O título acima define, em poucas palavras, o trabalho do carioca Elói Melo, único brasileiro com Phd em Ciências Oceânicas pela Universidade da Califórnia, em San Diego (EUA) ? além de engenheiro civil e mestre engenharia oceânica. Hoje, aos 49 anos (surfista desde os 16), Elói é professor da Universidade Federal de Santa Catarina e responsável pela implantação do primeiro serviço público de monitoração de swells do Brasil (saiba mais clicando aqui ou no site www.lahimar.ufsc.br). As informações são obtidas através de uma bóia medidora de ondas (ondógrafo) fundeada a 35 km ao largo da ilha de Santa Catarina, exatamente igual às usadas na Califórnia, Hawaii e Austrália. Conheça um pouco mais sobre swells e previsões com esse mestre das ondas.
Como tem de ser um bom swell?
Com períodos longos (para quem matou as aulas de física, período é o intervalo entre duas ondas). O problema é que, para ter esses períodos longos, é preciso uma tempestade que atue numa área de oceano muito grande. A maior desvantagem do Brasil é estar numa costa leste de continente. O movimento das tempestades é de oeste para leste. A costa oeste de todos os continentes está exposta a essas ondulações de longos períodos. Os swells que chegam à Indonésia, por exemplo, são gerados ao longo da África, às vezes, cinco ou seis dias antes. Quase uma semana cruzando o Oceano Índico e só se acertando (e aumentando o período). Os swells de sul no Brasil raramente ?viajam? mais do que dois dias. O Ceará é a exceção, com swells de norte no verão vindos do Atlântico Norte, que viajam até quatro dias.
O que a bóia estaria mostrando num dia de swell clássico?
#Bom, o tamanho varia de acordo com freguês… Mas, independentemente do tamanho, o período longo. A partir de períodos de dez segundos, as chances das ondas estarem perfeitas são maiores. Se o período estiver com mais de 14 segundos, voe para a praia, mesmo com ondas pequenas. Com períodos muito longos, as ondas vão refratar e entrar na costa. Pode estar pequeno lá fora e com o dobro do tamanho na praia. Mas tamanho significativo também é importante, principalmente para quem gosta de onda grande, porque mostra a quantidade de energia do mar. Swells com direção de 180 graus tendem a passar por fora.
Desde quando a bóia está funcionando?
Há mais ou menos seis meses. Ela foi instalada no final do ano passado, na direção da praia da Armação, em Florianópolis, mas o site começou a funcionar em meados de janeiro.
Há quanto tempo esse serviço de previsão existe no Brasil?
Na verdade, a bóia faz a medição do que está ocorrendo. A previsão é feita de outra forma. Isso aqui é que faz a previsão (Elói mostra um livro aberto de umas 500 páginas. Nas duas páginas expostas, exclusivamente fórmulas matemáticas…). Medição de ondas com bóias existem no Brasil desde a década de 70. A Portobras fez várias, a Petrobras ainda faz. Todas essas foram feitas com funções específicas, de produzir dados para cada empresa: portos, plataformas… A novidade que o Lahimar introduziu é que a gente está coletando os dados e disponibilizando-os, proporcionando um serviço público. Nesse aspecto, nosso trabalho é pioneiro.
Como funciona o serviço de previsão do Lahimar?
Existe uma agência norte-americana chamada NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, já conhecida entre os surfistas) que disponibiliza os dados da previsão das massas de ar sobre os oceanos ? em outra palavra, vento. Introduzimos esses dados num software chamado Wave Watch 3 (o mesmo usado pelo FNMOC ? idem), que faz os cálculos e transforma em previsão de onda. Acredito, entretanto, que nossa previsão local seja mais apurada.
Qual o custo do sistema da bóia?
#Uma bóia como a nossa, nova, deve custar entre US$ 45 e 50 mil. Isso apenas o aparelho. A bóia tem um metro de diâmetro e pesa quase 300 quilos. A âncora pesa 700 quilos. A bóia está colocada a 30 quilômetros da costa, numa profundidade de 80 metros (para saber mais sobre a bóia: http://www.lahimar.ufsc.br/picsul/waves/oquee_ondografo.html). Para instalá-la, é necessário um navio com guindaste. Além de computadores, rádios para a transmissão de dados. E você tem de ter toda a equipe, gente bastante especializada. Eu diria que uns US$ 100 mil, mais uns R$ 20 mil por mês.
E de onde veio a verba?
Na verdade, a bóia foi comprada pela Petrobras em 96 para conseguir dados em São Francisco do Sul. Em troca da utilização da bóia, fizemos um ano de medições para eles. Hoje, a bóia está sob a guarda da Universidade Federal de Santa Catarina. O navio usado para a instalação é do Ibama. A Casan (Companhia de Água de Santa Catarina) nos cedeu um escritório, onde funciona nossa base de terra. E os recursos para manutenção do sistema vêm do CNPq e da Funcitec, com uma verba inicial e o pagamento da equipe por meio de bolsas de estudo. Todos que trabalham no projeto são estudantes. Foram quatro anos de batalha para conseguir viabilizar tudo.
