Natural de Niterói e com bagagem internacional de muitos anos, o shaper Paulo Mendonça é um caso de sucesso ascendente no North Shore do Hawaii.
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Especialista em foguetes desenhados para funcionarem a todo vapor nas ondas havaianas, ele já cativou diversos nomes do atual cenário do surf mundial e demonstra eficiência quando o assunto é performance em alta velocidade.
Direto do Hawaii, nosso correspondente Bruno Lemos preparou uma entrevista exclusiva com ele. Confira abaixo.
Fale um pouco sobre você, onde nasceu, o que já fez e ainda faz da vida.
Sou carioca de Niterói, 43 anos, shaper e moro no Hawaii desde 1984.
Também morei cinco anos na Califórnia em Pacifica, perto de Half Moon Bay. Meus últimos 25 anos passei viajando e trabalhando em diversas áreas pela América. Nos últimos três anos estou shapeando e realmente vivendo disto, sem ter que recorrer a outra forma de sustento.
Quando e como se envolveu com a fabricação de pranchas?
Desde pequeno meu pai trabalhava com lanchas na Baía de Guanabara. Aos 16 anos eu já trabalhava com ele instalando suportes em lanchas para motores diesel. Na mesma época me interessei em fazer pranchas.
Virei rato de oficina. Assistia shapers locais de Niterói trabalharem, como Viola e Toninho. Comecei a fazer algumas pranchas como hobby. Nós também fazíamos nossas próprias tábuas de skate e tábuas de mareski(skimboard).
Em 1984 vim para a América e procurei trabalho em Costa Mesa, Califórnia. Acabei dando foil em quilhas para Gregg Mungall, que era casado com a irmã do Richie Collins, então fui e trampei também com ele e o pai dele, Lance Collins, um dos mais sinistros shapers de produção a mão que já vi em toda minha vida.
Logo depois fui para o Hawaii e trabalhei com Bob “Ole” Olson, um dos shapers mais antigos da Califórnia, de Seal Beach. Eu cortava outlines pra ele. Até hoje ele foi o melhor shaper de longboard que já vi. Muito avançado. Ele fazia fundos muito modernos. Entre 1985 e 1986 ele já tinha muito trabalho de fundo e usava quatro quilhas em merrequeiras. Aprendi muito. Depois dessa fase me frustrei com o pouco dinheiro recebido em fabricação de pranchas e fiquei só fazendo algumas por hobby.
Trabalhei na construção de barcos e casas por uns anos. Em 1997, voltei a fazer pranchas em San Francisco com uma compania chamada S.F. Surfboards. Logo a seguir voltei ao Hawaii com o objetivo de voltar à produção. Encontrei o mercado muito fechado. Acabei laminando e pintando pranchas. Mais uma vez tive que recorrer à hotelaria e construção. Frustrante!
Por quê você acha que demorou tanto tempo para realmente assumir uma posição de shaper?
É muito dificil entrar nesse mercado achando que vai fazer algo que funcione. É necessário capital para desenvolvimento de shapes e atletas que possam dar feedback, além de uma cabeça aberta para aceitar quando algo não anda e fazer as devidas mudancas e ajustes.
Graças a Deus, nesses últimos quatro anos decidi que faria só pranchas ou morreria de fome. Fiquei teimoso e investi toda minha grana em ferramentas, programas de computador para shapes e blocos. Desenvolvi minha marca e fui com tudo. Por sorte estou morando no Hawaii e testei as pranchas em todo tipo de mar e tamanho de ondas.
Foi uma experiência muito boa. Tudo melhorou, inclusive meu surf e minha confiança. Então percebi o que eu realmente mais amo fazer: pranchas! Vesti o chapéu e não tirei mais.
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Temos muitos shapers bons na atualidade, principalmente agora com a tecnologia dos computadores. O quê te fez achar que conseguiria se sobresair neste mercado tão disputado e difícil?
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Acho que foi por conseguir atletas que se interessaram em testar meus shapes. Juntos desenvolvemos curvas e fundos que beneficiam a peformance em ondas havaianas.
Fiz várias merrequeiras que foram de volta para o Brasil. Com isso tive um crescimento. Eu trabalho com computador também. Uso DSD e o APS 3000, mas confio muito no meu handshape. Uso plaina Skil 100 e também estou desenvolvendo pranchas para kite e tow in, junto ao atleta Konrad Bright. Esse feedback foi vital.
Quais foram as principais barreiras que você encontrou e como conseguiu vencê-las?
A maior barreira é a financeira. Como tenho dupla cidadania e estou na América desde pequeno, não considero que ser brasileiro é uma desvantagem. Não acredito em preconceito. Acho que brasileiros são cada vez mais respeitados no exterior, principalmente na área de fabricação de pranchas. Depois da invenção da DSD por um brasileiro, alguns copiaram e fizeram a 3D, a APS 3000 e muitas mais.
Tem também a KKL que escaneia shapes e é aí que vários seguem em frente. Conseguem atletas e dão pranchas de graça. Todos meus atletas até hoje me ajudaram com a matéria-prima. Isso ajudou muito. Se a prancha não andasse eu dava uma nova em troca e assim fomos desenvolvendo. Trabalho muito com o programa DSD. Uso no Eric Arakawa, aqui no North Shore. Aprendi muito com ele, que realmente é um dos melhores designers de shapes em DSD que já vi.
Quem tem surfado com as tuas pranchas?
Jihad Khodr, Odirlei Coutinho, Marco Giorgi, Gabriel Nascimento, Dê da Barra, Keale Lemos, Bruno Silva e o kite surfer Konrad Bright.
Como você explica o fato de com tão pouco tempo de shaper ter conseguido produzir para tanta gente assim?
Acho que um viu a prancha do outro andar bem e assim foi. No inverno passado Jihad pegou boas ondas com uma 6″0′ que fiz para ele. Como ele conseguiu segundo lugar no WQS de Haleiwa muita gente ficou de olho.
Na tua opinião qual é o segredo para se fazer uma prancha boa que funcione?
Acho que é na simetria de linhas. Por onde elas passam e onde se intercedem. Imagina quando Deus fez um golfinho. Como que o fez tão perfeito para nadar em altas velocidades? É algo assim. Tambem aprendo muito com os erros. Às vezes cometia um erro, ia surfar e a prancha era mágica. Então repeti o erro até duplicar. Conseguir duplicar as pranchas mágicas com mudanças suaves que dão o “fine tune”, adicionando décimos de polegada aqui e tirando ali.
Quais são seus planos para o futuro?
Estou indo para o Brasil, pois tenho família, mulher e filhos em Florianópolis (SC). Quero me familiarizar com as matérias-primas brasileiras. Trabalhar com desenvolvimento de produtos e levar minha marca para o Brasil. Quero trabalhar com atletas nacionais em nossas ondas e buscar resultados positivos.


