Eu gostaria de começar essa narrativa & bate-papo sobre e com um dos meus ídolos de adolescência, Jeff Hakman, com a transcrição literal de apenas um dos vários e-mails que trocamos, logo após nosso inesperado encontro ao vivo e em cores nas areias brazucas. Esses e-mails dão o tom dessa nova amizade, mas o ritmo e a intensidade, só mesmo tendo à sua frente Mr. Sunset.
Aloha.
Sidão Tenucci.
From: Sidnei Luiz Tenucci <[email protected]>
Date: Wed, 6 Mar 2013 10:50:51 -0300
To: jhakman <[email protected]>
Subject: From Brasil.
Jeff, my friend!
Sidão speaking.
Man, really nice to meet you after…38 years!
I recall the first time I went out in Sunset 10/12 feet – 1975 – and you were out there by yourself, really outside, far from the crowd, more to the left in the lineup, probably waiting for a west peak, so I decided to sit right beside you ´cause I thought would be a wise move. “This guy is Mr. Sunset himself, sure knows everything about this place!”, I thought. When the first wave came, from the west, no less, I looked aside and saw your white surfboard floating empty – you had dived already! – And the monster caught only us. The rest of the people surrounded this lonely peak from the right. Next scene: we had to swim all the way to the shore! I forgot to tell you that one!
How´s the south of Brazil doing?? Hope you are enjoying my book.
Look, after you left I kept thinking about the stories we´ve talking and thought, with your permission, that I could write a very interesting piece on you for TRIP Magazine and for the site www.waves.com.br . What do you say?
See you soon.
Sidão.
De: HAKMAN Jeff [mailto:[email protected]]
Enviada em: sábado, 9 de março de 2013 08:18
Para: Sidnei Luiz Tenucci
Assunto: Re: From Sidão.
Sidao,
How are you my friend? Just down here in Ibiraquera with some people learning about the area. Really nice, but growing up super fast!!!! A lot of rain this week. Go for the article for Trip magazine and site Waves, if you want—no problem!
Enjoyed your hospitality and stories in Brasil!!!!
Aloha,
Jeff
Jeff Hackman (18 de novembro de 1948 – )
CALL ME JEFF
“Call me Jeff”, ele disse de cara. Encontrei o “ex-junkie legend” – como definiu o cineasta Marcos Prado – Jeff Hackman, na praia, apresentado por um amigo em comum, Alfio Lagnado. Embaixo da barraca, protegendo-se do sol infernal, o surfista e Presidente do Conselho da Quiksilver – depois de 40 anos como CEO -, Bob McKnight. Bob, parceiro comercial de primeira hora de Hackman e seu amigo há quarenta anos, estendeu-me a mão para o aperto clássico. Com poucos traços que denunciem seus 64 anos visceralmente vividos, Jeff, longe da terceira idade, estão mais para quem terceirizou a idade. Parece que pelo menos dez anos da sua existência foram entregues para algum incauto menos energizado carregar e metabolizar, enquanto ele simplesmente sorri. Guardou para si aquele sorriso entre o brilhante e o compulsivo.
Sempre entusiasmado, começou a me contar histórias vivas, cheias de furacões coletivos e tsunamis pessoais. Uma estranha e poderosa energia interior sobressaía a cada palavra.
De que outra maneira alguém poderia ter descido ao inferno da heroína por diversas vezes, beijado o próprio Diabo na boca, emergido da experiência para contar qual o sabor dos lábios do coisa ruim, e ainda, sexagenário e cheio de energia e humor, querer vir morar no Brasil e recomeçar a vida mais uma vez?! Fucking amazing.
Para Jeff o surf começou em Palos Verdes, Califórnia. Aos oito anos, levou um caldo traumático que o manteve afastado da água por um ano. Seu pai, Harry, o incentivou a insistir. Jeff tentou outra vez e, na primeira onda boa, o maravilhamento venceu o medo e ele se apaixonou. Esse simples fato viria a determinar o resto da sua vida. Dois anos depois convenceu os pais a se mudarem para o Havaí.
Aos dezoito, na fila de alistamento para a Guerra do Vietnã, com insuspeitado talento, protagonizou um desempenho convincente como homossexual. O show lhe valeu a dispensa do exército.
