Por ter água quente e terral praticamente o ano todo, escolhi passar minhas merecidas férias de 15 dias na Nicarágua.
Além de contar com swell de Sul constante, ainda existia a possibilidade de pegar uma onda pouco explorada por bodyboarders, a onda de Popoyo Outer Reef, esquerda que lembra Pipeline em seus dias maiores.
No dia 9 de julho, embarquei para 17 longas horas de voo. Com várias conexões e mais três horas de estrada, cheguei completamente moído ao país.
Tinha olhado a previsão e sabia que nos três primeiros dias de viagem teriam ondas de 1,5 a 2 metros com direção muito boa.
A primeira praia que conheci foi Rosada, uma esquerda com fundo de pedra super rasa. Surfei com mais três pessoas, por coincidência todos brasileiros. Esta onda abre muito e rende bons tubos, mas infelizmente soubemos que um surfista brasileiro tomou 15 pontos no pé e outro americano ralou o braço neste pico.
Depois o mar baixou por uns quatro dias, mas mesmo assim dava para brincar. A força das ondas e os tubos, mesmo pequenos, proporcionavam um bom treino para a grande ondulação que estava a caminho.
Viajar sozinho e sem carro até que tem suas vantagens. Conheci muita gente de outros países e fui a lugares inusitados. Em uma destas aventuras, fui de carona com dois surfistas de Nova Iorque verificar Popoyo. Era a primeira vez que veria a onda mais famosa da região.
No meio do caminho, fomos parados pela policia e o motorista estava sem a carteira de habilitação. Só depois de muita conversa e com o jeitinho brasileiro é que resolvemos a situação.
Apesar de ser muito forte e perfeita, Popoyo Point não é uma onda ideal para o bodyboard. Os dois dias que surfei por lá não renderam tubos e nem rampas para decolar, mas foi um bom treino para 360º e invertidos.
Depois de uma hora, saí do mar e avistei quatro bodyboarders porto-riquenhos, os primeiros que vi na trip. Eles caminharam em minha direção e perguntaram se eu estava esperando a maré encher. Foi quando me dei conta do que estava acontecendo, o Outer Reef estava bem em frente, ao lado esquerdo do canal de Popoyo. Saímos em disparada pelo canal.
Com mais de 20 minutos de remada, chegamos ao canal. As ondas estavam com 2,5 metros com um volume de água entrando e uma força e velocidade absurda. Mas a formação não era das melhores, havia uma sessão de tubo muito longa e o caminho era só por dentro, fazendo uma loteria perigosa a decisão de descer ou não.
Depois de algumas tentativas, veio uma série que parecia boa. Remei na primeira, mas desisti quando vi que era impossível passar. Um dos gringos pegou a segunda e não conseguiu passar a seção, foi tragado para os corais e tomou mais quatro ondas na cabeça.
Fomos em sua direção para ajudar, felizmente ele conseguiu sair rápido da zona de impacto. Ofegante, o gringo só falou: “It’s Impossible” (está impossível), exibindo um sorriso no rosto e um pouco de sangue na perna.
Outra onda da Nicarágua que merece destaque é Colorados, que me lembrou muito Maresias. Fundo de areia e ondas tubulares com uma perfeição impressionante. Esta onda é umas das mais procuradas e lotadas da Nicarágua. Não se iluda com sites ou fotos dizendo que há pouca gente.
Como de costume, eu era o único bodyboarder na água, mas o respeito era tranquilo entre os surfistas. Infelizmente alguns brasileiros não tiveram etiqueta e rabearam alguns na cara dura, incluindo eu, gerando uma insatisfação dos locais e gringos. Fora o contratempo, peguei altas ondas em Colorados, rendendo excelentes tubos.
No começo da segunda semana, bem mais habituado ao país, o mar deu uma leve reagida confirmando as previsões. Caminhei sozinho para Rosada e encontrei boas ondas sem ninguém na água, o motivo era visível, pedras afiadas por todo lado.
Estava voltando para Santana quando escuto um grito. Olhei e vi um surfista andando pelas pedras mais ao Sul de Rosada. Era um americano que já havia visto em alguns dias e surfava muito bem. Ele me disse que estava indo conferir um outro pico, o segui até lá.
Depois de uns cinco minutos andando nas pedras, avistei direitas de 1 metro tubulares e perfeitas, ao melhor estilo Indonésia.
Tenho que agradecer o gringo, me ajudou com tudo. Por onde entrar, onde ficar e quais ondas da série pegar. Foram tubos com profundidade de aproximadamente meio metro, o pé de pato raspava os corais. Estes momentos não foram registrados, mas vão ficar na memória o resto da minha vida. No final da session ainda ganhei um corte no pé de presente. A subida da maré pôs fim na sessão.
Conheci alguns surfistas de Joinville (SC) que me acolheram depois da minha estadia ter vencido. Agradeço a eles pelas fotos. Foram mais alguns dias em Colorados e em Panga Drops, um fundo de pedra ao Norte de Colorados.
Aliás, esta onda engana muito, dizem que é gorda, mas é só no drop. Depois o negócio fica bom. E lá está sempre maior que os outros lugares.
Programamos uma saída de barco, pois o swell havia entrado definitivamente. Era a oportunidade de conhecer outros picos mais ao Norte do país.
Iria embora na manhã do dia 23 e o dia 22 foi escolhido para a saida, quando era certeza de ondas boas. Seis horas da manhã e estávamos prontos para partir. O sol forte logo pela manhã já anunciava mais um dia de calor.
Com 15 minutos de barco, passamos por Lancys Left. O nome não é mera coincidência com o pico da Mentawaii, pelo que vi em fotos, mas o reef estava muito torto. Rumamos então mais para o Norte, em uma praia que os locais chamam de Vera Cruz.
Chegando lá, dois barcos já estavam no local, mas o crowd era apenas de cinco pessoas. Estávamos em seis e fomos entrando aos poucos para respeitar os locais. Eram ondas perfeitas, com terral em um fundo de pedra dando condições para muitas manobras: ARS, aéreos e tubos.
Depois de quatro horas e meia de muito surf, voltamos para o barco e retornamos à Santana para almoçar.
Depois do almoço, peguei o carro para checar o pico Quando cheguei, vi que o negócio não estava para brincadeira. Mesmo morto, voltei voando para a casa e avisei o pessoal que logo se animou.
Havia somente umas dez pessoas na água e muita gente na areia, pensando se entrava ou desistia. Do grupo, só entrou eu e mais três pessoas. Tomamos logo de cara uma série monstro na cabeça. Depois do tranco passamos na boa, viva a calmaria!
Minha primeira onda foi uma esquerda que abriu bem para os padrões do dia. Decolei muito em um aéreo, acho que o melhor da viagem, aterrissei já no flat detonando de vez meu ombro, já destruído. Voltei com dores, mas instigado. Outra série me pegou de jeito e, mesmo cansado, consegui varar e pegar mais algumas ondas e até um bom tubo para a direita.
Sai em estado de êxtase por ter tido o último dia da viagem com quase oito horas de puro surf, levando muitas lembranças, histórias e amigos de volta.
Vale ressaltar que, dos 15 dias de surf, todos foram de sol e terral. Só por apenas algumas horas o vento ficou maral, e em apenas um dia.












