Às 2h46 da madrugada de 11 de março de 2011, uma sexta-feira, um ponto a 32 mil metros de profundidade no Oceano Pacífico tremeu a 130 quilômetros do litoral do Japão e produziu ondas de 10 metros de altura que viajaram a 800 quilômetros por hora até atingir a costa japonesa.
O terremoto de 8,9 graus na escala Richter gerou o tsunami que matou mais de 19 mil pessoas e causou danos inesperados. Um deles afetou a usina nuclear de Fukushima. Há uma semana, a Tokyo Electric Power (TEPCO), operadora da usina, avisou o mundo que toneladas de água radioativa têm vazado diariamente desde o acidente, há mais de dois anos, e podem ter se espalhado pelas correntes do Pacífico.
É aí que a história chega ao universo do surf. Depois da notícia, as preocupações de surfistas do mundo inteiro começaram a aparecer na internet. Estariam as ondas de picos da Califórnia, Tahiti ou Hawaii contaminadas ou prestes a receber doses radioativas?
Na segunda metade de 2011, cerca de quatro meses depois do tsunami, cientistas da Universidade de Standford, em San Diego, encontraram sinais de Césio-137 e Césio-134, substâncias radioativas, nos organismos de atuns que viajaram mais de 9 mil quilômetros entre o Japão e os Estados Unidos, cruzando o Pacífico.
Os níveis encontrados, no entanto, estavam dentro do limite de segurança para o consumo. Em abril de 2012, a emissora norte-americana NBC noticiou que ursos polares do Alaska, focas e leões marinhos da Califórnia haviam sido encontrados com feridas abertas na pele e sem pelos. As doenças eram supostamente causadas pelo contato direto com partículas radioativas.
Embora sites e blogs espalhados pela internet afirmem que todas essas notícias sejam provenientes de um caos radioativo em andamento nas águas do Pacífico, até agora nada foi definitivamente comprovado. O que ficou claro dias atrás foram os vazamentos de água contaminada de tanques de armazenamento da usina de Fukushima – e só.
Cientistas japoneses disseram que a radiação vazou para o oceano e para áreas perto da usina. Segundo a emissora inglesa BBC, uma das amostras continha radioatividade suficiente para matar uma pessoa em quatro horas, caso houvesse contato direto. O governo japonês decidiu cuidar da questão pessoalmente, já que a TEPCO não estava dando conta da tarefa. Essa história aguarda novos capítulos.
Na semana passada, a revista californiana “Surfing” publicou o que eles próprios chamaram de “furo de reportagem”, uma matéria cuja chamada dizia “Não coma peixe, não beba água, não plante um jardim, não vá surfar e, mais importante, não acredite em tudo o que lê”.
O texto defende que o fato de haver perigo radioativo nas ondas do Pacífico não passa de boato e, para sustentar o argumento, traz a relevante opinião do cientista Ken Buesseler, professor do Instituto Woods Hole Oceanographic, de Boston, em Massachusets, que estudou de perto o acidente nuclear da cidade ucraniana de Chernobyl – um dos maiores da história – e, agora, analisa o caso de Fukushima.
Diz Buesseler: “É ótimo haver uma quantidade saudável de preocupação sobre a radioatividade no Pacífico, mas os efeitos de Fukushima em nossa costa foram superestimados. Com certeza existe um nível extremamente alto de radioatividade no local do desastre, mas esse nível abaixa conforme a distância e passa a ser insignificante. Quando você coloca leite em sua xícara de café e começa a mexer, você primeiro vê algumas listras, mas depois tudo se mistura numa só cor. O oceano se comporta de maneira similar. Os isótopos radioativos misturam-se às correntes marítimas, que se movem lentamente, atravessando o Pacífico até atingirem a costa dos Estados Unidos. Mas, chegando lá, os níveis de radioatividade serão dezenas de milhares de vezes menores do que encontramos no Japão. Não há nenhuma possibilidade de a água em que você está surfando conter uma dose de radiação que possa gerar preocupação. Já existem átomos radioativos no mar, e eles não são perigosos. Temos moléculas radioativas naturais e temos também moléculas radioativas provenientes de testes de armas nucleares nos anos 60. Pode ser difícil para as pessoas entenderem que a radiação já estava no mar, mas é o que acontece. E essa radioatividade não faz nenhuma diferença significante”.
Sobre o consumo de peixes e frutos do mar, o cientista afirma: “Os peixes podem sair das áreas contaminadas e atravessar o oceano, mas raramente o fazem – exceto os atuns. Mas, se um atum nadar para longe da zona contaminada, a concentração de isótopos de Césio em seu organismo diminuirá drasticamente. Ela diminui conforme o peixe atinge águas limpas. Em 50 dias, um peixe perde o equivalente à metade do Césio que pode ter adquirido no Japão. Nós temos que tomar cuidado com o pensamento de que todo e qualquer átomo radioativo vai nos matar. Frequentemente estamos expostos a uma série de substâncias prejudiciais e nem por isso corremos risco de vida”.
Sem medo Cerca de 30 surfistas que frequentam a praia de Toyama, a 50 quilômetros da usina nuclear de Fukushima, chegam cedo à praia para aproveitar as ondas. “Devem nos achar doidos, mas o importante, para nós, são as ondas”, brinca Yuichiro Kobayashi, surfista há mais de 30 anos, em declaração à agência de notícias AFP.
Militante de uma associação de preservação do litoral, Kobayashi recolhe diariamente amostras de água do mar e da areia de Toyoma para análises na Escola Técnica Superior de Fukushima. A água está limpa, garante o órgão. De acordo com os padrões japoneses, a água própria para o banho tem até 10 becquerels (unidade de medida para radioatividade) de Césio por litro. Conforme as últimas análises, a água de Toyama está com 6,22 becquerels por litro.