Qual é a finalidade científica da bóia, além de fazer a festa de surfistas?
Há esse lado de prestar um serviço público para todos nós, inclusive os surfistas. Mas qualquer projeto ou estudo que envolva a costa necessita da informação sobre as condições do mar, de um histórico. São informações ambientais, básicas e fundamentais, para a construção de qualquer obra costeira, por exemplo. Em qualquer estudo sobre praias, a informação sobre as ondas é a primeira. E, quando completarmos um ano de medições ? cobrindo um ciclo de estações ?, pretendemos fazer um estudo estatístico do clima de onda desta região. Qual a maior ressaca, a direção das ondas…
Esse sistema é ideal ou seriam necessárias mais bóias?
Essa bóia não está colocada ao largo da ilha por acaso. Nós quisemos colocar a bóia num ponto em que tivéssemos condições de medir o swell oceânico. Seria mais fácil em termos de logística, por exemplo, colocar a bóia na praia da Joaquina. Mas aí as informações só se aplicariam à Joaquina. Porém, fazendo essa observação lá fora é possível, através de cálculos de propagação de ondas, traduzi-la para pontos de águas rasas. Se as bóias custassem R$ 5 mil reais, seria ótimo ter várias delas. Mas com essa única bóia e a matemática dá para traduzir uma única informação para uma faixa costeira de 300 quilômetros.
O sistema pode servir ao menos de referência para surfistas de outros Estados ou só para Santa Catarina?
Seria mais fácil utilizar o nosso serviço de previsão, já que a bóia mede aquele momento. Mesmo assim, se a bóia registrar um swell de sul com determinado tamanho em Santa Catarina, é certo que ele vai bater em São Paulo, por exemplo, com o mesmo tamanho e direção.
Fazer também o monitoramento de vento não seria importante?
Muito. A gente, inclusive já tem uma estação meteorológica. Não foi instalado ainda porque não temos um dispositivo que transmita os dados da estação para o computador. Mas logo estaremos disponibilizando os dados de vento on-line também.
O que mais vem de novo por aí no site da Lahimar?
Primeiro será a apresentação do espectro direcional do swell ? isso vai definir a direção e a qualidade do swell com mais precisão. E também apresentaremos informações sobre a deriva da bóia ? essa mais útil para quem navega, já que indica indiretamente a corrente marítima que a bóia sofre. Essas são já para os próximos dias. E, um pouco mais para frente, vamos disponibilizar informações sobre água rasa, que é o tamanho das ondas nas praias. Vamos escolher pontos ao longo da costa catarinense e fazer os cálculos.
Há quanto tempo você faz esse trabalho de monitoramento de swells?
Comecei a estudar as ondas em 78. Surfo desde 69, no Rio. Sou praticamente da primeira geração do surf brasileiro, com Rico, Mudinho… Quando entrei na faculdade, em 72, não existia o curso de oceanografia no Brasil. Fiz engenharia civil na PUC. Formei-me em 77 e, por coincidência, a Universidade Federal do Rio abriu, naquele mesmo ano, pós-graduação em engenharia oceânica. Em 80, fui contratado pelo Instituto de pesquisa da Marinha como pesquisador civil e lá fiquei até 83, em Arraial do Cabo. E aí fui para a Califórnia fazer doutorado em ciências oceânicas. Fiquei na Califórnia de 83 até o final de 89. Foram seis anos e meio de ralação.
Como foi a experiência com as Sentinelas do Mar?
Voltei ao Brasil no início de 90 e iniciei o Sentinelas do Mar, o precursor desse sistema que está aí. No auge, éramos cerca de vinte observadores monitorando os swells em todo o Brasil. Foram quatro anos, de 90 a 94, de monitoramento diário documentado em praticamente todos os Estados costeiros do Brasil, no Uruguai e Argentina. Apesar de manual, o monitoramento era padronizado e poderia ter sido muito bem utilizado, não fosse o final trágico: em 96, um incêndio aqui na Universidade Federal de Santa Catarina reduziu todo o trabalho das Sentinelas, literalmente, a cinzas.
Existe algum projeto de novas bóias pelo Brasil?
A médio e longo prazo, nosso objetivo é ampliar o sistema. Mas, hoje, não há nada de concreto sobre isso. Nosso sistema tem se mostrado confiável, funcionando bem e esta primeira etapa pode ser considerada um sucesso. Queremos mostrar competência para, então, partir para um segundo projeto, com monitoramento ao norte, em São Paulo, e ao sul, no Rio Grande do Sul. A tecnologia, nós dominamos. Nos faltam os instrumentos.