tibério e Quirino Maia, todos já falecidos. Barreto chamou todos os presentes da “família” e brincou que se ficasse contando histórias ali seria papo para uma semana, um mês.

“Tunino” Borges chamou ao palco a esposa de Claudio Pachá, que subiu emocionada para receber o diploma e logo depois aproveitou para homenagear também Gustavo Aguiar, promissor do surf pernambucano falecido em 96. Gugu, como era chamado por todos, venceu o primeiro evento da associação do estado no ano de 88, nas ondas do Pontal de BF.

 

Na sequência, apareceu de camisa de gola e engravatado numa estilêra danada o legend Pereira, que também segue shapeando. O alagoano lapidado nas ondas do Francês foi o primeiro profissional de sua cidade e falou sobre o início no surf, quando era desacreditado e marginalizado perante a sociedade, mas que depois de muito esforço honesto, chegamos até os dias de hoje provando totalmente o contrário, ou seja, que o surf era um esporte do futuro e que hoje colhe seus frutos.

 

O ferrenho competidor master na atualidade, Fred Vilela, assumiu o microfone e citou Jorge, outro alagoano presente, proveniente da segunda geração daquele estado. Ali fora homenageado Caiã Porto, falecido surfista talentoso que tinha uma linha muito bonita de manobras graciosas e fortes.

Marroquim volta à cena contando que em 82 havia ido pra Pipa, e na volta a Pernambuco deu um pit stop em BF, onde foi bem recebido pelos locais Zé Pretinho, Israel e João Maria, entre outros que disse não lembrar, mas reforçou a hospitalidade, dizendo que as coisas mudaram, mas a característica acolhedora da turma permanecia a mesma. E Fernando “Murrinha” entra em fala mais uma vez, e em tom de descontração, fala: “É necessário dizer que tudo o que nós vivemos valeu a pena. E a prova disso é que agora é que vai começar realmente a história do Brasil com essa façanha do Medina e os seus point breaks, entendeu? Porque ele surfando como nós fazíamos isso aqui, prova que o primeiro lugar que teve um aeroporto e o lugar que mais teve aéreo que eu conheci na minha vida foi Baía Formosa. Sempre um lugar que teve primeiro o aéreo foi Baía Formosa. Então Baia Formosa é uma marca e essa marca vai ficar na história”.

Bom, nesse momento foram muitas, mas muitas risadas. E aí entra em cena o baiano Fredão e diz “É isso aí, galera! Maior emoção estar aqui. Fiquei pirado quando soube desse evento dos legends. Pra começar esta história dos legends, tem que passar 55 anos de surf pra ser chamado de legend. E aí fui cavando daqui, dali, saiu uma foto aqui outra ali… Acho que minha primeira foi em 73 e isso despertou uma enorme curiosidade nos meus amigos de infância, da galera da minha praia. A turma pirou quando a foto saiu. Mas digo, né? A inveja rola mesmo, todo mundo quer ser legend, a verdade é essa, todo garotão hoje quer ser legend, brother! E essa união é massa, é difícil ser legend. Tô vendo aqui um monte de coroas e muita gente da minha geração já morreu (nesse momento as risadas foram muitas e um dos presentes disse “Eita, então passou dos legends!”). Outros estão coroas demais e não estão mais surfando, aí eles olham pra mim em Salvador e falam “Pô, meu irmão, você é o legend? Só sobrou você (muitas risadas)? Só! E aí virou até comédia, virou piada. Antes de vir pra cá, avisei a todo mundo na Bahia: Galera, tô indo pro legends (risos)! E neguinho ficou com a maior inveja (risos)! Bom, fico muito emocionado em estar aqui, pois aqui ganhei o meu primeiro troféu em 78 e depois comecei a ganhar outros em meu estado”, relatou Fredão sob mais aplausos dos presentes depois do seu discurso carregado de bom humor.

