Cláudia Gonçalves é uma garota atípica no surf brasileiro. Única patrocinada no país por uma matriz internacional, no caso dela a gigante Oakley, a atleta viajou nos últimos anos em busca das melhores ondas e trabalhou como modelo para a marca.

 

Aos 20 anos, ama competir e executa como poucas a arte de entubar. Enquanto domina esses fáceis “dilemas”, planeja fazer uma faculdade para no futuro ingressar no mundo televisivo.

 

Namorada da maior promessa nacional no momento, Adriano de Souza, o “Mineirinho”, diz que não tem ciúmes, mas que as mulheres o atacam sem piedade.

 

Claudinha diz que não posaria para a revista Playboy no momento e ficou em cima do muro quando indagada sobre o homossexualismo no surf feminino. Abaixo a íntegra da entrevista.

 

 

Você é a única surfista brasileira patrocinada por uma marca internacional?

 

Sim.

 

Como foi a negociação?

 

O Luiz Henrique Sabóia, o Pinga, é meu empresário. Ele é gerente de esporte/marketing da Oakley e já trabalha comigo ha seis anos. Eu estava na Billabong há três anos, mas meu contrato iria vencer no final do ano e ele mandou meu currículo também para o exterior e a negociação foi mais interessante do que a anterior. Meu contrato é de três anos e estou já no segundo ano. Eu conheço a fábrica e todos que trabalham lá fora.

 

Você também faz viagens a pedido da matriz?

 

Sempre. Todas as viagens que eu faço são programadas em ação conjunta. Eu sou utilizada na campanha internacional também. Fui para o Hawaii (duas temporadas), Fernando de Noronha e agora Florianópolis. Em todas essas viagens eu fiz fotos para catálogo e publicidade. Nessa trip no Sul eu e uma americana fomos fotografadas. No meio do ano eu vou para a Califórnia atuar somente como modelo/atleta.

 

Todos sabem que existe um problema entre as meninas que não podem desenvolver esse tipo de trabalho como modelo, mas são excelentes surfistas e não conseguem patrocínio. Como você isso?

 

Muito mais do que os homens. Os homens não sofrem esse “preconceito”. Esse lance da beleza influencia bastante, quando a marca te contrata você acaba virando um “cabide ambulante”. De certa maneira você estará vendendo o produto na praia e em todos os lugares que esteja. Outro ponto a ser analisado é que patrocinando uma mulher bonita eles não precisam gastar com modelos e outras surfistas.

 

A atual campeã mundial, a peruana Sofia Mulanovich, declarou que no exterior as empresas também andaram as “bonitinhas” para Mentawaii, mas quem ganhou o tour foi ela. Parece que é um problema mundial.

 

Pelo comentário dela essa é a realidade. Mas, as “menos bonitinhas”, porém boas surfistas, são apoiadas, ao contrário do que ocorre aqui no Brasil.

 

Apesar de não ser injustiçada, você defende as atletas que sofrem com isso.

 

Eu sou muito feliz e não tenho nada a reclamar. Mas simplesmente não consigo ficar quieta vendo tanta injustiça. Pouquíssimas atletas vivem a minha realidade, isso me incomoda. A Thaís de Almeida, Suelen Naraísa e Silvana Lima são meninas com potencial forte para representar o Brasil no WQS e quem sabe no WCT, mas ficam aqui por falta de apoio. Nosso país tem somente duas representantes no WCT, a Tita e a Jacque, sendo que a nova geração não está tendo o apoio necessário para chegar junto. É muito triste isso.

 

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Você participa do SuperSurf, faz viagens de free-surf associadas ao trabalho de modelo/surfista, mas não pretende correr o WQS? Parece que você gosta mesmo é de surfar ondas boas.

 

Eu entrei na Oakley ano passado. Eu e o Pinga sentamos e conversamos o que seria melhor para minha carreira. Colocamos na mesa se seria melhor eu entrar de cabeça no WQS ou viajar e aprender a surfar ondas de qualidade. Decidimos que seria melhor a evolução do surf e no próximo ano devo participar de algumas etapas do WQS. Este ano ainda vou tentar correr o seis estrelas em Huntigton Beach, Califórnia. Vai ser bom eu participar desses eventos para saber a realidade do meu nível de surf ao lado das atletas estrangeiras.

 

Pelas suas fotos que você possui um talento natural para os tubos. Como é isso?

 

Eu gosto de entubar. Quando fui pela primeira vez para Noronha, fiquei super feliz em poder pegar tantos tubos. Notei que gosto mesmo de onda mais forte e tubular. Agora, nas últimas duas temporadas havaianas, peguei mais intimidade com os tubinhos e essa história está sendo boa.

 

Mesmo sem querer, você abriu uma nova possibilidade no surf feminino: surfar altas ondas e fazer um trabalho como modelo. Isso é bom para você e para os patrocinadores, mas parece que você realmente gosta de competir.

