Neste momento, os surfistas da elite mundial estão em Hossegor, França, para o Quiksilver Pro, nona etapa do CT que acontece até o dia 18 de outubro.
Depois de uma pequena amostra das ondas perfeitas e mecânicas da piscina de Kelly (para os que foram convidados), os atletas agora encaram o imprevisível turbilhão de ondas do Golfo da Biscaia, no sudoeste francês.
A França pode quebrar de gala, isso é fato. No entanto, esse país é um destino mundial de surfe mais pela consistência e variedade de suas ondas.
Mas como uma faixa reta de areia pode oferecer desde marolas limpas até ondas pesadas maiores de 3 metros sem perder a elegância? Bom, já que você perguntou, podemos agradecer a natureza mutável do Rio Adour e ao menor, mais bravo e arrogante goofy footer da história: Napoleão Bonaparte.
Vamos pelo começo. O Rio Adour começa no alto da cordilheira dos Pirineus e, durante milênios, descarregou suas águas no Atlântico, perto do porto de Capbreton, ao lado de Hossegor. Essa região possui um desfiladeiro submarino, conhecido como “Fosso de Capbreton”, semelhante aos cânions das costas de Puerto Escondido e Nazaré.
Rios sendo rios. Eles tendem a se mover e criar curvas ao longo do tempo. Por volta do ano de 1300, o Rio Adour mudou de curso e começou a desembocar no oceano 30 quilômetros mais ao sul de Capbreton, perto da cidade de Bayonne.
Humanos sendo humanos. Eles rapidamente utilizaram essa nova parte para criar um porto, construindo uma indústria de construção naval e armamento (daí o termo “baioneta”) e geralmente explorando a nova trajetória do rio. Menos de 200 anos depois, no entanto, o rio mudou de ideia e voltou a retornar ao seu ponto de saída histórico em Capbreton.
No entanto, a cidade de Bayonne não ficou muito feliz com a mudança, já que o futuro econômico da cidade dependia do porto. Eles contrataram o engenheiro-chefe Louis de Foix para certificar-se de que o rio voltaria para Bayonne e ficaria lá para sempre. Em 1578, após um enorme investimento e 30 anos de construção, o redirecionamento foi concluído, e o porto existe até hoje.
No entanto, o desfiladeiro submarino continuou ali, e, sem rio, as praias começaram a ganhar a forma nos arredores de Capbreton e Hossegor. Por causa disso podemos agradecer Napoleão.
No início dos anos 1800, o imperador francês ordenou o plantio de milhares de pinheiros, que absorveram o pântano atrás de Hossegor e estabilizaram ainda mais a faixa de areia. Agora, ele poderia ter ficado por ali curtindo as ondas ao invés de invadir a Rússia no inverno e causar a morte de mais de meio milhão de soldados. Mas pera aí, quem cria uma máquina de ondas como esta a história acaba perdoando.
O resultado final foi uma praia estabilizada e um enorme cânion de águas profundas que permite que as consistentes ondas atlânticas variem de pequenas marolas de vento no verão para ondas de tempestades maciças no inverno, que explodem na costa sem nenhum obstáculo pela frente.
Sorte para nós e para os surfistas do CT que essa mistura de oceanografia e história proporcionaram um coquetel perfeito de ondas incríveis. Agora, isso nem sempre funciona. Há apenas duas semanas, uma ondulação gigante explodiu nos famosos bancos de areia e deixou a praia uma bagunça.
Os franceses, que também não são nada bobos, costumam empurrar um monte de areia para La Graviere, onde o campeonato acontece. O objetivo é deixar a vala ainda mais perfeita para os Tops da elite mundial.
Fonte Tracks Magazine