
Pouco se fala sobre o surfe latino americano e dos países da América do Sul em geral, porém, a região é destino de diversos surfistas do mundo todo devido a grande quantidade e qualidade das ondas nos picos locais.
Para começar a compensar essa deficiência, Waves.Terra traz como novo colunista o surfista uruguaio Pablo Zanocchi, ex-colaborador da única revista de surfe de seu país – Mareas.
Zanocchi é natural de Montevidéo, mas lapidou sua carreira de surfista nas ondas de Punta del Este, distante cerca de 130 quilômetros da capital. Competiu tanto em eventos locais como internacionais, o que o levou a conhecer melhor o surfe nos países vizinhos.
E foi assim, surfando em mares e sites vizinhos que Zanocchi chegou no Waves, onde irá escrever sobre os acontecimentos do mundo do surfe nos países da América do Sul com a coluna ‘América do Surf’. Seja bem-vindo, hermanito!
O continente sul-americano é muito especial: está cheio de belezas naturais e gente humilde e trabalhadora, que têm de remar contra a forte corrente que significa ser um cidadão do terceiro mundo. E assim são os surfistas desta terra.
A chegada do surfe nos países da América do Sul marcou época. Nossa sociedade era extremamente conservadora e pautada. Os jovens jogavam futebol para se divertir e estudavam ou trabalhavam para viver. Um indivíduo com cabelo oxigenado que vivia na praia deslizando nas ondas era visto com um andróide.

Com o tempo as coisas mudaram e, como no resto do mundo, nossos jovens perceberam a magia do surfe, enfrentaram a sociedade antiquada e encontraram e criaram um mundo novo no continente.
Peru, o país com maior tradição no esporte da América do Sul – sendo inclusive apontado por alguns como o berço do surfe no mundo – realizou o Primeiro Campeonato Mundial Oficial da história, vencido pelo único campeão mundial latino-americano, a estrela peruana Felipe Pomar, que naquele tempo estava à altura dos melhores do mundo, como Midget Farrelly, Nat Young, David Nuuhiwa, Corky Carroll, etc.
Apesar das boas perspectivas para o surfe peruano e latino, uma série de ditaduras militares em todos os países do continente engessou essa evolução, se tornando uma grande pedra no caminho de qualquer livre pensador e, conseqüentemente, de qualquer surfista.
No Uruguai e Argentina, por exemplo, se a prefeitura naval via surfistas, tiravam de dentro d’água e os levavam presos por algumas horas. O panorama era negro e sombrio, não havia lugar para nós num palco onde os milicos estavam à espreita.
O oceano, com sua imensa paz, circundava um continente que vivia um episódio oposto. A época propiciou uma emigração em massa. Entre tantos viajantes havia surfistas à procura de um lugar onde pudessem deslizar ondas sem pagar por isso.
Como já dizia o ditado, o que não mata fortalece, e depois das épocas obscuras, a liberdade oferecida pelo mar foi procurada como uma fuga à mediocridade do mundo. Dessa forma o surf ganhou mais adeptos, que procuravam a essência deste magnífico esporte: sentir-se vivos.
Foi assim que, no final da década de 80, o surf começou a crescer novamente. No Peru nasceu Magoo de la Rosa, um atleta com estilo fluido e poderoso, digno de respeito internacional. Na Argentina, um surfista chamado Leo Garcia surfava com muita velocidade em pranchas muito pequenas.

Pouco depois, apareceu na Venezuela Peter Rangel, um surfista agressivo e inovador, que conquistou várias vitórias locais e internacionais. Além disso, a consciência de que o Brasil estava chegando ao topo era sentida e nos motivava a continuar evoluindo.
Estes são alguns dos surfistas que estabeleceram as bases para que nascessem as novas gerações. A peruana Sofia Mulanovich seguiu os passos de Felipe Pomar e vai lutar este ano para ser a número um do mundo no WCT feminino.
Também temos diversos surfistas em todos os países da América do Sul. No Chile, Ramón Navarro surfa esquerdas enormes facilmente e as domina. Meses atrás, durante um campeonato em seu pico local, Punta Lobos, ele pegou um enorme tubo numa onda monstruosa de 12 a 15 pés.
No Peru, os juniores Matias Mulanovich e Javier Swayne são jovens e excelentes surfistas. Este último ficou na quinta colocação na categoria Junior no World Surfing Games de 2000. Na Argentina, a garra e o excelente surf de Martín Passeri levou-o a ficar em quarto lugar no Campeonato Pan-americano de Surf de Mar del Plata em 99 e ficou entre os 150 primeiros do WQS do mesmo ano.
No Uruguai nasceu Luis Maria Iturria, um surfista formidável que foi destaque na última edição do Australia´s Surfing Life, com uma foto sua dropando e voando uma onda cavernosa de 12 pés na Indonésia. O venezuelano David Díaz está colocando os gringos no bolso nos campeonatos de aéreos feitos nos Estados Unidos.
Mesmo com toda esta evolução, o continente ainda vive dificuldades que impedem um maior desenvolvimento do esporte e de seus atletas. Haverá sempre políticos corruptos e, infelizmente, continuaremos sendo o Terceiro Mundo. E o futebol continuará sendo o principal esporte do continente.
Acredito, porém, que de alguma maneira este panorama faz com que todos nós sejamos mais livres, com o verdadeiro espírito de “soul surfers”. A grande maioria de sul-americanos não procura na onda mais do que a alegria de deslizar sobre ela. Tudo isso mostra que o surf sul-americano está vivo e não descansa.