 

Com certeza. Se eu pudesse escolher, seria só free-surfer no futuro. Mas, agora eu tenho um sonho que é participar do WCT. Vamos ver. Não estou muito focada no SuperSurf como deveria por ter faltado em algumas etapas para viajar. Perdi a primeira etapa por estar no Hawaii, a seguinte porque estava na Austrália. Então, por enquanto estou escolhendo esse caminho paralelo. Estudei dois meses na Austrália agora e foi bacana.

 

O seu perfil encaixa bem na TV também, não?

 

Bom, eu quero fazer faculdade de jornalismo no ano que vem e começar a entrar na área.

 

Você é meio nômade e já morou no Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil. Como foram essas experiências?

 

Começa pelo meu pai, que é piloto de avião, e por isso nunca teve uma vida muito acomodada, estávamos cada hora em um lugar. Eu já morei em vários lugares. Hoje meu pai mora no Rio Grande do Sul por ser piloto de avião agrícola e seu último trabalho foi lá. Minha mãe mora em Florianópolis e minha avó no Guarujá, onde moro com ela e meu irmão Ícaro. Eu morei dez anos na praia do Francês, em Alagoas, passei minha infância lá. Quando eu tinha quatro anos minha família foi visitar o local e acabamos todos indo morar lá. Meu pai mandou todos os móveis por caminhão, construiu um hotel e restaurante e fizemos uma vida fixa naquela época. Depois voltei para São Paulo, com 14 anos, e comecei minha carreira no surf. Dos 17 aos 19 fiquei em Florianópolis e agora estou de volta ao Guarujá.

 

Todos surfam na sua família?

 

Até os cachorros pegam onda. Meu pai está meio “barrigudo”, mas ainda pega umas ondinhas. Minha mãe já tentou algumas vezes e dá a maior forca para minha carreira.

 

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E o namoro com o Mineirinho? Ele te influencia no surf também. Como é esse entrosamento?

 

Ele é um cara muito focado e concentrado. Eu tento aprender isso com ele, afinal sou muito agitada e fico muito desconcentrada nas competições. Esse intercâmbio tem me beneficiado também nesse lado. Quando surfamos juntos eu fico babando nas manobras dele e acabo me inspirando.

 

E rola ciúmes? Afinal vocês formam um belo casal.

 

Eu tenho mais ciúmes que ele. O Mineiro é muito tranqüilo. Eu tenho muitos amigos e ele

lida com isso numa boa. Não sou muito ciumenta, na  realidade no Brasil tem muita mulher e elas perderam todas as boas maneiras. Às vezes estou com ele, elas me ignoram e dão em cima. Esse tipo de coisa me irrita. Acredito que isso seja mais em função do nome dele. No começo eu fiquei meio assustada, mas já acostumei.

 

E o futuro?

 

Eu tenho vontade de continuar pegando onda só por prazer mesmo, quando estiver mais velha e tiver outra profissão. Ainda sou nova e tenho um leque de oportunidades para escolher e me dedicar.

 

Existem muitos boatos sobre homossexualismo no surf feminino. Qual sua opinião?

 

Todo esporte tem o masculino e feminino.

 

Mas estou perguntando no surf.

 

Cada um com seus problemas.

 

Você já foi assediada alguma vez?

 

(Risos) Eu estava longe de casa e fui tomar um banho na casa de uma amiga. Quando estava me secando ela começou a me apalpar e pegou na minha bunda. Eu fiquei puta e ela disse “relaxa”, e começou com aqueles assuntos estranhos. Foi estranho, fiquei brava com ela e saí correndo. Foi ruim porque ela saiu pegando, pior que homem.

 

O que faria se a Playboy te convidasse para posar nua?

 

No momento não aceitaria. Estou bem e acho que não faria bem a mim e não é meu estilo. Mas, não afirmo que nunca farei. Acho uma surf trip mais legal (risos).

 

Você é uma excelente surfista, gosta de entubar e pegar ondas grandes. O que acharia de uma viagem para pegar ondas maiores de tow-in com nomes como Layne Beachley ou Rochelle Ballard?

 

Eu penso, mas falta oportunidade e tempo. E ter alguém para puxar o limite.

 

Você acha que o corpo feminino agüenta o caldo?

 

Pôxa, eu acho que o que vale é a mente. Vejo várias caras fraquinhos arrepiando em ondas enormes. Eu não fumo, não bebo, não saio na night e fico três minutos fácil embaixo d’água.

 

Qual sua religião?

 

Sou católica. Agradeço a Deus todo dia pela vida maravilhosa que ele me deu. Família, amigos e namorados que são melhores que eu poderia imaginar.

 

Como você se descreve?

 

É difícil. Eu tenho qualidades e defeitos como qualquer pessoa. Sou engraçada e gosto de ajudar amigos e família, além de ser muito extrovertida.

 

Ficha técnica

 

Idade: 20 anos
Aniversário: 9 de fevereiro
Signo: Aquário
Patrocínios: Oakley e Co-patrocínios de Ricardo Martins, Surf Trip e Rubber Sticky.
Quiver: Três 5’9, 6’2, 6’5, 6’8 e 7’2
Ídolos: Meu irmão Ícaro, Kelly Slater, Joel Parkinson e Rob Machado.
Surf feminino: Chelsea Georgeson, surfei com ela na Austrália e foi show.

 

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