
Existe uma categoria de surfistas diferente das demais: são os caçadores de tubos. Para eles, não importam as ondas cheias, manobráveis e emparedadas. Só importa o trilho do vácuo, a arte de estar dentro da onda sem tocar num só pingo d’água.
É o caso do free-surfer Rosemiro Messiana. Local de Ubatuba, “Miro”, como é conhecido, chegou a tentar uma carreira como surfista profissional, mas seu estilo e aspirações não o conduziram para este caminho. Pelo contrário.
Freqüentador da praia do Félix, desde cedo ele se acostumou a andar por dentro das ondas.
E foi assim, observando surfistas como Josil Mandacaru e Zecão, exímios tuberiders e profundos conhecedores do pico, que Miro tomou gosto pela coisa. Mas Ubatuba não é o bastante para quem tem o sangue de um caçador de tubos. Miro queria mais.

E foi justamente graças ao apoio e incentivo de seus mestres que o garoto já realizou e continua vivendo o sonho da maioria dos surfistas: conhecer as ondas perfeitas da Indonésia e do Hawaii.
Aos 26 anos de idade, a performance dele nos tubos de Padang já rendeu capa e página dupla na Revista Fluir do último mês de novembro, e a temporada havaiana está só começando.
No momento ele está justamente no Hawaii, onde já pegou boas ondas num início de
temporada bastante animador, principalmente em se tratando de ano de El Niño.
Em entrevista feita por e-mail, concedida ao amigo Maurício Branco, que gentilmente nos enviou para ser publicada no Waves, Miro conta como anda a vida fora do Brasil nestes tempos conturbados e diz que vale tudo para realizar o sonho de surfar ondas perfeitas mundo afora.

Miro, como você saiu de Ubatuba, sem patrocínio, para surfar as ondas perfeitas de lugares como Hawaii e Indonésia?
Sempre tive vontade de conhecer ondas de verdade, sair do Brasil e surfar ondas perfeitas e tubulares. Isso veio a acontecer pela primeira vez em 97, numa trip para Puerto Escondido, no México, para produzir material fotográfico para a empresa que me patrocinava na época. Meus companheiros de equipe eram o Renan Rocha e Eduardo “Banana”. Essa viagem foi especial, porque só aumentou a vontade de pegar os tubos. Depois de ver o que era um tubo de verdade decidi que viajar, conhecer novas terras, culturas e ondas diferentes sempre iria fazer parte de minha vida. Em seguida fui para a Indonésia por duas temporadas consecutivas, em 99 e 2000. Nessas viagens tive o “apoio” de meus patrocinadores, porém tive que dar duro e ralar bastante para realizar meus sonhos. Vendi muita roupa para pegar ondas de verdade.

Você teve uma carreira como competidor ou sempre visou o free-surf?
Minha carreira como competidor se resume a alguns campeonatos em Ubatuba. Comecei a pegar onda aos 12 anos e um ano depois participei das primeiras competições no Circuito Ubatuba de Surf, mas nunca cheguei a participar de todas as etapas do circuito. Minha melhor colocação foi um quinto lugar na categoria Mirim no circuito Paulista Amador Ligthning Bolt, na Praia Grande em Ubatuba. Inclusive o campeão desta etapa foi o Binho Nunes. O único campeonato que ganhei foi um universitário em Itamambuca, com altas ondas. Venci a categoria Open Local. Nunca pensei seriamente em ser um surfista profissional, sempre foquei o free-surf.
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Para mim e para a maioria das pessoas a Indonésia é um lugar mágico, especial. Qual é a sua impressão sobre o local?
A Indonésia é o paraíso dos tubos. Depois de conhecê-lo, coloquei na cabeça que esse é um lugar que nunca mais posso deixar de visitar. É por isso que estou na minha terceira temporada. Aliás, foi na Indonésia que surfei os melhores tubos da minha vida. Uma onda que me fascina é G-Land. Aqui é possível entubar fundo e manobrar nas longas paredes. Sem contar o astral do lugar, no meio da selva, onde a única preocupação é entubar o máximo que puder. É a
terra dos tubos infinitos, um lugar exótico e cheio de mistérios. Acho que o sonho de qualquer surfista deve ser de conhecer esse paraíso.
E depois da Indonésia?