Em 1969, aos 21 anos, Jeff, já considerado o melhor surfista de competição do mundo, revelou-se, ao mesmo tempo, um dos piores contrabandistas do planeta, e um dos mais sortudos. Foi pego pelos federais com alguns quilos de maconha que ele e seu amigo Buddy Boy Kahoe (Buddy faleceu anos depois de overdose de heroína) enviaram para si próprios, da Tailândia, dentro de caixas de som revestidas de papelão, para o correio de Haleiwa, na Costa Norte da ilha de Oahu, no Havaí. Mas o seu anjo da guarda com asas de sal, que já havia se mostrado extremamente eficiente em incontáveis situações de vida e morte pelos mares do mundo, revelou sua face eclética, e soube também lidar com sutileza com os agentes que estavam de olho em Jeff há algum tempo. Embora sob pressão, acusado e solto sob fiança, ele estava na sua melhor forma, surfando dia e noite para desencanar dos problemas financeiros, pessoais e legais (o surf, sempre o surf: alimento e remédio), quando Brooke Hart, seu advogado, ligou. Preparado para uma péssima notícia, de mandíbulas contraídas, Jeff ouviu, incrédulo: “You´re a free man, Jeff. You walk”. “Você é um homem livre, Jeff”.
Ele havia se safado miraculosamente devido a duas falhas técnicas do DEA ( Departamento de Combate às Drogas norte-americano ): 1) Interceptar o correio e abrir correspondência é ilegal, e, portanto, qualquer prova que emane daí é inadmissível, 2) Os policiais seguraram as evidências tempo demais. Essas ações, pela lei americana, são inconstitucionais, ferem os direitos do suspeito, tornando a denúncia nula. O juiz desqualificou sumariamente as acusações. Se não fosse pelo anjo, por Brooke Hart e por sua incrível estrela do mar, ao invés de contemplar as plantações de cana-de-açúcar embaladas pela brisa que emoldura a paisagem do arquipélago, Jeff poderia estar apreciando outro tipo de cana, essa bem mais amarga.
Dá quase para ver o sorriso de Jeff lá fora, no outside de Sunset, enquanto a série entrava naquela tarde de alívio.
Hoje, nesse dia improvável na praia, o nosso santo bateu de imediato, e ficamos entretidos ao lado da galera, trocando figurinhas coloridas passadas em locais antes remotos, como Bali, Peru e Kauai, onde estávamos na mesma época, surfando e curtindo, mas sem nos conhecer. Desenhei na areia o mapa da Índia e de Sri Lanka, apontando para Arugan Bay, do outro lado da ilha, um surf spot ainda tranquilo, que ele se interessou em experimentar. Disse a ele que, coincidentemente, há menos de um mês atrás, postei na minha coluna do site Waves uma edição de filmes Super-8 telecinados de viagens de surf pelo mundo das décadas de 1970/1980. Na edição ele aparecia em algumas cenas, com uma prancha gun totalmente branca, surfando a praia de Punta Rocas, no Peru. Grande. O seu estilo se destacava, com fortes e precisos botton-turns, projetando linhas longas, traçadas com fluidez e o famoso power difícil de definir, com o centro de gravidade baixo, que os juízes adoravam. O seu amigo Gerry Lopez também foi filmado, facilmente identificável pela elegância única. Isso tudo aconteceu no Campeonato de Tabla Havaiana de 1972, que Jeff, by all means, venceu. Nomes de surfistas peruanos pioneiros da época foram pipocando entre nós, como Felipe Pomar, Gordo Barreda, Chino Malpartida e Fernán Ortíz de Zeballos. A noção de hospitalidade de alguns dos peruanos e alguns dos brasileiros com os surfistas havaianos, californianos e australianos passava pelo fornecimento de presentes psicodélicos, elementos da produção agrícola nativa e da indústria de transformação local. Cocaína mesmo. E maconha. Jeff foi fundo. Esse costume cimentou amizades e diluiu vidas.
Inevitável e indissociável: nos anos 1960/1970 o surf-style era não só precursor, mas também parte carne e parte sangue da contracultura.
(continua)
Sidney Luiz Tenucci Jr, o Sidão, foi o criador da OP Ocean Pacific no Brasil. É colunista do site Waves há 10 anos. Viajou 55 países esbarrando em todo tipo de onda marcante e de figura carimbada. É autor dos livros Almaquatica (Ed. Terra Virgem), O Surfista Peregrino e Poentes de Amor (Ed. Decor). Lança em breve “Os Sete Chakras Geográficos”, pela Editora NeoAnima.