Muitas Águas

No tempo das biquilhas

 

Imagine ver na loja e não comprar. Imagine depois receber uma destas em casa numa surpresa inesquecível. Foto: Divulgação.

Em janeiro de 1980, com exatos 15 anos, e num período de estudos rigorosos, pois minha família proporcionou a mim e à minha irmã estudo em ótimos colégios, fui passar as férias: estudando! 

 

 

Desta vez fui para Londres, Inglaterra, fazer um curso intensivo de inglês. Foi um tempo legal, diferente, conhecendo a cultura e costumes de outro povo e vivendo numa metrópole com pessoas de todo o mundo.

 

A International House era minha escola, onde fiz alguns amigos e também dediquei um tempo para visitar museus e parques. Aliás, eu morava num bed & breakfast bem em frente ao Hyde Park e corria religiosamente todas as gélidas manhãs para manter a forma, já que ficaria longe do mar e do surf por quase dois meses.

 

Mas terminado o curso, minha querida irmã, Rosana, veio me pegar e levar pra conhecer New York (EUA). Lá fomos nós de mala e cuia pra terra do tio Sam.

 

Cara, que contraste! Eu simplesmente odiei Manhattan. Aqueles edifícios super-altos, um trânsito caótico e um povo agitado, bem diferente da Londres que vivi, que apesar de também ser uma cidade enorme, tinha um ritmo mais ordenado e um clima mais humano, em minha opinião.

 

Além do mais, extraviaram minha mochila no vôo e a companhia aérea só foi encontrá-la alguns dias depois.

 

Assim que recuperei meus pertences, implorei para minha irmã para sairmos daquela “Babilônia”; e lá fomos nós para San Francisco, Califórnia. 

 

Mas minha meta mesmo era conhecer Santa Cruz, mais ao Sul, a terra dos surfistas hippies! As revistas Surfer e Surfing, praticamente minha referência no surf, mostravam um estilo de vida que era levado na costa Oeste da América, e que me maravilhava.

 

Minha querida e pacientíssima irmã me levou até a rodoviária e fomos passar o dia na terra de Jack O’Neill. Assim que chegamos a Santa Cruz, no começo da tarde, fomos até Steamer Lane ver o cliff e as ondas, aquele ar gelado de inverno e qual não foi minha surpresa ao ver linhas e mais linhas simétricas rumando paralelas para a direita. Fiquei em êxtase, mas não tinha tempo para me agilizar para surfar nem dinheiro para roupa de borracha, botinha de neoprene, alugar ou comprar uma prancha.

 

Tudo bem, logo estaria de volta ao Guarujá e pegaria minhas ondas. Passamos mais algumas horas até o anoitecer, sem antes dar uma passada na surf-shop da O’Neill. Não acreditei no que vi! Parecia uma Disneylândia para mim. Tudo do bom e do melhor. Mas algo me chamou a atenção, uma biquilha!!!

 

Até então, desfilavam monoquilhas no Brasil e aquilo era uma novidade para mim. Mark Richards, em 1976, revolucionava o surf com um “approach” radical e fluido, munido de suas biquilhas e seu estilo “gaivota ferida” (Wounded Gull), liderando o circuito mundial (IPS) por quatro anos consecutivos, de 1979 a 1982.

 

Portanto ver uma biquilha, como nas revistas americanas, bem na minha frente, era como ver uma Ferrari nas ruas, morando no Brasil na época dos DKWs (“Decavês”)!!!

 

Ela era linda, uma Town & Country laranja e com .. quilhas de encaixe? Sim, era muita novidade num só produto!!!

 

Eu e a Rô voltamos para San Francisco e, de lá, eu voltaria para o Brasil e ela iria passar ainda por New Orleans.

 

Foi um tempo bem legal, apesar de curto ali na região Norte da Califórnia, mas pude sentir a vibração do surf como estilo de vida, a galera de roupas alternativas, cabelos compridos, gente tocando gaita nas ruas, andando de skate, etc,  e firmei ainda mais que aquela era a maneira como queria viver (mas sem as drogas, graças a Deus!).

 

Ainda no vôo de volta à pátria amada Brasil, pensava em tudo aquilo; meu futuro, estudos, profissão, e o surf, sempre ele!!!

 

Já envolto novamente em provas e muitas aulas, minha irmã chega de viagem e fomos recebê-la. Tudo ia normal até… eu ver um “pacote” enorme. Aquilo só podia ser uma… prancha… uau!!!

 

Não sabia o que dizer, o que falar, como reagir: minha querida irmã tinha trazido uma prancha!

 

Corremos pra casa e fui desembalar o presente, e que presente! Conforme ia abrindo foi se descortinando um laranja forte e vi um logotipo: T & C. Era a própria prancha! Com quilha móvel e tudo! Inacreditável, minha irmã tinha comprado minha “Ferrari”!!!

 

A sequência disso foram muitos e muitos meses surfando ondas muito boas no Guarujá, melhorando meu surf consideravelmente, pessoas e amigos parando para admirar aquele “foguete” e até propostas de compra!

 

E eu guardo no meu coração este ato de amor genuíno de minha irmã que nunca mais me esquecerei, e também as inúmeras ondas que surfei.

 

Rô, mais uma vez obrigado, você é a melhor irmã que eu poderia ter, sempre amiga e compreensiva e paciente tantas e tantas vezes com seu irmão caçula às vezes eventualmente chato e mimado. Me perdoe também qualquer malcriação. Te amo, maninha.

 

Fiquei ainda mais admirado ao saber que você carregava esta prancha pra cima e pra baixo em New Orleans, que trabalho deve ter te dado!

 

Obrigado mais uma vez Deus pela família que o Senhor me deu.

 

Aloha, ou melhor, paz e amor.

 

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