Guga Arruda

Na contramão do modismo

Iniciando minha análise sobre os anos 80, época em que comecei a surfar, concluo que as pranchas daquele período andavam muito bem. Eram pranchas largas, grossas e com bastante flutuação, que proporcionavam muita velocidade.

 

Porém, nos anos 90, Slater, o menino prodígio do shaper Al Merrick, apareceu na etapa do Bud Pro Tour em Trestles com uma prancha muito estreita, com 17 e tal de meio, e encantou o mundo com a sua performance arrasadora. A partir dali muitos surfistas e até mesmo o próprio mercado do surf começaram a reproduzir aquele conceito de pranchas, para a infelicidade da maioria.

 

Muita gente literalmente deixou de surfar por comprar “a prancha do momento” e não conseguir surfar com ela. Muitos acreditaram que não tinham jeito para o “negócio”. Foi uma pena, tanta gente frustrada por falta de compreensão dos shapers e da indústria, que em vez de pagar o preço de pesquisar e estudar, optou por seguir a nova moda, moda essa lançada pelo surfista mais habilidoso de todos os tempos e que, mesmo com toda a sua habilidade, não usa mais aquele tipo de pranchas.

 

Os melhores surfistas conseguiram se virar bem com pranchas finas e estreitas, principalmente em ondas de qualidade, surfando com rapidez e radicalidade, mas os mais pesados e / ou os que surfavam em ondas com menos qualidade pagaram o preço.

 

Naturalmente, em menos de uma década os surfistas e shapers perceberam o grande erro e buscaram compensar com pranchas realmente volumosas, como as fishes, pigs e evolutions. Porém, como de costume, passaram do ponto, com bicos e rabetas largas ao ponto de limitar a performance.

 

Ainda em 99 comecei a trabalhar em um design largo no meio (19 polegadas), porém mais estreito de bico (11 polegadas) e com três wings, influência dos saudosos amigos e mestres do shape Fernado Sheena e João Maynart. Esses wings reduzem drasticamente o tamanho da rabeta, sendo assim nasceu uma 6’0”, com borda de 2 ½ polegadas. Larga, porém com bastante curva de outline e de fundo.

 

Depois de muitos testes cheguei na configuração de quilhas ideal para tri e quad e fiz o molde para poder reproduzi-la no método Powerlight. O primeiro teste foi na Indonésia, em ondas bem cavadas, depois na Bahia, em ondas menores, e por fim na Califórnia, em ondas fáceis de surfar.

 

Ninguém precisa ficar durão na onda para ter uma boa remada e nem atolado na remada pra surfar bem, mas precisamos assumir a responsabilidade de pagar o preço de estudo e pesquisa e ir além dos modismos.

 

Foto de capa Reprodução

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