O passo seguinte depois da Indonésia era conhecer o Hawaii. Esse sonho eu pude realizar este ano, com muito esforço e ajuda de alguns amigos. Trabalhei durante toda a temporada do turismo em Ubatuba para juntar dinheiro e embarcar pro Hawaii. Juntei algumas economias do que havia ganhado na temporada, trabalhando à noite numa casa noturna. Tive que virar morcego (rs). Troquei o dia pela noite em nome de um desejo, conhecer o Hawaii. Uma das pessoas que me ajudaram foi o Tadeu Pereira (surfista profissional de Ubatuba), me liberando quatro pranchas que ele tinha no Hawaii. Sem essas pranchas eu não teria pegado as ondas que peguei. O Josil (Mandacaru), da Bennet Foam e Superfibra, meu deu uma forca especial. Sem ele eu não teria embarcado para o Hawaii. O Zecão também deu uma força legal, me passando alguns nomes de amigos que ele tem lá, caso eu precisasse de ajuda. E foi assim, ralando, sempre confiante em Deus e contando com a ajuda de alguns amigos, que eu pude conhecer o Hawaii.

Conte-nos um pouco mais sobre essa trip.
Cheguei no Hawaii em março, época conhecida como “spring time” (primavera), quando as ondas não quebram tão grandes, mas sempre perfeitas. O Hawaii é um lugar de muita energia. A descarga de adrenalina é alucinante quando você acorda e se depara com um dia de altas ondas. Sentindo toda aquela vibração, seu coração bate mais forte, sua boca fica seca, você fica mais alerta, seus sentidos ficam mais aguçados. Creio que na primeira vez tudo seja mais intenso.
Surfei todas as ondas com as quais sempre sonhei: Pipeline, Backdoor, Sunset, Rocky Point, Gas Chambers… A única onda que gostaria de ter sufado e não surfei foi Waimea Bay, ainda!! (rs) Mas tive a oportunidade de surfar o outro lado da ilha, o South Shore de Oahu. Peguei Ala Moana Bowls, uma onda difícil de surfar devido ao crowd pesado de locais. Porém, se você chegar com respeito e bom posicionamento é possível pegar altas ondas. E foi o que fiz, cheguei calmo e peguei altos tubos por vários dias. E foi lá que tive meu único acidente no Hawaii.

Sentiu o coral na pele? Como foi?
Era um swell de 6 pés plus, quebrava altos tubos. Estava com minha 7’3, um pouco grande para as ondas, pois existia a previsão que o mar iria subir para até 8 pés. Eu estava amarradão, já tinha pegado altos tubos. Aí veio uma série, varei três ondas. Na quarta tentei varar também, mas não deu (rs). A onda me pegou com força e me jogou com violência no fundo, onde fui direto com o rosto na bancada. Foi como um soco, uma pancada. Fez um corte feio, dilacerou a carne. Já o meu braço sofreu vários arranhões. Levei seis pontos no rosto e fiquei duas semanas cuidando dos ferimentos. Mas é isso aí, valeu a experiência.
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Como você descolava grana no Hawaii?
Esse período no Hawaii foi de muito aprendizado, uma experiência que me acrescentou muito. Nesses quatro meses que passei por lá trabalhei como ajudante. Auxiliei na casa de americanos carregando móveis, cuidando de plantas, deixando o jardim limpo. Auxiliei também numa fazenda de criação de cavalos. Ali eu fazia de tudo, consertava cerca, limpava o estábulo, alimentava os animais, cortava milho, tudo isso para realizar meu sonho: surfar as ondas da minha vida. O meu princípio é “se você deseja alguma coisa, comece a se mexer para realizar seus objetivos”, é dessa maneira que faço minhas viagens. Nada cai do céu, sem patrocínio você só consegue viajar se você se mexer, independente de patrocínio. É claro que eu gostaria de ter um patrocínio, pois dessa forma sobraria mais tempo para surfar e aprimorar minha técnica de entubar, cada vez mais. Mas eu ainda chego lá!!
Sempre te considerei um dos melhores tube riders de Ubatuba. Qual foi o tubo de sua vida?
Não sei apontar o melhor tubo de minha vida, mas posso garantir que entubei em ondas que sempre sonhei, como G-Land, Pipeline, Backdoor, Padang. Porém, posso afirmar que os melhores tubos foram surfados em Speedies (G-Land) e Padang-Padang nessa temporada de 2002.

