Outras Ondas

Namorada de surfista

No começo as namoradas dão a maior força. Depois tornam-se rivais da prancha. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Mulheres de surfistas pelo menos vão à praia. Já a namorada do alpinista tem que esperar o cara sentada no carro. Foto: Bruno Lemos / Lemosimages.com.

Já vi esse filme. No começo a namorada dá a maior força. Ela tem orgulho de namorar um cara saúde que pega onda. Ela faz questão de incentivar porque sabe que ele volta feliz da vida depois das ondas.

Ela adora praia, o cara surfa – foram feitos um para o outro. Depois, com o passar do tempo, a atitude muda. Ela até gosta que o cara surfe, mas… “tem que ser o tempo todo? Dá pra falar de outra coisa? Não dá pra gente fazer um programa diferente?” É o início do fim.

Ou do namoro do casal, ou do surf do cara. Porque as coisas evoluem de tal forma que, com raríssimas exceções, pranchas e namoradas acabam por se tornar rivais. E basta olhar em volta pra perceber quem está vencendo.

Surf só no final de semana. Só em determinadas praias. Só em determinados horários. Acordos são feitos. “Fim de semana em Saquarema (melhor onda do Brasil!) nem pensar. Em São Conrado (melhor esquerda do Rio!) eu não vou nem morta, aquela praia é um lixo. Domingo tem que voltar antes do almoço com a mamãe.”

Uma surf trip por ano com os amigos e olhe lá. E com isso a barriga dele vai crescendo, sua cor ficando cinza, e os olhos vão perdendo o brilho… Tem uma cena no filme ‘A Praia’, quando o Leonardo Di Caprio vira pra menina, depois de deixá-la fascinada com algumas bobagens que ele falou sobre as estrelas, e diz mais ou menos assim:

“Agora você tá achando tudo lindo, mas as mesmas coisas que te fascinam no começo vão te entediar no final”. O cara tava falando de uma verdade quase universal sobre os relacionamentos. Mas podia estar falando especificamente de surf.

Me toquei disso porque outro dia fui pegar onda com a Ana e depois da sexta checada em quatro praias diferentes (fazer o quê? Moro no Brasil, onde o mar quase sempre é uma bomba), ela, levemente impaciente, arriscou: “aqui tá bom. Porque a gente não fica logo aqui?”. Tá bom? Como assim tá bom? Você entende de surf desde quando? E tratei de explicar que surf é uma das coisas mais importantes da minha vida.

Que trabalho pra burro. Que tenho pouco tempo. E que tenho que escolher direitinho minha caída. E mais importante, e que isso fique bem claro, se tiver dando onda eu vou correr atrás do melhor surf. Sempre! E se ela quiser vir comigo vai ter que ser paciente. Se não tiver saco pode ficar em Ipanema com as amigas.

Mulheres de surfistas são muito sortudas (levantem as mãos pros céus). Elas vão pra praia. Elas vão pra Prainha. Elas vão pra Guarda. Elas vão pra Bali. O som quase sempre é bom. A comida quase sempre é saudável. Surfistas procuram por praias sem muito vento, sem muita gente. Que tal namorar alpinista e se ver toda amarrada de cabeça pra baixo?

Que tal namorar ciclista e ficar se esbaforindo pedalando atrás do cara? Que tal namorar um tenista e passar o fim de semana no clube? Que tal namorar um windsurfista e perseguir o vento, quanto mais vento melhor, e ficar mofando dentro do carro? Ou um lutador de jiu jitsu e acompanhar de perto seus treinos na academia, enquanto ele fica se pegando com outro orelhudo suado?

Nunca entendi direito o porquê dessa metamorfose feminina. Talvez por uma necessidade ancestral de controlar e reduzir o macho apenas a sua condição de provedor familiar. Talvez por egoísmo. Talvez por falta de bom senso.

Mas nem todo mundo tem vocação pra ovelha. Os australianos, por exemplo, que fazem parte da maior nação surf do planeta, trataram desse assunto com seu peculiar humor escrachado estampando em camisetas os seguintes dizeres – “minha namorada mandou eu escolher entre ela e a prancha. Pena, vou morrer de saudade dela”.

Esse texto de Fred D’Orey foi publicado originalmente na Revista Fluir e faz parte do livro Outras Ondas, que reúne suas melhores crônicas.

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