Mariana Nogueira

Multicampeã do bodyboard

Grande ícone do bodyboard feminino, Mariana Nogueira Lima é inspiração até hoje para muitas meninas que praticam o esporte.

Com um estilo fluido e agressivo, a carioca dominou o cenário mundial do esporte nos anos 80 e 90 e sagrou-se tricampeã mundial, pentacampeã brasileira e hexacampeã estadual carioca.

Hoje empresária, mãe de duas filhas e casada com o surfista Rodolfo Lima, Mariana não deixa de pegar suas ondas com frequência.

Na entrevista abaixo, a bodyboarder fala sobre o início da carreira, competições, rotina, família, polêmicas no circuito mundial e muito mais.

Como foi o seu início no bodyboard?
 
Em janeiro de 85, minha irmã pediu uma “morey boogie” para o meu pai. Ele comprou uma 139. Em março comecei a pegar umas ondinhas com a prancha dela. Em seguida, ela ganhou uma Mach 7.7 e eu fiquei com a 139. Usei a prancha até ela não ter mais flutuação. Eu roubava a prancha dela e o pé-de-pato, que naquela época era o orca, um preto de mergulho, enorme.
 
Como surgiu seu espírito de competidora?
 
Eu e a minha irmã pegávamos onda no meio da Barra da Tijuca e um dia teve um campeonato da Amberj. O Miguel Moya e o Xandinho viram minha irmã dando vários 360 e as meninas naquela época não conseguiam dar com tanta facilidade. Logo depois eles me chamaram para fazer parte da equipe da Redley. Eu fui a primeira patrocinada da Redley, antes mesmo de abrirem a primeira loja. Ainda em 85, eu competi meu primeiro campeonato em Ipanema. Fiquei em 3º lugar. Também lembro quando o Miguel levou o primeiro pé-de-pato Redley para mim e minha irmã, no dia do aniversário dela.
 
Hoje existe muita rivalidade entre bodyboarders e surfistas. Como era a relação entre as tribos?
 
Eu sempre convivi com surfistas, então sempre senti que ser bodyboarder é o mesmo que ser surfista. A história dos dois se mistura e a convivência entre surf e bodyboard sempre foi e continua e muito grande. Pessoalmente eu admiro muito o surf. Não acho que exista rivalidade entre as tribos. Pelo menos entre as pessoas com quem eu convivo existe respeito e admiração. O que o surf conseguiu até hoje é fruto de um trabalho sério e focado no futuro. Acho que o bodyboard deve tomar como exemplo a organização das entidades do surf. Talvez o bodyboard tenha pulado etapas cruciais para o amadurecimento do esporte.
 
Em relação à união dos atletas eu acho que a união deve ser em prol do esporte, independente da divergência de opiniões os atletas devem sempre se lembrar que a categoria unida e organizada, sempre será forte. Era exatamente isso que nos fez conseguir tudo que conseguimos durante os anos 80 e 90. A união dos atletas visando o futuro dos atletas. Naquela época, nós tínhamos o poder de parar um campeonato se achássemos que era necessário, mas sem amadorismo, com muita certeza do que estávamos fazendo. Sempre queremos ser justos, corretos e profissionais. Nós éramos muito novos e muito amigos. Crescemos junto com o esporte. Tenho muito orgulho disso.
 
Onde vocês conheciam a evolução, estilos e novas manobras do esporte? Como você analisa os dias de hoje em relação a isso?
 
Quando eu comecei a pegar onda eu só tinha a minha irmã e os surfistas para olhar, então sempre me baseei na linha de onda dos surfistas e devo muito a eles. Eu também tive a oportunidade de começar a competir cedo e naquela época tinham campeonatos quase todo fim de semana. Eu ia para quase todas as finais contra a minha irmã e a competitividade entre as meninas era muito grande. Acho que isso também me fez evoluir muito. Também tinha o programa Realce, do Bocão e do Antônio Ricardo, onde tínhamos a oportunidade de ver alguns vídeos com o Mike Stewart e Bem Severson.
 
Hoje em dia não se vê campeonatos com tanta frequência, ainda mais para iniciantes. O Edmar, da Associação de Bodyboarding de Ipanema, fez um trabalho muito bom que deveria ter continuidade. Temos um grande acervo de imagens que são compartilhadas pela internet, além de filmes feitos especialmente para o público do bodyboard. Hoje também temos os campeonatos da IBA (International Bodyboarding Association), transmitidos ao vivo pela internet.
 
Você ainda mantém uma rotina de treinos? Qual a frequência que cai na água?
 
Eu não treino mais, apenas pego onda. Não vivo sem isso. Faz parte da minha alma. Sempre que tem onda estou no mar. Moro perto da Prainha e do Secreto, mas eu prefiro cair na Prainha, porque levo minhas filhas para praia e posso revezar com meu marido.
 
É preciso ter jogo de cintura para conciliar a família e as paixões. Como você lida com isso?
 
Graças a Deus eu fiz a escolha certa de casar com uma pessoa que ama pegar onda tanto quanto eu. Em 2000, resolvemos dar um tempo aqui do Brasil e viajamos durante um ano para pegar onda. A Mariah, minha filha mais velha, tinha seis meses e viajamos para o Hawaii e Indonésia.
 