Como foi a temporada na Indonésia esse ano? Quem se destacou e quais foram os mares memoráveis?
Essa temporada foi diferente, pois nunca havia estado lá nos meses de julho e agosto. E foram meses excelentes! Foi minha melhor temporada em Bali. Decidi ficar e surfar Padang o máximo que pudesse e depois viajar para outras ilhas. E deu tudo certo. Padang não parou de quebrar! Na primeira semana quebrou Uluwatu de gala e logo no fim de semana quebrou Padang. As expectativas se confirmaram e Padang quebrou durante vários dias. Caí em Padang oito vezes em condições excelentes. Porém, houve três dias especiais: num deles tinha 6 pés e o fotógrafo da Fluir Sebastian Rojas estava na água, clicando todos os brasileiros presentes, como Alexandre Macabu, Sylvio Mancusi, Daniks Fisher, Ademir Calunga, Mario Japa, entre outros.
Nesse dia o Sebastian fez a foto da minha vida! Fui capa da Fluir e página dupla (rs). Foi demais!!! Realizei mais um sonho!! Na minha opinião Padang é a onda mais intensa de Bali e uma da melhores da Indonésia. Uma onda rápida, que quebra em frente a um penhasco, sobre uma rasa bancada de coral, capaz de dilacerar a carne e triturar ossos com muita

facilidade. Não é uma onda para amadores. É ao mesmo tempo bela e assustadora. É muito bonito ver a série entrando enquanto você volta para o outside pelo canal. Tudo é muito astral, tanto para quem assiste quanto para quem está lá dentro do barrel.
O melhor momento de Padang é o segundo tubo, uma seção que arremessa o lip lá na base. Muitas vezes você pode relaxar e entubar em pé por eternos segundos, mas se cair ali pode ter sérios problemas. Em 2000, quando estive aqui pela última vez, um surfista quebrou o fêmur, um dos ossos mais fortes do corpo humano, em três partes e teve que ir embora às pressas, pois em Bali os hospitais não têm muitos recursos. Padang voltou a bombar no dia 4 de setembro, com séries pesadas de 8 pés. Foi sem dúvida o maior Padang que já surfei. Algumas séries fechavam o canal entre Padang e Impossibowls. Padang é especial, pois só quebra com grandes ondulações. Já Uluwatu tem que estar com 6 a 8 pés para quebrar Padang do jeito certo. Nessa temporada quebraram vários Ulu’s perfeitos, uma escola de tubos… Perdi a conta de quantos tubos peguei no inside corner!!
Vi muitos brasileiros arrepiando. Caras como Alexandre Macabu, que veio do Hawaii e passou oito meses internado na ilha na última temporada. Ele entubou muito e mostrou toda a experiência adquirida em várias temporadas havaianas. O Calunga, com uma técnica apurada nos tubos, mostrou porquê é considerado um

dos melhores tuberiders do Brasil. Felipe Barreto também mostrou muita força. Um profissional que eu nunca tinha visto surfar ao vivo foi o Daniks Fisher, e ele me impressionou surfando em Padang. Também merecem destaque os free-surfers que já surfam em Bali há muito tempo. Um deles é o Tarzan, que conhece muito a onda de Padang e sabe como ninguém o caminho dos tubos. Foi ele que pegou algumas das maiores em dias grandes. Outro cara que me impressionou pela juventude, disposição e carisma foi o fotógrafo Sebastian Rojas. O cara, apesar de já não ser mais um garoto, ficava horas na água, totalmente embaixo da zona de impacto para captar o melhor ângulo. Mostrou porquê é considerado um dos melhores fotógrafos de água do mundo.
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Como você se sente tendo sido considerado um dos destaques da temporada?
Não me considero um destaque, vim para Bali porque amo surfar esses tubos e queria produzir um bom arquivo de imagens. Fico feliz de ter surfado bem estas ondas, e se alguém ou algum veículo de comunicação me classificou como um destaque, fico muito contente de saber que meu surf está bem qualificado e agradando aos olhos de quem assiste.
E como está sendo este início de temporada havaiana?
Este começo de temporada está alucinante, as ondas não páram de quebrar. Waimea já começou a quebrar em outubro. Segundo relatos de pessoas que visitam e moram na ilha há algum tempo, é raro Waimea quebrar neste mês. Freqüentes ondulações têm atingido o North Shore, proporcionando boas ondas em todas a praias. Já peguei altas ondas em Pipeline e Sunset. Procuro cair o máximo de vezes que posso em Pipe para melhorar o posicionamento ali, toda caída é sempre um aprendizado. Este ano temos o fenômeno El Niño e pode se esperar muito desta temporada.
Agora que você voltou ao Hawaii, vai encarar Waimea desta vez?

