
Durante muito tempo eu achei que era apenas uma questão de surf, que entraria no mar, pegaria minhas ondas e a imprensa registraria tudo com total imparcialidade.
Não, que isso fosse importante para mim, pois o surf por si só está acima de tudo.
Eu sou, sempre fui e sempre serei um surfista de alma e não me importo se vai ter fotógrafo ou câmera filmando para ter que aparecer na TV.
Apesar da pressão do patrocinador, não consigo ser diferente. Mas, fiquei triste ao ver o material sobre o Big Swell em Jaws da última quarta-feira, que passa longe do que realmente aconteceu.

Resolvi então escrever algumas linhas para complementar o que já foi dito, contar fatos omitidos e expor aos leitores tudo o que aconteceu.
Jaws não é mais um lugar em que surfistas estão a procura do prazer de surfar ondas gigantes.
O pico se transformou num palco, ou melhor, num circo em que milhares de jet-skis, barcos, helicópteros, máquinas de fotografar, de filmar e surfistas leigos e despreparados, sem a mínima noção do que é uma onda de 20 pés, estão disputando seu lugar na fama com ajuda de um jet-ski para surfar ondas de 60 pés.
Um dia antes do swell, rolou uma reunião para tentar organizar o crowd. Estavam presentes surfistas locais, californianos, havaianos de outras ilhas e apenas dois brasileiros, os baianos Yuri Soledade e Alfredo Villas-Boas.
O motivo da reunião era o fato de os locais estarem irritados com iniciantes brasileiros e europeus que só chegam em bando e tumultuam o pico. E ficou praticamente resolvido que os locais vão começar a se impor, como acontece em lugares como Pipeline.
Luzes, câmera, ação!! No outro dia, Jaws quebrou gigante e pudemos ver que o mesmos caras que estavam reclamando dos brasileiros eram os mais agressivos dentro d’água e pilotavam como loucos. Até Laird Hamilton entrava em todas as ondas que queria sem se importar se já tinha alguém nela.
Buzzy Kerbox atropelou Kaleo Robinson, que precisou ser resgatado por um helicóptero. Várias vezes eu fiquei parado no canal com o Danilo Couto, assistindo toda aquela loucura. Vimos várias pranchas quebradas, dois jet-skis irem parar nas pedras e alguns surfistas machucados, que completavam o cenário.
Para mim Jaws é uma onda perigosa, além de ser um local sagrado. Qualquer um que queira surfá-la deve no mínimo ter experiência em ondas grandes e intimidade com o tow-in.
Surfar Sunset 12-15 pés e Waimea 18-20 seriam bons pré-requisitos. Mas, deveria também praticar muito tow-in em ondas pequenas e médias para não chegar em Jaws despreparado e colocar em risco os equipamentos e a própria vida, além de outras pessoas.
A cada ano aumenta o número de pessoas e jet-skis em busca de fotos e fama. E isso torna mais difícil a convivência pacífica com os locais. Peço mais consciência a todos aqueles que querem surfar Jaws, que respeitem para serem respeitados, mas respeitem principalmente seus limites.