
Fernando Mesquita, o Grilão, um dos fundadores da Revista Fluir, publicitário premiado com o Leão de Ouro na França, com a campanha Guerra das Colas, ficou largado no México no final do ano passado, quando pegou algumas das boas ondas de sua vida.
Neste relato, ele conta um pouco da barca, das roubadas e das ondas perfeitas ao lado de um punhado de amigos do Brasil.
Em Lasaro Gardena eu teria que ligar pro Gilberto, dono das cabanas em Nexpa, só que o motorista da busangavéia, uma jardineira caindo aos pedaços, que os mexicanos chamam de autobus, me disse:
– Você vai para Rio Nexpa? Eu passo por lá!
Respondi:
– A é? És Bueno! Então, vamos, as tralhas todas já estão aqui mesmo.

Eu ocupava toda a parte de trás da buzanga, fora o case Pro-Lite com três pranchas: 7.1, shape do Almir Salazar; 8.4 gunzerassa que entoquei forte em Puerto Escondido, com shape do Zecão; e long 9.1 Storm Rider, shape do Juquinha.
Tudo no meio do corredor com a moçada cheia de sacola, galinha, pato, filho e sei lá mais o quê. Só sei que a galera tinha que pular! Sem falar naquele entra-e-sai sem parar.
Essa estrada lembra muito a serrinha da BR 101, entre Maresias e Boiçucanga, litoral paulista, só que com altas e altas ondas! Puta visual!!!
De repente, no meio do nada, o motorista pára, vira pra mim e grita:
– Proento, chegaste!
Dei aquela olhada de 360º e? E??? Não tinha porra nenhuma em volta e me vi no meio de um nada mexicano, sob um calor de mais de 40º C.

Fiquei sentado ali um tempinho, até cair a ficha de que eu estava perdido. E agora? Aí, vi distorcida pelo calor do asfalto, alguém sentado numa varanda ao lado de uns cactus, lá longe.
Coloquei minhas coisas na sombra e saí andando, como se fosse um personagem de uma cena de bang-bang mexicano, num filme de 3ª categoria. Era um baita sombrero sentado numa cadeira de balanço.
– Buenas tardes, falei.
Vagarosamente, o sombrero foi levantando e só vi um bigodon daqueles mexendo!!!
– Hombre, o que queres?
Perguntei se ele sabia onde ficava um surfcamp no Rio Nexpa. Só ouvi um grunhido.
– Nonnnnmmmm

Eu não sabia o que era ou como era esse lugar, só sabia que tinha altas ondas, e pra que mais, né?
Ele começou a falar e eu não entendia porra nenhuma, mais parecia um dialeto maia, HTML ou Java Script avançado, sei lá que língua era aquela!
Só no finzinho entendi que eu tinha que pegar uma estradinha bem em frente das minhas tralhas.
Rapidinho eu disse:
– Muchas gracias, señor!!!
E que calor!!! Atravessei a estrada correndo, uma estradinha linda de pedra escondida no meio das árvores.
Fiquei ali numa sombrinha esperando alguma viva alma passar. Não demorou muito e passou um caminhonete que eu parei ? eram uns americanos. Perguntei se eles tinham um celular. Que nada, não tinha, tuuuuudubem!!! Muchas gracias!

De repente, é verdade, eu juro, pára um Chrysler Stratus prateado e abre o vidro bem devagar. Tudo naquele momento estava em câmera lenta, acho que por causa do calor.
Levantei, olhei pra dentro e? E? Heinnnn?
I don’t believe, eram três brasileiros… e amigos: Micro da Spy, Saulo e Berardi.
Eu sabia que eles estavam por lá, mas encontrá-los daquela maneira foi demais.
Obrigado, meu Deus!!!
Amarramos as pranchas na capota e joguei as malas pra dentro. Um ar-condicionado
me levou de volta aos anos 70, na Guarda do Embaú ou sertãozinho de Camburi
em pleno México.
Quando cheguei ao lugar, mais parecia um sonho. Imagine umas cabanas com teto de palha, uma ponta cheia de coqueiros e quatro linhas de esquerdas à la Chicama, bem maiores e mais que perfeitas, uhhuuuuu!