Com certeza! É uma onda que quero surfar, sentir de perto todo aquela energia. Waimea não pode passar batida por nenhum surfista que deseje sentir todo o power havaiano.
E Pipeline grande? Considera um desafio ou apenas uma conseqüência natural de sua evolução?
Pipe grande é sempre um desafio, uma onda que merece muito respeito. Uma onda que desafia e que é uma evolução para qualquer surfista que deseja um bom posicionamento nos tubos e uma boa descarga de adenalina nas veias. Surfar Pipe perfeito e pegar tubos profundos é o meu sonho e espero realizar esse desejo nesta temporada de 2002/03.
Como você está de patrocínio? Tem algum apoio?
No momento estou sem nenhum patrocínio principal. O Zecão shapeia minhas pranchas e tenho co-patrocínio da SuperFibra, que dá todo o suporte necessário para produzir o equipamento. Estou procurando uma empresa que acredite no meu surf e no meu potencial. Gostaria de poder fazer um bom trabalho com uma empresa que queira vincular sua marca a um atleta sem vícios, a não ser o de entubar fundo (rs), com saúde e que corre atrás daquilo que deseja. E que tem o surf no sangue e na alma.

Você nunca teve moleza para seguir sua carreira no surf. O que tem a dizer para aqueles que enfrentam os mesmos problemas que você enfrentou?
Nunca desista de seus sonhos e não deixe para amanhã o que pode ser feito hoje. Focalize seus objetivos, confie em Deus e trabalhe para realizar seus desejos, pois nada cai do céu. Se você deseja surfar ondas de sonho, ouça seu coração e não se prenda na idéia de que é impossível viajar sem patrocínio. Acredite no seu desejo, confie em Deus e vá em frente! Foi assim que saí do Brasil sem patrocínio e com dinheiro apenas para passar 20 dias e já estou viajando há seis meses. Acredite em você e sempre conseguirá tudo o que desejar.
Com tantas emoções pelo mundo, bate saudades de surfar o Félix perfeito só com os amigos?
O Félix é um lugar especial, não só pelas ondas, mas pela beleza natural, o astral. Sem dúvida é minha onda preferida em Ubatuba. Toda minha experiência em tubos vem de lá, vendo o Josil entubar por trás do pico. Aprendi muito vendo ele entubar ali. A realidade que estou vivendo aqui, os tubos que tenho pegado, a dimensão das ondas não me permite ter muitas saudades do Félix, porém, se eu disser que não estou com saudades estaria mentindo. Mas tenho consciência de que o Félix é minha casa e mais cedo ou mais tarde estarei lá novamente, entubando como nunca.

Quais são seus planos para os próximos meses?
Pretendo ficar no Hawaii até março. Depois, se tudo correr bem, quero conhecer o Tahiti.
Se isso se concretizar não sei quando volto para o Brasil, agora, se aparecer uma boa proposta de patrocínio volto para fechar contrato e depois vou para o Tahiti (rs).
Agradecimentos e considerações finais.
Agradeço a Deus por me dar saúde e me ajudar a realizar meus sonhos. Mais uma vez gostaria de agradecer ao Josil, ao Tadeu Pereira, ao Zecão e à você, Maurício Branco, que foram pessoas que sempre me ajudaram em tudo que foi possível. Valeu!! Gostaria de dizer àqueles que têm um sonho que nunca desistam, corram atrás, insistam e confiem que tudo caminhará da maneira correta para que seus desejos se realizem. Aloha!
Para entrar em contato com Rosemiro mande mensagem para [email protected] .
*Maurício Branco é publicitário, surfista e ex-gerente de marketing da Tavarua SurfCo.