Na sequência, “Longarina” começou a chamar a turma da Paraíba quando Chicó Moura começa a falar que aquele pedaço de terra tem muita história e que não dava pra falar tudo ali, mas que a galera da PB tinha uma relação muito forte com BF, tendo em vista que muitos surfistas do estado tiveram residências ali muitos anos atrás. Chicó estendeu os créditos para os também pioneiros e primos Germano e Ronaldo Moura (GR Surf Boards) e seu irmão Joca Maguari, além de Adolfo Maia, na época conhecido como “Coqueiro”.

 

Moura homenageou Wellington Bandeira, atualmente com dificuldades de saúde, um dos pioneiros e que com certeza conseguirá se recuperar pra estar entre nós. O legend Klécio, da K&K, falecido este ano, também foi lembrado como paraibano, juntamente com seu irmão Kleber. Chicó disse ter muitas histórias boas pra contar, mas que algumas não poderia falar ao público e também não queria se alongar, pois ainda tinha muita gente que iria falar naquela noite.

 

É quando sobe ao palco Adriano Henriques, vindo de Miami com a família, onde reside há muito tempo, especialmente para o Surf Legends Nordeste. Além de um dos  pioneiros nos picos da região, como, por exemplo, “as Cardosas” (PB) – juntamente com Joca Maguari -, onde precisavam abrir trilhas com facões para terem acesso, Henrique foi também presidente da ASPB (Associação Paraibana de Surf) nos primórdios da organização do surf na região.

Já próximos ao final, Paulo Bala, meu primeiro shaper e incentivador de minha carreira, entra em cena. Emocionado, relatou ter ido pra BF em 76, quando em um passeio de bugre pelas dunas com um amigo natalense chegou ao pico e ficou apaixonado. Bala lembrou do campeonato na praia do Farol, em 78,onde relembrou a vitória do baiano “Fredão”, que não via desde épocas passadas.

 

Joca Maguary tomou a fala com seu chapéu estilo panamenho, dizendo que em suas maiores expectativas nunca imaginou que depois daquela primeira vez que chegou a BF com uma prancha de madeira da marca Procópio (fabricante de mesas de ping-pong) amarrada com nylon na capota do carro de um amigo, o surf iria chegar a esse estágio. E aí foi quando seu irmão Chicó Moura resolveu falar sobre a pesada Procópio, relatando as duras caminhadas na cidade de João Pessoa entre os bairros Dos Estados e Bessa. “Éramos três caras carregando a ‘bicha’ e um certo dia resolvemos enterrá-la na praia, mas no dia seguinte nada de prancha e nunca mais a vimos”.

 

Encontro na Câmera finalizado, todos seguiram para a praça central, onde rolava um show de reggae da banda paraibana Pé de Côco, para receber os diplomas em frente ao grande  público presente. Todos os legends postados para a foto histórica e depois foi só caírem todos no ritmo do reggae.

 

No dia seguinte, estava previsto um surf da galera no Pontal, mas as ondas estavam bem baixas. Como o mais importante tinha sido o encontro propriamente dito na Câmera Municipal, a galera acabou abortando a session. Mesmo assim, eu, Ronaldo Moura e Fred Vilela ainda surfamos, tendo a felicidade de ter também o legend Nelson Veiga fazendo o registro.

 

Chicó Moura optou pelo kite surf e Ronaldo Barreto remou de SUP com a esposa Vanessa. Os locais João Maria e Chicó, apesar das condições, estavam soltos na vala, juntamente com Chupetinha, Romário e outro moleque da nova geração, um regular magrinho que surfava com uma prancha com pintura que parecia uma cobra coral. Não lembro seu nome, mas tenho a certeza de que terá um futuro promissor, tal como seus antecessores recentes, Alan Jones e Italo Ferreira.

 

A surpresa foi a entrada no mar de Israel “Vibration”, que pegou um par de ondas desempenhando em seu estilo “old school”, pra delírio da rapaziada. Feliz demais por ter revisto muitos amigos, fiquei pensando: “que encontro!”. Que venham os próximos para que os que ficaram de fora deste também sejam homenageados e que sigam se formando os legends.

 

Mais uma vez agradeço o convite pra participar desta edição e parabenizo mais um vez Helder Amaral pela grande iniciativa.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.