Não, não acredito, estou sonhando ou é miragem? Estou delirando!
Procurei o Gilberto e nada, só achei a mamacita dele para explicar que eu queria uma cabana, que já estava paga, eu já tinha acertado a minha estadia.
Ela só falava que custava 200 pesos por dia e eu tentava explicar que não precisava pagar nada, já estava tudo pago.
A baixinha mexicana começou a ficar nervosa, falava rápido o mesmo HTML que o bigodon do sombrero, e eu não entendia porra nenhuma!
Era ela e um lóki mudo, que só gemia e ainda tinha uma perna de plástico com um pé de madeira, que figura! Eles só acalmaram na hora em que eu coloquei uma nota de 100 doletas na mão dela.
Aí, ela abriu o maior sorriso e viramos superamigos, santo remédio! ?Si, cabana nueve es muy buena?, disse a tia.

E lá fomos nós, eu e o lóki que gemia em espanhol: ?a haaa, aaaaa, a ha ha, haa haaaaahaaa! ?Aí eu respondi: ?Haaa haaaaa!!! Aaaaahaaa!!! OK!!!…. Ha!!!?.
Joguei minhas coisas na cabana e fui procurar a brasileirada que estava naquele paraíso.
Rio Nexpa, que onda é essa? Imagine só, abrir os olhos às 7 horas e ver tudo amarelado.
Um ventinho entra pelas frestas, é a única parte do dia com temperatura respirável. É hora do conferir!
Se liga: sonho. Olho pra esquerda, vejo uma ponta com coqueiros e quatro, cinco, seis linhas paralelas de esquerdas marchando, com uns 6, 7 pés, perfeitas, com vento terral.
Olho pra direita, uma puta lua cheia se põe no mar. Ninguém à vista, nenhuma alma viva!

É pegar a prancha e cair sozinho, alucinado, gritando:
– Caramba, faz uma hora que o Micro e eu estamos aqui. Peguei baváaaaarias.
Não passei nem protetor solar, nem comi nada de tão alucinante que estava o mar.
Hora de sair. Essa bateria foi só para acordar. Bom dia!
Agora, bem alimentado, a prancha com parafina e protetor 30 à prova d´água, porque ali o sol pega forte. Já havia uns cinco ou seis caras no pico e todo dia era a mesma história.
A diferença era que um dia rodava aqui, outro ali, ou juntava mais uma seção, água marrom do rio ou azul. Cara, cada dia mais alucinante do que o outro.
Que onda é essa? Meu número.

Olha só esta onda, um quarteirão de onda! Dropão gostoso em pé, você olha aquele muro, manda uma bufa nela, manda outra e mais outra, cutzão clássico em pé, colocou no trilho com toda a calma, que onda amiga, carinhosa, gostosa.
Aí, ela fica em pezona de novo. Pode esperar que vai rodar gostoso e é só passar por dentro do sombrero.
Lá dentro… lá dentro… saiu! Você acha que acabou? Que nada! Tudo de novo: bufa nela! E outra e mais outra, ufa! Chega que já ficou longe, e pra voltar de lá a correnteza és fueda.
Aí, você volta urrando, cantando e agradecendo a Deus por estar ali, vendo a moçada no playcenter mexicano! Passaporte da alegria. Voltando pro pico e só assistindo, olha o Saulo, olha o Doctor, olha ali, olha aqui, que máquina de onda é essa?
Dentro d?água, Saulão me pergunta:

– Cara, você não ia ficar mais em Puerto?
– Putz, Puerto estava um crowd só. Era só espuma na água, teria um festival internacional de bodyboard, frescobol, rock?n?roll e comedores de pimenta. Sem chance!
A milhão na Carreteira 200
Um dia… dois dias… três… quatro… um dia melhor que o outro.
– Quem vai até Pasqualles? pergunta o Micro, vulgo Ronald Spy.
E lá fomos nós. Micrão pé de chumbo no tocante do Jetta, o nosso brasileiro Bora,
várias cervas e o arzão gelado no último, com um sol de rachar o coco e um
som, uma tecnera nada a ver com aquilo tudo, que ia e voltava sem parar no
toca-fitas.
O exército estava em peso nas várias barreiras na estrada… e acelera Airton.
De repente, pouco antes de Las Ticlas, a gente passa pelos federales a uns 150 km/h. Ziiiummmm!

Só vimos as cabecinhas dos guardinhas virarem ao mesmo tempo. Xiiii, fudeu, disse Saulo. Os caras virão atrás. Fácil, toca jogar a garrafa pra fora.
Dito e feito. Não deu três segundos e uó, uó, uó, uó!
– Señor condutor, favor encostar em la carretera!
A voz veio do megafone da barca federale tipicamente americana, com câmera de vídeo na frente e tudo mais.
Fomos descer e lá veio o megafone de novo:
– Só lo condutor! Só lo condutor!
Desce o Micro com toda a sua simpatia e papo vem papo vai, o federal chama Micro lá pra traz e mais papo. Um já experimenta o óculos do outro.

Chega o Micro no carro e manda:
– O cara quer uma grana! Quanto vai?
Bem, morremos com 600 pesos! Lá foram 60 doletas. Vambora! Las Ticlas é uma onda bem parecida com Nexpa, só que pra direita, muito, muito boa.
Chegamos meio tarde e já estava um vento maral. Então, pegamos mais umas cervas e pé na estrada.
Chegamos em Pascuales e ficamos num hotel em frente ao pico, único da cidade com ar-condicionado, disse o dono, uma bichana gordinha. Saulo e Micro ficaram num quarto e os dois Fernandos no outro. Mas, não deu outra: meia-noite acabou a luz. Pqp, um calor infernal.
No meio da madruga, um barulhão de corre-corre, neguinho gritando! Os caras estavam dentro do quarto, mexendo nas coisas do Micro.

Agora, imagine a cena: Micro, com quase 2 metros de altura, pelado em cima da cama,
urrando com dois mexicaninhos. Não deu outra, os caras saíram correndo e pularam
de cima do telhado e tchau, um puta sururu mexicano no meio da madruga.
De manhã, Pascuales quebrava lindamente. Este é um beach break quebradeira de pranchas a la Puerto Escondido. Esta onda é demais, mas o lugar é bad trip e tem um localismo nojento.
Voltamos para Nexpa e até o fim da viagem foi um dia melhor que o outro! Essa trip foi de sonho!
Rodovia La Carretera 200 (35 dias de Puerto até Pascuales)
Puerto Escondido – Beach break
Chacahua- Beach break, right point
Tepextla – Beach break
Punta Maldonado – Reef e beach break
Punta Colorada – Beach break
Pinitas – Beach break

Marquella – Beach break, right point
Punta Acamama – Reef breaks
Playa Ventura – Reef e breach break
Las Animas – Beach break
Copa Cabana – Beach break
Tetitlan – Beach break
Tenexpa – Beach break
Costa Sol – Beach break, right point
Pompanoa – Reef e breach break
Joluchuca – Reef e breach break
Petatian – Beach break
Vila Bonita – Reef e beach break
Zihuatenejo – Reef e beach break
Ixtapa – Reef e beach break
Isla Grande – Reef e beach break
Barrio Nuevo – Beach break
Troncones – Beach break, left point
Pantia – Beach break, left point
Lazaro de Cardenas – Beach break
Playa Azul – Beach break
Rio Nexpa – Reef e breach break
Tixtla – Beach break
Lolas?s Left – Reef break
Las Ticlas – Reef e beach break
La Placita – Beach break
Punta Cabeza Negra – Beach break
Boca de Apiza – Beach break
Pascuales – Beach break