Hoje em dia, minha filha mais velha está com 12 anos e pega onda. A menor vai fazer quatro. As duas adoram ir à praia. É fácil conciliar, mas não viajo mais com tanta frequência.
 
Você revolucionou o surf feminino com seu estilo radical e fluido. Foi a atleta brasileira que mais marcou o esporte até hoje. Ao olhar tudo isso, você acha que não conseguiu realizar algo que queria? Se sim, por quê?
 
Fico muito feliz de saber que fiz a minha parte, mas gostaria de ter competido o circuito mundial por mais tempo. Quando parei, era campeã mundial pela terceira vez. Na época estava satisfeita com que tinha feito e estava meio cansada e desmotivada. Ainda rolou a crise na Ásia e refletiu muito aqui no Brasil. Meus patrocinadores da época eram a BZ, Kpaloa e a Rash, uma empresa japonesa. Sempre tive muito apoio da BZ e graças a eles consegui competir no circuito de 98. Foi muito estressante a parte financeira e me garanti porque ganhei bastante dinheiro com a premiação dos campeonatos do circuito mundial.
 
Em 98 descobri que estava grávida durante a penúltima etapa do mundial na Barra e desisti de competir a etapa em Pipeline. Mesmo assim fui campeã mundial neste ano. Minha cabeça ficou voltada somente para gravidez. Quando ela nasceu, eu ainda competi a etapa do mundial no Rio e em Pipe, mas não estava motivada suficiente para continuar nas competições.
 
Mas o principal fator da minha desmotivação foi sem dúvida o julgamento do circuito mundial. Eu achava um absurdo que o chefe dos juízes fosse ao mesmo tempo técnico e advogado de uma atleta. Isso não é bom para imagem do esporte e muito menos para as outras atletas.
 
Como você lida com o fato de ser um ícone do esporte? Existe algum projeto guardado para executar?
 
Até hoje as pessoas da minha época lembram-se das irmãs Nogueira e eu sei que marcamos muito uma geração. Era bem diferente ver duas irmãs disputando uma final em um esporte novo e tão bonito. A mídia gostava dessa disputa e da rivalidade entre as meninas.
 
Hoje em dia eu gostaria de fazer outro circuito como o campeonato Musas do Bodyboard. Quando eu, minha irmã, Júlio e a Renata Cavalleiro fizemos o primeiro Musas do Bodyboard, nosso maior objetivo era resgatar a categoria feminina e mostrar que era possível fazer campeonatos em que a opinião dos atletas é tão importante quanto o retorno do patrocinador. Tudo era decidido em comum acordo entre a organização e as atletas, e foi um sucesso. O número de atletas foi uma surpresa. Participaram atletas de todo o Brasil, mais de 100 inscritas. Uma das melhores premiações dada em campeonatos femininos. Tínhamos categoria Iniciante, Amadora, Profissional e Master e uma assessoria de imprensa muito boa.
 
Hoje a Isabela Sousa é um fenômeno do bodyboard nacional. Você se sente parte do sucesso das meninas atualmente?
 

Gosto muito de ver a Isabela pegar onda. Ela tem muita garra e vontade de ganhar, isso reflete no seu surf. Ela é muito profissional e carismática. Tive a oportunidade de passar uns dias com ela na pororoca do Maranhão e ela é muito gente boa. Se diverte pegando onda e ama o que faz. Suas manobras são impressionantes, modernas e limpas. É bonito e muito bom de ver. Ela é dessa geração de manobras aéreas e está crescendo junto com o esporte. É natural querer voar, como era natural eu seguir a linha dos surfistas.
 
Todo mundo que fez parte da história do esporte influenciou de alguma forma os atletas das próximas gerações. Não acho que eu tenha influenciado a Isabela diretamente, mas ficaria feliz de saber que deixei algo para essa geração.
 
Sua filha pretende seguir o caminho da mãe? Existe alguma manifestação?
 
A Mariah já está pegando onda e leva jeito. Deixo ela livre para fazer suas escolhas. A melhor coisa de pegar onda é a liberdade que temos de poder escolher, quando e onde vamos surfar. Se eu pudesse viver novamente alguma época da minha vida, com certeza seria quando eu comecei a pegar onda. Só espero que ela continue pegando onda e aproveite tudo de bom que o bodyboard pode proporcionar.
 
Existe algo que queira acrescentar que não perguntei?

 
Quando critico algo, não faço apenas por fazer, mas sim porque quero o melhor para o esporte e seus praticantes. Criticas devem ser vistas como sugestões. Todos que viveram na época de ouro sabem que é possível, mas não depende apenas dos organizadores, mas dos atletas também. A união faz a força. Se os atletas não se unirem, quem vai lutar pelo que é melhor para eles e para o esporte?
 
Fico muito feliz quando me reconhecem na rua, porque vejo que o bodyboard tem um passado que marcou gerações.
 
Tenho muito orgulho de quando me perguntam se ainda pego onda e eu respondo que sim, que não vivo sem isso. Tenho 40 anos e 27 de bodyboard. Peço a Deus que me permita chegar aos 90 pegando altas ondas. Isso é o que desejo para vocês que também amam e não vivem sem o bodyboard.

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